Um dia santo

Cacá Diegues - Jornal O Globo - 11 março 2022

Todo mundo tem meus telefone e endereço de email. Foi um princípio que Flora minha filha me ensinou; se eu não gostasse da cara ou não quisesse atender, simplesmente não tomava conhecimento da mensagem, ia adiante como se não tivesse recebido nada. Depois, se fosse o caso, culpava a telefônica ou coisa parecida pela falha. Sempre deu certo. Sobretudo em períodos como o atual, com uma guerra, suas notícias chocantes e suas terríveis imagens a nos sobressaltar a todo momento.

Não acho que seja um privilégio, não vejo graça nenhuma em disputar com parentes e amigos a visão inaugural dos piores desastres humanos, dos restos de um hospital pediátrico em Mariupol às hordas de mães ucranianas fugindo das bombas russas com seus bebês no colo mal protegido. Ainda mais porque, fora a observação do horror evidente nos rostos e nos gestos do povo da Ucrânia, não tenho como julgar o que se passa na cabeça e no coração dos russos responsáveis ou não pelas batalhas dessa guerra. Muitos deles podem ser também vítimas de seus comandantes mal intencionados.

Só sei que, por tudo que já sei, não vou com a cara de Vladimir Putin, nem gosto do que ele costuma defender. Mas nem por isso considero Volodymyr Kelensky intocável, um herói da humanidade. Um doce de criatura quando se trata de defender eslavos, no que está certíssimo; mas mais para o ausente quando se trata de dar guarida aos africanos que fogem de dificuldades econômicas e da perseguição política em seus países.

Quando vejo na televisão os constantes confrontos entre Putin e Kelensky, traduzidos às vezes apenas por coisas ditas ao azar, ou simples documentários produzidos por seus próprios jornalistas de fé, tenho a sensação de estar diante de um antigo encontro entre um eleitor petebista de Jango e um velho membro da ala jovem da UDN, no Brasil dos anos 1960. Entre outras coisas, não consigo tomar partido entre um e outro, embora prefira sempre ouvir Kelensky tocando seu violão e cantando, em dupla com a bela esposa, “My endless love”. Como está no vídeo que, como outros sortudos, recebi por WhatsApp em meu celular, o que certamente não representa uma preferência. Nem minha, nem dele.

Como fica difícil julgar quem se comporta com mais sinceridade, então só nos resta torcer. Torcer por um dos lados, como costumamos fazer num estádio de futebol; ou porque sempre amamos aquele time e aquela camisa de desenho abstrato e único; ou porque é aquele o futebol que de fato amamos e queremos ver. Seja por que motivo for, não nos entregamos por nada, temos razões suficientes e bem fundamentadas para preferir um rumo ao outro. Aliás, qual é mesmo o seu?

Numa semana em que a mulher, de um modo geral, foi tão mal tratada ou tratada gentilmente como um animalzinho que merece nossos cuidados, exatamente nessa semana deixamos que seus valores sejam resgatados em nome de uma convivência mais produzida entre nós e elas. Não importa exatamente se elas se sentem mais felizes ou infelizes, assim ou assado. Importa que é assim que podemos começar a resgatar nossas culpas em relação ao tratamento que a elas dedicamos, sejam ou não nossas companheiras.

Curiosamente escrevo esse texto no fim da tarde de sexta feira, dia 11 de março, dia em que se comemora Santa Tecla de Icônio, uma santa do século I que foi convertida e batizada por São Paulo. Só muito recentemente descobri que esse é também o dia de Santa Flora, uma santa espanhola que gostava muito de viver. Um dia, conto para vocês a história dela.

Destaques

Premiações e Eventos

200 Anos da Independência do Brasil em Alagoas

Fapeal, Imprensa Oficial Graciliano Ramos, Edufal e Eduneal celebram os 200 Anos da Independência do Brasil em Alagoas Comemoração marcada para o dia 23 de março, às 19h, no Teatro Deodoro, terá exposição, apresentação musical da banda Divina Supernova, lançamento de livros, sessão de autógrafos e um bate-papo especial com o cineasta Cacá Diégues. Evento gratuito e aberto ao público
A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal), Imprensa Oficial Graciliano Ramos e as editoras da Universidade Federal de Alagoas (EdUfal) e da Universidade Estadual de Alagoas (EdUneal) abrem o calendário comemorativo dos 200 Anos da Independência do Brasil em Alagoas com um evento literário de peso. No dia 23 de março, a partir das 19h, no Teatro Deodoro, será realizada uma ação cultural com exposição, lançamento de livros, sessão de autógrafos com autores alagoanos, show da banda Divina Supernova e um bate-papo especial com o cineasta Cacá Diégues, membro da Academia Brasileira de Letras, autor de alguns dos filmes mais importantes do cinema nacional como Bye Bye Brasil, Xica da Silva e O Grande Circo Místico.
Durante o evento, haverá uma exposição com cerca de 300 livros publicados pelos parceiros e organizadores do evento ao longo dos últimos oito anos que marcam a gestão do governador Renan Filho. “A Fapeal e as editoras públicas do estado promoveram uma publicação recorde de livros e pretendemos dar visibilidade a toda essa produção nesta noite de celebração para a literatura alagoana”, afirma Fábio Guedes Gomes, diretor-presidente Fapeal e idealizador da iniciativa. A exposição intitulada 200 Anos de Independência do Brasil em Alagoas – Uma celebração Literária, é a primeira de uma série de ações comemorativas que serão realizadas ao longo deste ano para enaltecer os dois séculos da soberania política e econômica brasileira, conquistada em 7 de setembro de 1822.
Além da mostra, serão realizados lançamentos de quatro livros inéditos e de seis novas edições de obras consagradas que há anos se encontram fora dos catálogos das editoras comerciais. As estreias literárias ficam por conta de: O imaginário de Cacá Diégues na construção de uma estética alagoana, de autoria de Edson Bezerra e Luiz Fernando Magalhães; Alagoas Memória Salobra, do fotógrafo Francisco Oiticica; além dos estudos acadêmicos Políticas públicas e o perverso privilégio dos pobres, organizado pelo professor Reginaldo Souza Santos e o Avaliação do consumo alimentar aplicado a grupos de indivíduos e populações, organizado pela professora Sandra Mary Lima. Também serão lançadas novas edições do Guia da Gastronomia Popular Alagoana, da jornalista e influencer Nide Lins; Cantigas das destaladeiras de fumo de Arapiraca, de autoria do historiador, escultor e mestre da cultura popular Zezito Guedes; e Habitus, campo e mercado editorial - A construção do prestígio da obra de Graciliano Ramos, do professor, filósofo e poeta Cosme Rogério. A noite literária reserva ainda uma homenagem especial ao escritor santanense Breno Accioly cujo centenário de nascimento foi comemorado no ano passado. Durante o evento serão apresentadas ao público leitor novas edições de João Urso – livro de contos, considerado sua obra-prima – além de Cogumelos e do romance Dunas. 300 OBRAS
Durante a gestão do governador Renan Filho, a Imprensa Oficial Graciliano Ramos produziu cerca 300 publicações, entre livros e revistas. Deste total, metade foi fruto principalmente de parcerias editoriais com a Fapeal, EdUfal e EdUneal, além de outras parcerias com órgãos como o Arquivo Público de Alagoas e secretarias de Estado, entre elas, a de Comunicação, Fazenda, Turismo e Desenvolvimento Econômico. “Foi uma produção editorial ampla e diversificada”, resume Maurício Bugarim, diretor-presidente da Imprensa Oficial Graciliano Ramos. De acordo com o executivo, a gráfica e editora do Governo do Estado atualmente dispõe de um catálogo de livros capaz de agradar a todos os tipos de leitores com obras de ficção e de não ficção, assinadas por autores clássicos e contemporâneos. “Nos últimos anos, a Imprensa Oficial Graciliano Ramos fortaleceu sua política de fomento à literatura local, dando espaço para o surgimento de novos talentos literários, selecionados a partir de editais públicos, ao mesmo tempo em que permaneceu fazendo o resgate de obras relevantes de autores que se tornaram clássicos como Lêdo Ivo, Jorge de Lima, Romeu de Avelar, Abelardo Duarte, só para citar alguns”, afirma.

SERVIÇO
200 Anos de Independência do Brasil em Alagoas – Uma celebração Literária
Local: Teatro Deodoro
Data: 23/03/22
Horário: 19h
Evento gratuito e aberto ao público
Contato: Patrycia Monteiro, coordenadora editorial da Imprensa Oficial Graciliano Ramos. Telefone: 82 3315-8303 ou 99351-5315

Cacá Diegues é homenageado em Paulínia

Diretor de filmes consagrados no Brasil como “Bye, bye Brazil” e “Xica da Silva” , Cacá Diegues foi homenageado no final do 6º Paulínia Film Festival. O troféu Menina de Ouro foi dado pelo curador da mostra, Rubens Ewald Filho.

Cacá é convidado para 12ª FLIP

Cacá foi convidado juntamente como o músico Edu Lobo para participar de um debate na 12ª FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty). O papel central de Carlos Diegues na cultura do país remonta aos primórdios do Cinema Novo, do qual foi um dos articuladores. Nascido em Maceió, em 1940, inaugurou sua carreira profissional em 1961, ao filmar “Escola de Samba Alegria de Viver”, episódio do longa Cinco vezes favela (1961).