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Leia aqui a coluna quinzenal de Cacá Diegues no jornal O Globo do Rio de Janeiro

A coluna é publicada aos sábados, na página de opinião do jornal, em seu primeiro caderno. Confira os artigos já publicados.

 

 

 

 

Um humanismo radical

 

 

Cacá Diegues   = = = = = =     19 fevereiro 2014

 

 

A humanidade vive em crise e é natural que seja assim. A crise é o estado humano por excelência, o momento em que a mudança precisa se impor, a vitória da insatisfação. Às vezes, no entanto, este estado de crise sofre uma exacerbação, se torna desumano, produz guerra. Todo cuidado é pouco.

 

 

Insisto em que de Itamar a Lula, passando por FHC, vivemos os melhores anos da república brasileira, em quase todos os sentidos. Nesses dezoito anos, consolidamos nossa jovem democracia, conquistamos a liberdade de todos, consagramos a ideia de direitos humanos no país, estabilizamos a moeda, fizemos crescer nossa economia, iniciamos uma importante distribuição de renda, nos tornamos internacionalmente emergentes. Até voltamos, depois de um jejum de 24 anos, a ser campeões do mundo, em 1994 e 2002. 

 

 

Nada disso aconteceu num mar de rosas, na paz de um lago suiço. As respectivas oposições a esses governos foram sempre duras e implacáveis, injustas ou não. Das privatizações de FHC ao mensalão de Lula, as crises se sucederam entre os partidos, os homens que os representavam e as organizações sociais que os apoiavam. Até junho do ano passado, o povo não organizado parecia estar apenas assistindo em silêncio ao teatro político da nação. 

 

 

O mandato de Dilma começou com um horizonte de paz. O país andava bem e havia uma espécie de wishful thinking de que, sendo ela antes de tudo uma gestora, seu governo se passaria sem graves conflitos políticos, num patamar de entendimento e compreensão superior ao dos presidentes precedentes. Mas de repente, sem aviso prévio, “o gigante acordou”.

 

 

Foi bom que ele acordasse. Além de ser um sinal de que os benefícios do passado recente haviam produzido, pelo menos em parte da população, o sentimento adormecido de cidadania, as manifestações punham em discussão temas públicos nem sempre novos, mas sempre indispensáveis, como os da corrupção, da crise da representação popular, da mobilidade urbana, da educação e da saúde, dessas coisas que nunca ocorreram aos príncipes no sossego de Brasília.

 

 

A propósito disso, Marcus Faustini publicou terça-feira passada,  aqui no Globo, excelente artigo sobre amor e politica em que diz que “nunca tivemos tantos jovens nesta cidade envolvidos com as questões urbanas como agora. Generalizar todos eles como meros instrumentos do jogo da grande política, é perder uma chance de renovação dos agentes públicos de que essa cidade precisa”. E termina citando Aristóteles: “uma cidade é composta de diferentes tipos de homens, pessoas semelhantes não podem dar existência a uma cidade”. Podemos trocar “cidade” por “nação”, e eis aí o Brasil.

 

 

É claro que as manifestações devem continuar, precisamos construir uma democracia ativa, nos tornarmos seres mais plenos no exercício da política como forma de pensar no outro. Mas não podemos, através delas, voltar ao estado selvagem e sem regras cultivado durante tanto tempo pela ditadura militar, dando preferência à porrada que tanto combatemos. Não podemos politizar a morte, transformar em mera querela politica o desaparecimento de alguém, seja de que lado for. Quando alguém morre, o mundo desaparece com ele, as ideologias viram pó.

 

 

Os manifestantes querem mudar o mundo, e é mesmo insuportável conviver com a injustiça e a miséria, com o egoísmo brutal dos poderosos e o desinteresse geral pelo outro. Entre os que se manifestam em nome dessas ideias e o poder que os reprime, vou estar sempre ao lado dos primeiros. Mas por que precisamos de vítimas para tornar visíveis nossas ideias?

 

 

Não é possível que a única estratégia para a mudança seja eliminar quem não está de acordo conosco. Ninguém tem o direito de ter tal confiança no que pensa sobre o mundo, a ponto de se permitir exterminar alguém com tiro, bomba ou rojão. Não posso achar idealismo ferir para impor ideias. E, se é assim, nada pior do que um idealista armado.

 

 

Outro dia, vi exposição recém-inaugurada de fotos de Henri Cartier-Bresson, no Centro Georges Pompidou. Considerado o “fotógrafo do século 20”, Cartier-Bresson inaugurou com suas fotos uma espécie de antropologia visual, registrando os mais importantes acontecimentos mundiais do século, sempre do ponto de vista do ser humano em circunstâncias que não foram criadas por ele.

 

 

De certo modo, Cartier-Bresson registrava, além de seus personagens, o ar em volta deles.  Seu humanismo militante e radical o levou da convulsão da guerra civil espanhola à solidão de um homem sob a chuva em Paris, das tragédias da segunda guerra mundial na Europa aos meninos de rua de Nova York, das belezas geométricas da Toscana à multidão em pânico com a chegada de Mao a Shanghai.

 

 

A obra compassiva de Cartier-Bresson nos lembra sempre da injustiça que fazemos aos outros em nome de nossas próprias ideias.

 

 

 

 

carlosdiegues@uol.com.br

 

 

 

 

 

Uma homenagem merecida

 

 

 

 

 

Cacá Diegues   = = = =  6 fevereiro 2014

 

 

 

 

Para os que crêem, Deus é o que não sabemos, o que não conhecemos, o que não podemos controlar. Atribuimos o mistério a Deus para evitar a depressão da impotência. Para os que não crêem, é só trocar Deus pelo destino.

 

 

 

 

Quando conseguimos explicar os fenômenos diante de nossos olhos, o conhecimento religioso e as superstições se tornam mito, derrubando a autoridade dele e delas. Durante séculos, o sol girou em torno da terra, para não abalar o poder da Igreja.

 

 

 

 

Segundo o Gênese, o primeiro delito cometido por um ser humano foi o do conhecimento. Contrariando as ordens do Senhor, Adão e Eva colheram o fruto da árvore do bem e do mal, conquistaram a razão que os diferenciaria do resto da criação.

 

 

 

 

O segundo delito foi um assassinato em família – com ciúme de Abel, Caim assassinou o irmão. O “familicídio” continuaria povoando a mitologia de nossas origens, desde que Abrãao se dispôs a sacrificar seu filho para servir a Deus. Ou quando Édipo matou Laio, seu pai.

 

 

 

 

Em nome da razão que conquistamos para desgosto de Deus, não conseguimos aceitar o inesperado, o que consideramos anti-natural, aquilo que os gregos chamaram de tragédia. Preferimos não tentar entendê-la, não tentar decifrar sua natureza. Aceitámo-la assustados e inertes, como uma fatalidade que não podemos evitar, nem nos interessa saber de onde veio ou para onde vai.

 

 

 

 

Desde domingo passado, muita coisa se escreveu sobre o cineasta Eduardo Coutinho, mas quase nada sobre a tragédia de que ele foi vitima. Os elogios a ele e seu trabalho são mais do que justos. Coutinho não foi somente o maior documentarista da história do cinema brasileiro, como também um dos cineastas mais importantes no cinema contemporâneo em todo o mundo.

 

 

 

 

Seus filmes eram uma tentativa permanente de conhecer e entender o ser humano, sobretudo aqueles a nosso lado, os mais desimportantes. Coutinho sabia que a humanidade era uma só, que as nossas diferenças não nos separavam. Era tudo natural e ele observava isso com curiosa naturalidade.

 

 

 

 

A geração de Coutinho, à qual eu também pertenço, fez sua cabeça nos anos 1960, quando o mundo viveu revoluções de comportamento, gestos de rompimento com o passado de injustiças, preconceitos e regras inúteis. A negação das instituições estabelecidas nos levou aos direitos civis, à liberdade sexual, à cultura pop, à consagração do relativismo, à afirmação dos negros, à liberação das mulheres, ao orgulho gay, à informação instantânea, ao valor da psicanálise como reconstrução do indivíduo, a sexo, drogas e rockn’roll.

 

 

 

 

Os anos 1960 acolheram as aspirações de uma juventude que queria mudar o mundo de um modo diferente do proposto até ali. Segundo Contardo Calligaris, a contracultura foi “a única revolução do século 20 que deu certo e, ao dar certo, melhorou a vida concreta de muitos, se não de todos”.

 

 

 

 

Uma dessas mudanças estava na anti-psiquiatria inaugurada pelo italiano Franco Basaglia e pelo inglês Ronald Laing. Para esses cientistas, o que era considerado tradicionalmente como loucura, eram apenas formas originais e às vezes mais radicais das mentes humanas se manifestarem. O “louco” convencional passou a ser uma espécie de arauto de novidades sobre o homem, que o “normal” não conseguia exprimir.

 

 

 

 

Nos anos 1970, Michel Foucault, um de nossos ídolos do relativismo, publicava livro cujo título era a primeira frase do depoimento feito na Justiça francesa, em 1835, por um preso por assassinato: “Eu, Pierre Rivière, que degolei minha mãe, minha irmã e meu irmão”. Pierre Rivière, jovem camponês, assassinara a golpes de foice sua mãe grávida de sete meses, sua irmã de 18 anos e seu irmão de sete anos. O que o teria motivado a cometer um ato de tamanha brutalidade? Foucault tentava explicá-lo de modo inteligente e sofisticado, opondo o trabalho jurídico ao psiquiátrico. Mas a mãe e os irmãos de Pierre Rivière estavam definitivamente mortos.

 

 

 

 

Esses crimes de “familicídio” se repetem ao longo da história da humanidade. Agora que a população do planeta se multiplica em ritmo geométrico, tudo o que acontece com ela também se multiplica, inclusive a tragédia. E a comunicação de tudo que se passa nos chega mais rapidamente, pela informação instantânea através do mundo inteiro, aumentando a importância do número de crimes.

 

 

 

 

A vida acaba sem que você saiba de onde veio o golpe, mas uma obra como a de Eduardo Coutinho ficará para sempre. No curso da história, seus filmes estarão sempre na lembrança de todos, enquanto sua morte mal será lembrada como uma trágica anedota que não altera o que ele fez. Mas... e se Daniel pudesse ter sido internado, afastado, de algum modo mais humano que a barbárie do hospício, do convívio com aqueles que poderia destruir?

 

 

 

 

É preciso fazer um documentário sobre Coutinho, é a maior homenagem que se pode prestar a ele. Não um doc inocente, mas um filme que faça perguntas que desvendem a vida, como ele sabia fazer. Não basta o clássico depoimento de amigos que o amavam e o admiravam tanto, como todos nós. É preciso ouvir os personagens e os entrevistados semelhantes aos de seus filmes, seus vizinhos, seu filho promotor, a viúva ferida e sobretudo Daniel.

 

 

 

 

 

 

 

 

carlosdiegues@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O pânico dos pobres

 

 

 

 

 

Cacá Diegues   -- -- --    24 jan 2014

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um espectro ronda os shopping centers — o espectro dos rolezinhos. Todas as potências da ordem unem-se numa Santa Aliança contra os adolescentes que os praticam.

 

 

 

 

 

Esse embate não começou agora – em agosto de 2000, o século começava no Rio de Janeiro com uma visita (invasão, para os mais agoniados) de moradores de favela e sem teto ao shopping Rio Sul, um dos mais bem equipados da cidade. Para desgosto dos lojistas e náusea de clientes, o pessoal entrou ordenamente, observou as vitrines, colheu preços, experimentou umas camisas e subiu para a praça de alimentação, onde as famílias comeram o lanche que haviam trazido de casa, sanduiches de mortadela no pão francês, com água potável e café guardados em garrafas térmicas. Eram quase todos negros.

 

 

 

 

 

Segundo depoimento da vítima, uma senhora foi barrada no toalete do shopping, quando tentava ali entrar com o filho pequeno que se borrara depois da mortadela. Uma frequentadora do shopping defendeu-a, alertando o segurança para o direito que tinha de usar o toalete, como qualquer outro cidadão necessitado. Parece que ela conseguiu finalmente limpar seu filho, depois que os outros fregueses apertados deixaram o espaço apressados.

 

 

 

 

 

A Constituição protege o direito de todo cidadão ir e vir como bem entender, para onde bem desejar. Assim como protege o direito de cada um preservar sua propriedade privada. Mas shoppings não são exatamente propriedades privadas, como um lar, um automóvel, um par de patins. Eles se parecem mais com hoteis e restaurantes, que têm seus regulamentos próprios mas não podem discriminar os fregueses pela aparência. Nem por preconceito social.

 

 

 

 

 

Os adolescentes da periferia de São Paulo, a cidade onde mais se consome no Brasil, inauguraram, desde dezembro do ano passado, uma temporada estival de rolezinhos, alegres visitas (outra vez, invasões para os mais agoniados) aos shoppings da capital. São meninas e meninos, em geral entre 13 e 18 anos, que marcam encontro com seus correspondentes em redes sociais, para se conhecer, trocar ideias, beijar uns aos outros, cantar e dançar funk.

 

 

 

 

 

Um deles, Lucas Lima, líder de 16 anos, disse em entrevista que “a gente só quer ver os amigos, conhecer gente, comer no Mac”. E por isso apanham da polícia. O mesmo rapaz diz ainda que “não perco meu tempo em manifestações políticas, os políticos vão continuar sempre roubando”.

 

 

 

 

 

Está certo a polícia intervir para evitar que se cometam delitos, se quebrem vitrines, se roubem produtos de lojas. Ela tem obrigação de defender a segurança do shopping e de seus frequentadores. Mas se nada disso acontece, qual o pretexto para baixar porrada na rapaziada como vem acontecendo? É o secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, que diz no jornal que “o rolezinho não é crime, só vamos atuar quando acontecer algo que demande a intervenção da polícia”.

 

 

 

 

 

A consequência da atitude desastrada da polícia, sempre em estado de guerra contra a população, é justamente a de criminalizar e politizar atividades cidadãs. Ela atraiu, para as manifestações de rua do ano passado, os vândalos excitados por sua violência, assim como agora provoca ações cheias de outras intenções que não as dos adolescentes.

 

 

 

 

 

Em vez de nos ocuparmos apenas com o que os adolescentes da periferia paulista fazem nesses rolezinhos, a pergunta mais pertinente seria:  por que o fazem? O mesmo Lucas Lima, expulso de um shopping pela polícia, responde: “Se eles não querem que a gente venha ao shopping, então arranjem um lugar para a gente se divertir”.

 

 

 

 

 

Os rolezinhos são um sinal de que nossos eternos excluidos não só desejam se integrar à sociedade, como também revelam ter consciência desse direito. Eles não querem ficar à margem, vendo a banda do consumo passar. Os cariocas dizem que os shoppings são a praia do paulista – alguém entenderia alguém ser barrado numa de nossas praias?

 

 

 

 

 

O mais importante é a redescoberta permanente de nossos problemas de péssima educação. Não a educação como formação de comportamento submisso, mas como preparação de nossos jovens para a vida, tenham eles a origem que tiverem. As famílias e as escolas, em geral, preparam a juventude para um futuro que não está ao alcance de sua vista, baseadas no mito castrador de que é preciso sacrificar o presente para ser feliz no futuro. Se o filho não tirar 10 em matemática, estará proibido de surfar e dançar funk no fim de semana, quando o importante é inserir o surf e o funk no ensino da matemática.

 

 

 

 

 

Não podemos pensar na felicidade no futuro, às custas do presente. É no presente que eles vivem, é para o presente que devemos antes de tudo prepará-los. Essa multidão de jovens de nossas periferias e favelas não quer outra coisa senão visibilidade, não pede outra coisa senão oportunidades que só podem surgir da educação.  Enquanto os frequentadores de shoppings tiverem pânico dos pobres, o país não se tornará uma democracia de verdade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

carlosdiegues@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

Por seleção artificial

 

Cacá Diegues      -- -- --    10 jan 2014

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nesse fim de ano, li mais os jornais e fiquei surpreso com os avanços da humanidade. Parece que já podemos alterar nosso DNA, fotografamos nosso cérebro, achamos cristais que convertem energia solar em eletricidade, descobrimos novas supernovas que explicam a origem do universo, e muito mais. Para não falar da televisão de 110 polegadas, megas TVs com UltraHD e resolução 4K, que podem acabar com as salas de cinema, onde passam nossos filmes. Tudo isso eu li nos jornais.

 

 

 

 

 

O que não li no jornal, eu mesmo inventei. Uma história verossímil sobre a evolução das espécies por seleção artificial, um passo bem à frente da seleção natural de Darwin, que contei à revista “piauí” no fim de 2008.

 

 

 

 

 

Imagine que na terceira ou quarta década do século 21, o mapa do genoma humano tenha sido enfim integralmente decifrado. A manipulação de células troncos servia agora para curar todas as doenças, permitindo maior extensão da vida. A nova medicina se tornou conhecida como genoterapia.

 

 

 

 

 

Por ser cara, a genoterapia só estava ao alcance de famílias ricas de países ricos. Mas líderes árabes, altos funcionários asiáticos, ditadores africanos e bilionários latino-americanos, também compraram o acesso a ela. As pessoas beneficiadas pela nova terapia foram chamadas de genos.

 

 

 

 

 

Em breve, o número de genos crescia, permitindo aos laboratórios viver da nova medicina. Os lucros com ela se tornaram tão elevados que eles deixaram de fabricar medicamentos convencionais, responsáveis por custo-benefício insignificante.

 

 

 

 

 

Os que não tinham condições financeiras de se beneficiar da genoterapia se organizaram para evitar que desaparecesse o que havia restado da medicina convencional. A disputa por médicos e medicamentos convencionais provocou ferozes guerras localizadas. Mas os genos não se envolveram nelas, limitando-se a agir por motivos humanitários, impedindo o uso de armas químicas e nucleares de destruição em massa.

 

 

 

 

 

A vida já tinha se estendido a possibilidades centenárias para os genos, quando uma crise gigantesca atingiu os não-genos. Vivendo em condições sanitárias lastimáveis provocadas pelas guerras, os não-genos foram assolados por grandes epidemias. Passaram então a tentar se apropriar ilegalmente dos benefícios da genoterapia, praticando roubos, assaltos, sequestros e outros crimes. As autoridades foram obrigadas a declará-los inaptos à convivência democrática e a negar-lhes o direito de cidadania, isolando-os ainda mais.

 

 

 

 

 

Por essa época, bio-neuro-cientistas descobriram o infra-ego, o regente de um mecanismo autônomo que ordenaria o conjunto do corpo humano, o oposto simétrico do super-ego. O infra-ego regia a circulação do sangue, o sistema digestivo, a respiração do ser humano, comandando a harmonia necessária entre as atividades orgânicas.

 

 

 

 

 

Cientistas mais astutos chegariam à seminal descoberta de que o infra-ego era também capaz de por ordem nas mentes humanas e controlá-las artificialmente, reorganizando o sistema moral de cada um segundo seu próprio programa individual, neutralizando interferências indesejáveis do super-ego.

 

 

 

 

 

A interação entre pesquisas da genoterapia e do infra-ego aproximou a pequena humanidade que se beneficiava delas de uma existência quase milenar, cujo sentido não cabia mais na simples palavra “vida”. Em harmonia com a natureza, a procriação dos genos logo sofreu uma mutação genética, tornando-se uma nova espécie dentro do gênero humano. Lembrando a origem de sua evolução, biólogos e antropólogos chamaram a nova espécie de homo-ricus. 

 

 

 

 

 

Enquanto isso, os decadentes homo-sapiens perambulavam em desordem pelos continentes, fugindo com suas famílias das cidades empestadas e em ruínas, a vida cada vez mais curta. Os estados entraram em colapso e as nações começaram a desaparecer, impossibilitadas de conservar suas fronteiras e os laços entre seus cidadãos. A linguagem começou a sumir por perigosa e as manifestações culturais rarearam por desnecessárias.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os homo-ricus progrediam rumo a vida cada vez mais saudável, a mentes mais livres de ilusões, a existências mais longas e despreocupadas, fundamentos de uma cultura de sabedoria e contemplação. A lembrança dos homo-sapiens se restringia à narrativa científica da evolução, como eucariontes bípedes, primatas e ancestrais como tantos outros animais existentes ou extintos. Primeiro para evitar sua aproximação, depois por diversão e esporte, os homo-ricus passaram a caçar os homo-sapiens. Como se caçava macacos num passado longínquo.

 

 

 

 

 

Áreas reflorestadas do subcontinente sul-africano, do sudeste asiático e da América do Sul, foram transformadas em reservas, onde os homo-sapiens restantes eram mantidos em estado natural. Um mínimo de caçadas autorizadas capturava poucos exemplares para zoológicos, onde eram mantidos para estudos de sábios e diversão das crianças.

 

 

 

 

 

Em algumas reservas, a caça mortal aos homo-sapiens era permitida, em temporadas precisas, com absoluto controle do número anual de vítimas. A carne deste animal em extinção havia se tornado rara e nobre, só era servida em circunstâncias muito especiais, sobretudo por ocasião do Natal, quando a iguaria substitua o antigo e já extinto peru.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

carlosdiegues@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

Hoje a festa é sua

 

Cacá Diegues    - - - - - - - - - -   13 dez 13

 

 

 

 

 

 

 

Por razões profissionais, me encontro em Lisboa nessas vésperas de Natal. Adoro essa cidade. Não só porque ela é linda, elegante, afetuosa e fala a nossa lingua, como também porque aqui percebo de onde vim.

 

 

 

 

 

 

 

Como Portugal não participou de nenhuma daquelas guerras arrasadoras e genocidas do século 20, Lisboa permaneceu inteira. Isso é, inteira como sempre foi depois de destruída por um terremoto seguido de maremoto que acabou com dois terços da cidade, em 1755. Ao contrário do que escreveu Lévy Strauss sobre o Brasil exibir uma decadência que não conheceu a civilização, as poucas ruínas de Lisboa parecem intervenções urbanas contemporâneas, como as que produz em outras cidades Gordon Matta-Clark, autodenominado “o anarquiteto”, com manipulação artística de prédios em demolição.

 

 

 

 

 

 

 

É comovente ver uma juventude lisboeta moderna, a passear pelas velhas vias da cidade vestindo, cantando e dizendo algo à altura do que veste, canta e diz qualquer jovem em Nova York, Londres, Paris ou Barcelona. Assim como não é possível deixar de pensar numa cultura secular, quando se come muito bem em qualquer canto caro ou barato de Lisboa.

 

 

 

 

 

 

 

No ensaio “Notas para uma definição de cultura”, T.S.Eliot diz que cultura e conhecimento não têm nada a ver, não são a mesma coisa, aquela antecede a este. O conhecimento é uma forma superior das relações do homem com a natureza, enquanto a cultura faz parte e é indispensável à própria existência do homem sobre a terra.

 

 

 

 

 

 

 

Já cansei de dizer a meus amigos que devíamos nos orgulhar de termos a origem portuguesa que temos. Devíamos aproveitar o fato de sermos a única nação luso-afro-indígena do mundo. Alguma coisa de original temos que extrair dessa mistura, daí sairia nossa potencial contribuição à civilização humana, poderíamos torná-la mais fraterna, solidária e indiferente às diferenças.

 

 

 

 

 

 

 

Vizinha à torre de Belém, me espanto com a reprodução de uma nau das descobertas, uma daquelas barcacinhas frágeis em que nossos antepassados portugueses se atiravam ao mar, indo com o vento parar na India e no Japão. Ou nas terras desconhecidas do que seria o Brasil. Uns loucos, esses navegadores; loucos cheios de curiosidade e de esperança no que haveriam de encontrar.

 

 

 

 

 

 

 

É bom pensar em tudo isso nessa véspera de Natal, a festa do recomeço. O grande poeta alagoano Jorge de Lima, um dos maiores da língua portuguesa, dizia que a diferença cultural entre os catolicismos hispânico e lusitano, que nos formaram a todos na América Latina, é que a festa máxima dos espanhois é a da Paixão, representada pela imagem do Cristo em chagas a sofrer na cruz, ferido de morte por nossos pecados.

 

 

 

 

 

 

 

Já a festa portuguesa por excelência, a que herdamos deles, é a do Natal, cuja imagem fundadora é a do Menino na manjedoura iluminada, cercado por seus pais, por pastores e reis, com a estrela de Belém ao fundo, a anunciar a chegada de nossa Redenção. É isso o que devíamos ser e representar para o mundo, não importa a religião ou a ausência dela.

 

 

 

 

 

 

 

Não me apego a nostalgias, tenho saudades de muito pouca coisa, quase todas muito pessoais (como a saudade de meu corpo jovem, por exemplo). O mundo já foi muito pior, o país mais atrasado, nossa vida muito mais difícil. Apesar de tudo, mesmo com tanta miséria e injustiça, com tanto egoísmo e abandono, com os confrontos pelo mundo afora, vamos avançando, tentando prolongar nossa existência com uma certa qualidade, conquistando nossos direitos específicos e universais.

 

 

 

 

 

 

 

Mas não posso deixar de dizer que já gostei mais de Natal, sobretudo o de minha terra, Alagoas. Na minha infância, Natal era mesmo festa. As pessoas cantavam e dançavam pastoris, reisados, cheganças, todos os  festejos populares de origem portuguesa (às vezes, com influência moura). Num certo sentido, talvez fosse até mais animado que no carnaval.

 

 

 

 

 

 

 

Mesmo já morando no Rio de Janeiro, minha mãe organizava na rua da Matriz, com jovens filhos e filhas de vizinhos, grupos de pastoril, quase sempre na casa de Valquíria e Barreto Filho, ilustre crítico literário amigo de meu pai. Minha mãe se encantou quando foi convidada por médicos do Instituto Pinel a ensinar o pastoril aos internos da casa e passou a fazê-lo todo ano.

 

 

 

 

 

 

 

As festas de Natal duravam o mês de dezembro inteiro e só iam terminar no 6 de janeiro, dia de Reis. Agora, a gente fica sentado na sala, assistindo em silêncio à festa de um só Rei, único, maravilhoso, inbiografável. Por que estamos tão tristes? Onde está a famosa alegria de viver que herdamos das “três raças tristes”?

 

 

 

 

 

 

 

Confesso que não acho graça no Papai Noel que invadiu a festa. Com aquela barriga e aquele espalhafato, sempre penso que se trata de propaganda de cerveja. E acho árvore de Natal um estorvo em casa e na rua. Essa não é a minha festa. Eu gosto mesmo é de presépio e de desejar um bom Natal a com quem cruzo na rua.

 

 

 

 

 

 

 

- - - - - - - - -

 

 

 

 

 

 

 

Por falar em Natal, paro de escrever hoje e só volto no dia 11 de janeiro. Feliz fim de ano para todo mundo.

 carlosdiegues@uol.com.br

Cinco palpites a favor

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cacá Diegues     + + + + + +        29 nov 2013

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nunca deixei de escrever por falta de assunto. Nosso mundo contemporâneo é pródigo em informação, sabemos logo de tudo que acontece, temos sempre assuntos demais. Também não precisamos ficar só nas novidades que nos desgostam, podemos de vez em quando dar uns palpites a favor.

 

 

 

 

 

 

Alegria. O papa chamou seu recente documento oficial de “A alegria do evangelho”. Nesse manifesto exaltante, Francisco propõe uma igreja com esse estado de espírito em relação a todos. O texto é uma longa extensão do que tem declarado, sobretudo quando esteve esse ano no Rio de Janeiro, para a Jornada Mundial da Juventude.

 

 

 

 

 

 

Durante a Jornada, fiz a direção geral de “Rio de Fé”, documentário realizado por cinco jovens cineastas (Cadu Barcellos, Cadu Valinoti, Flora Diegues, Gustavo Mello e Marcos Moura), com a coordenação de Ana Murgel, fotografia de João Atala, edição de Mair Tavares e Daniel Garcia, produção de Renata Magalhães. O documentário está para sair em DVD, antes do Natal.

 

 

 

 

 

 

Registramos depoimentos de peregrinos, de autoridades e sumidades. Acompanhamos fiéis vindos de todo o mundo, marchamos ao lado de um que veio a pé do Ceará e viajamos no ônibus de grupo vindo de Natal. Estivemos nos grandes eventos, como na vigília de mais de 3 milhões de jovens na praia de Copacabana, assim como em encontros de peregrinos estrangeiros com praticantes de candomblé e em seminário reunindo bispos católicos, rabinos judeus e xeques muçulmanos. Independente de religião, assistíamos a uma rara vitória coletiva do amor, da tolerância e da delicadeza.

 

 

 

 

 

 

Por trás disso tudo, estavam as palavras de Francisco, talvez o líder mundial mais importante do momento, sua proposta do que chamou de “cultura do encontro”, a convivência entre os seres humanos sem importar suas qualificações. Esse manifesto do papa só faz confirmar a impressão de que algo de muito novo está ocorrendo na igreja católica. E que isso servirá a todos.

 

 

 

 

 

 

Prazeres. Hoje, comemoram-se cinco anos de instalação pelo governo do estado da primeira UPP, inauguração de uma nova politica de segurança para as favelas do Rio.

 

 

 

 

 

 

As UPPs não são uma panacéia capaz de resolver a vida de todos os moradores dessas comunidades. O desaparecimento de Amarildo na Rocinha, a morte de inocentes em invasão brutal na Maré, os tiroteios constantes no Alemão, tudo isso nos mostra como será dificl conquistar a segurança necessária para viver e trabalhar em paz.

 

 

 

 

 

 

Os bandidos não se conformam em perder seu espaço e a polícia precisa ser reeducada para que pare de fazer guerra contra a população. Mas ignorar os avanços conquistados pelas UPPs seria uma insensatez.

 

 

 

 

 

 

Como sempre disse o  secretário José Mariano Beltrame, executor dessa política, é preciso que os serviços do estado subam os morros, levando à sua população o que é direito de todo cidadão: educação, saúde, saneamento, mobilidade, o que cabe ao estado prover. Se não, um dia os moradores já terão esquecido a era do tráfico armado e se sentirão sufocados por um estado que não é capaz de entender e atender suas necessidades.

 

 

 

 

 

 

É isso o que mostra um bom documentário brasileiro que acaba de entrar em cartaz, “Morro dos Prazeres”, de Maria Augusta Ramos, realizado um ano depois da instalação de uma UPP naquela comunidade de Santa Teresa. Um testemunho do que anda acontecendo agora.

 

 

 

 

 

 

Talento. A atriz, roteirista e colunista Fernanda Torres acaba de lançar seu romance de estreia. “Fim” não é um livro escrito no tempo do ócio, um volume da coleção rosa, texto para moças de fino trato. “Fim” é uma profunda e arrojada experiência literária, um romance de quem parece conviver há anos com o ofício de escrever ficção.

 

 

 

 

 

 

Contando a história de cinco idosos em seus últimos dias de vida, “Fim” é escrito com amor e humor, pungência e delicadeza, uma proposta de literatura com o gosto e o empenho literários dos escritores de real talento. Um romance comovente e cheio de graça.

 

 

 

 

 

 

Luz. Aprendi a gostar de futebol vendo Nilton Santos jogar. Nilton não dependia de inspiração ou improviso, seu talento era pura luz, uma luz que tinha sido acesa na eternidade. Nilton não errava.

 

 

 

 

 

 

Quando ia ao Maracanã vê-lo jogar, costumava apostar com meus companheiros botafoguenses quantas vezes Nilton ia olhar para baixo, para a bola ou para o gramado. O resultado era quase sempre zero, nenhuma vez. Nilton era o único jogador de futebol em todo o mundo que não sabia de que cor era o campo em que jogava.

 

 

 

 

 

 

Considerado pela FIFA como o maior lateral esquerdo de todos os tempos, Nilton foi muito mais do que isso. Ele ensinou os laterais esquerdos de todo o mundo a jogar dentro da área, no meio de campo, no ataque.

 

 

 

 

 

 

Seu inesquecível gol contra a Austria, o primeiro do Brasil na Copa de 1958, inaugurou uma era de arte, beleza, elegancia e perfeição na história do futebol mundial. A era que foi do Brasil. Nilton pode ir embora em paz.

 

 

 

 

 

 

Utopia. Outro dia, ouvi uma canção cantada por Luciana Mello, cujo refrão dizia que “hoje só quero que o dia termine bem”. Meu amigo Fred Coelho me disse que essa é a nova utopia.

 

 

 

 

 

 

carlosdiegues@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Até que as imagens nos separem

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cacá Diegues    + + + + + +    14 nov 2013

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando eu era adolescente, havia no país a ideia generalizada de que o Brasil jamais produziria bons filmes. Uma cinematografia nacional de respeito era coisa para quem vivia a modernidade, dominava a tecnologia, produzia coisas para um público ilustrado como não era o nosso. A ausência de um cinema de qualidade era a marca mais nítida da incompetência crônica do país, de sua inferioridade em relação ao resto do mundo.

 

 

 

 

 

 

 

 

Um jornalista chegou a escrever que a língua portuguesa não servia para cinema. “É impossível alguém dizer na tela ‘eu te amo’, sem que o público caia na gargalhada”, escrevia ele.

 

 

 

 

 

 

 

 

Foi a geração do Cinema Novo que impôs um conceito nacional de qualidade que, consagrado internacionalmente, tornou-se no mínimo polêmico entre nós. O Cinema Novo conquistava para nós o direito à qualidade, já se podia dizer “eu te amo” no cinema brasileiro.

 

 

 

 

 

 

 

 

O passo seguinte seria a conquista do público, durante a existência da Embrafilme, empresa estatal através da qual se produziram, na passagem da década de 1970 para os 80, filmes como “Xica da Silva”, “Dona Flor e seus dois maridos”, “Eu te amo”, “A dama do lotação”, “Guerra conjugal”, “Eles não usam black tie”, “O amuleto de Ogum”, “Pixote” e muitos outros. Esse andar da carruagem foi interrompido pela crise econômica que levou o Brasil à moratória e empobreceu a população, no final dos anos 1980. E pela ascensão do presidente Collor de Mello, o carrasco da cultura brasileira.

 

 

 

 

 

 

 

 

Hoje, assistimos ao renascimento do cinema brasileiro, que começou com a Lei do Audiovisual de 1993, criada durante o governo Itamar Franco, permitindo a volta da produção nacional. Essa recuperação é chamada de “retomada”, na esperança de que não seja apenas mais um ciclo que acabe daqui a pouco, mas a inauguração do cinema como atividade permanente no país.

 

 

 

 

 

 

 

 

Segundo a Ancine, até o final de 2013 o Brasil terá produzido 106 filmes de longa-metragem, o que será um recorde mesmo se compararmos o número com os do auge da Embrafilme. Não somos obrigados a gostar de todos esses filmes. Que cinematografia no mundo é capaz de produzir mais do que 10% de grandes filmes por ano? Vemos 60 bons filmes americanos por ano, dos 600 que eles produzem? Ou 25 dos 250 franceses? Temos até mais chance com os nossos prováveis 10, que podem ser muito mais.

 

 

 

 

 

 

 

 

Antes de fazermos um filme, o cinema é um sonho. Quando o estamos fazendo com dificuldade, parece um pesadelo. Uma vez o filme pronto para ser lançado, caimos na real. A vida continua sendo mais importante que o sonho, mas a vantagem do filme é que no cinema temos cortes e elipses, enquanto que a vida é feita de um único e interminável plano sequência linear, cheio de excessivos tempos mortos. Mas não precisamos pagar o preço de uma vida por um filme.

 

 

 

 

 

 

 

 

Pode ser que estejamos discutindo um passado que ainda não passou. Não só a televisão consolidada, como também a tecnologia digital, a grande rede, a produção audiovisual pós-industrial, tudo isso pode estar tornando o cinema, como o conhecemos hoje, um objeto de museu ou de galeria chique. Quando vejo reportagens instantâneas sobre o tufão nas Filipinas, filmes realizados por rapazes durante as manifestações de rua, programas na internet do tipo Porta dos Fundos ou do francês Bref, longa-metragens destinados a telas que não são mais as das salas de cinema, me pergunto ansioso pelo futuro do cinema e do audiovisual.

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas o cinema existe, não é à toa que representa hoje a terceira economia de exportação dos Estados Unidos, a maior potência econômica do mundo, vendendo para o mundo inteiro, junto com os filmes, uma mitologia, um comportamento, um modo de viver. Além produtos da nação de origem, é claro.

 

 

 

 

 

 

 

 

Os filmes que têm feito sucesso são os que nosso público quer ver, os que fizeram de 2013 um ano excepcional para a bilheteria do cinema brasileiro. Nem armados de metralhadora podemos obrigá-lo a ver outros filmes mais a nosso gosto. A outra solução seria trocarmos de povo, importarmos uns dois milhões de franceses ou coisa parecida para substituir nosso público. Mas também não ia dar certo – no cinema da França e dos outros países, a situação é a mesma daqui.

 

 

 

 

 

 

 

 

Porém, assim como temos o dever de respeitar o gosto popular, temos também o direito de tentar mudá-lo com novas historias, novas linguagens, novos modos-de-fazer.  E esses novos filmes, sim, precisam de leis e decretos para lutar pelo futuro, uma atenção do estado que deve atender a todos os cidadãos, mesmo os que são minoritários.

 

 

 

 

 

 

 

 

Ainda que não gostemos do particular (os filmes), não podemos deixar de comemorar o geral (o sucesso do cinema brasileiro), e trabalhar pela sua diversidade, para que todas as telas sejam ocupadas por toda espécie de filme, de todas as tendências. Até que, quem sabe, a humanidade se canse de tanta imagem à sua disposição e decida não precisar mais de audiovisual.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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A beleza é uma convenção

Cacá Diegues  - - - - - - -   1º nov 13

              

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O mais popular artista plástico inglês chama-se apenas Banksy, um grafiteiro. Esse mês, os jornais de lá não pararam de falar sobre sua primeira passagem por Nova York, rendendo até editorial do New York Times, o principal jornal do país. No Brasil, que eu saiba, só Elio Gasperi escreveu sobre ele.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Banksy não é um grafiteiro como Basquiat ou Blek le Rat, em busca de novas formas visuais que os museus ainda recusam como arte. Ele nem tem o talento transgressor desses dois e de outros como os paulistas Osgemeos. Muito menos o visionarismo de Andy Warhol, que inventou uma cultura com suas marylins, sopas e bananas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O artista inglês grafita com spray, sem muitas cores, utilizando técnica de gravura oriental. Seus temas dependem de onde grafita. Exemplo típico é o grafite de um homem triste, mão no bolso, a outra com um buquê cujas flores despencam, a esperar em vão, encostado à real porta fechada de uma casa noturna de Manhattan. Sua última façanha foi comprar um quadro convencional de paisagem e pintar sobre ele um oficial nazista a contemplá-la, denominando a obra “A banalidade da banalidade do mal”. Rendeu uma fortuna num leilão beneficiente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Num domingo de outubro, Banksy expôs seus quadros numa banca do Central Park, em Nova York, sem anunciar quem era e do que se tratava. Em qualquer galeria, cada quadro daquele valeria uns 50 mil dólares, mas ele vendia por apenas 60 dólares a peça. Só três passantes compraram os quadros expostos, sem se dar conta do real valor do que estavam comprando.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não acho que isso seja prova de ignorância dos novaiorquinos, nem da desimportância da obra de Banksy. Quando Manet, pai do impressionismo, exibiu seu famoso “Olimpia” no Salão de Artes de Paris, só faltou ser apedrejado pela imprensa, pelos estudantes de Belas Artes e pelas senhoras de família que cobriram com lençóis o nu de seu personagem. O mesmo aconteceu com Pablo Picasso, mestre do cubismo e das vanguardas do século 20. Em 1937, sua “Mulher que chora” chegou a ser chamada de “a coisa mais horrorosa já pintada no mundo”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A beleza não é um padrão uniforme estabelecido na eternidade. Mesmo na tradição grega, que nós adotamos na cultura ocidental, não era sempre assim. Segundo Umberto Eco, “temos uma imagem estereotipada do mundo grego, nascida das idealizações criadas no período neoclássico (...) o neoclassicismo idealizou os antigos, esquecendo que eles nos legaram também imagens de seres que eram a própria encarnação da desproporção, a negação de qualquer cânone”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Esopo, por exemplo, o grande fabulista moral da antiguidade, cujo prestígio atravessou os séculos, sempre foi pintado, de artistas anônimos a Velasquez, como está descrito em texto do primeiro século: “repelente, nojento, barrigudo, com a cabeça pontiaguda, atarracado, corcunda, braços curtos, vesgo, beiçudo (...) além de ser gago e totalmente incapaz de expressar-se”. O gênio tão amado não podia ser mais feio.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O herói é sempre aquele que ama. Ou só é belo quando ama. Quando, em 1933, no filme de Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, King Kong se apaixona por Fay Wray até se deixar fuzilar no alto do Empire Sate, os monstros ficaram livres para amar. A beleza é uma convenção, muitas vezes ditada pelas necessidades do tempo e do lugar. Para os moradores do planeta Júpiter, o gás escuro e pesado que envolve sua atmosfera deve ser, de tão belo e indispensável à sua vida, uma prova de que Deus existe.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há pouco, na novela das 9, o enfermeiro Daniel se encantou pela enfermeira Perséfone, moça adorável porém mais gorda do que o suportável pelos amigos do noivo. Como a beleza é uma convenção, nada impede que amanhã as mulheres gordas como Perséfone voltem a parecer belas, como queriam o barroco clássico, o teatro do século 19 e o Botero contemporâneo. A beleza é o resultado de um acordo social ou de uma intensa propaganda de quem se interessar por ela. O poder e o dinheiro ajudam a promover o gosto que ainda não é o nosso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Portanto, minha senhora, se o espelho indelicado acusá-la de gordinha, denunciando-lhe umas gordurazinhas a mais, empenhe-se em dieta e ginástica, ou espere paciente pela próxima onda da moda. Quem sabe, descobriremos então que o enfermeiro Daniel era um homem à frente de seu tempo, um homem de vanguarda.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Fico assombrado com a euforia com que se anuncia e se comenta a derrocada de Eike Batista. Claro, se seus negócios não deram certo, ele tem mesmo que pedir a tal recuperação judicial e ressarcir a quem deve, sobretudo aos cofres públicos. Não sou muito fã do capitalismo brasileiro, acho que podíamos construir uma democracia mais socialmente justa no Brasil. Mas se o regime do país é o capitalismo, um capitalista de respeito tem mais é que tentar ganhar dinheiro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Porém Eike não ficou só no sonho infantil de ser o mais rico do mundo. Com sua fortuna, colaborou com a sociedade criando o generoso complexo de Porto do Açu, despoluindo a lagoa Rodrigo de Freitas, finaciando as UPPs, patrocinando desportistas, dando recursos para filmes como “5XFavela, agora por nós mesmos” (concebido, escrito e realizado por jovens cineastas moradores de favelas cariocas, que não foi beneficiado por nenhum edital de empresa estatal e não seria feito se não fosse o empresário). Quantos milionários brasileiros se comportam assim?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Manifesto Septuagenário

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cacá Diegues - - - 18 out 2013

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Seja qual for a sua idade, é difícil viver, é difícil tomar um rumo na vida, é difícil distinguir o certo do errado, é difícil escolher. Quem sabe, o herói emergente do século 21 será aquele que não escolhe, que não tem que escolher. Deixe eu ver se me explico direito.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Durante a minha juventude e parte da maturidade, fui sempre um neo-marxista místico, acreditava que uma boa revolução seria saneadora da maldade humana. Das de direita, quase sempre golpes de estado, não se podia esperar senão opressão política e regressão moral, delas nunca esperei nada mesmo. Se ainda existe a dualidade inaugurada na Revolução Francesa, ser de direita é ignorar a mente, o coração e o estômago dos outros. Mas, ao longo do tempo, as de esquerda também acabaram me decepcionando.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As modernas revoluções progressistas logo cedo iludiram seus preceitos e foram sucedidas por noites sombrias de terror. Foi assim com Robespierre, Stalin, Mao Tsè Tung, Fidel Castro. Também não gosto da hipocrisia da revolução americana que, apesar de sua grandeza, varreu para baixo do tapete a questão fundamental da escravidão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não me tornei inimigo do que fui. Tenho orgulho da fé que tive naquelas utopias, assim como respeito a generosidade dos que ainda hoje as cultivam. Mas não acredito mais que o mundo marcha necessariamente numa direção inexorável, como um trem preso aos trilhos. O mundo é um maloqueiro drogado, a ziguezaguear trôpego por aí. Como disse um político brasileiro, a gente vive esperando pelo inevitável e o que nos chega é sempre o inesperado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tanto que, depois de tanto sonho, ainda vivemos, nessa aurora do século 21, os rancores dos genocídios cometidos no passado, a estupidez das guerras religiosas, a selvageria do capitalismo financeiro, a irracionalidade de todos os tiranos, o fracasso de primaveras sem flores.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os pequenos sentimentos também podem mudar o mundo. Podemos formular teorias enciclopédicas, escrever compêndios de cálculos irrefutáveis, mas são sempre insights que iniciam a aventura do novo na história da humanidade. Peter Higgs, cientista inglês que não usa máquina de calcular, celular ou computador, foi o homem que propôs por suposição a existência do bóson que levou seu nome, a chamada “partícula de Deus” que pode mudar tudo o que sabemos sobre o universo e sobre nós mesmos. Primeiro veio a luz, depois o que ela iluminava.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hoje, os jovens de todo o mundo se importam mais com comportamento do que com política, são mais capazes de aderir a uma revolução em nome da felicidade, do que a outra por uma forma qualquer de poder. Claro, às vezes se equivocam, o capitalismo é diabólico, oferece-nos a satisfação de nossos desejos em troca do sequestro de nossa vontade. Trocamos um Apple qualquer de última geração ou um cheeseburguer do McDonald’s, pela intocabilidade de Wall Street ou pela segurança do estado vigente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Me solidarizo com o direito à manifestação dos professores, estou com eles e não abro, a educação é uma questão crucial no Brasil de sempre. Assim como aplaudo o sindicato deles por promover uma passeata de milhares de pessoas indignadas mas em paz, desautorizando a violência surgida depois da manifestação. Uma arma que fere não tem identidade, ela surte o mesmo efeito quando manipulada pela boçalidade dos milicianos em defesa de políticos que não merecem respeito ou pelo despraparo cívico de uma polícia que não nos protege. As vítimas somos sempre nós.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Distante do povo, o anarquismo é um barato de rico. Quando vejo um black bloc agir, meu coração se parte ao meio. Odeio aquele quebra-quebra que vai se tornando cotidiano e banal, aquela destruição de equipamentos públicos que só prejudica o cidadão que não tem nada a ver com isso (os bancos não vivem de caixas eletrônicos, não é dali que tomam a riqueza que os faz poderosos, eles só servem ao pequeno correntista de tostões). Mas reconheço sua generosidade juvenil, sua pressa em consertar o mundo, nem que seja na porrada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os jovens dos anos 1970 que pegaram em armas contra a ditadura militar se pareciam com eles. Mas, como o mundo não é justo, não foram os guerrilheiros que lutaram contra a opressão, às vezes oferecendo a vida em nome de um sonho, que acabaram com a ditadura. Quem acabou com ela foi a habilidade de políticos democratas, ainda que conservadores, como Ulisses, Tancredo, Montoro, Teotônio, aliados à luta legalista de Lula e dos sindicatos do ABC. A vida é cruel. Nem sempre a pureza romântica está do lado certo, nem sempre o lado certo é o certo. E isso nos castiga a alma.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tenho mais de 70 anos, não sou mais obrigado pela lei a votar, não preciso escolher em quem votar e meu voto não fará falta a ninguém. Isso talvez sossegue minha angústia, minha frustração em achar que é tudo meio parecido e o que não é meio parecido não é razoável, não convém ao bem estar de todos. Está difícil cultivar uma democracia verdadeira, em que o outro vale o mesmo que eu mesmo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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A dor dos outros

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cacá Diegues - - - - - - 4 out 13

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Semana passada, andei uns dias por Marechal Deodoro, cidade histórica de Alagoas, antiga capital do estado, acompanhando a IV FLIMAR (Festa Literária de Marechal Deodoro), organizada pelo prefeito Cristiano Matheus e por seu secretário de cultura Carlito Lima, meu amigo de infância. Dias de reencontro com tanta coisa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Durante a FLIMAR, redescobri, graças a Ricardo Ramos Filho, seu neto, a extraordinária carta de Graciliano Ramos a Cândido Portinari, publicada em 1946. Um verdadeiro manifesto que, em nossa juventude de esquerda, líamos como amargo chiste do velho Graça, ao qual não tínhamos que dar tanta atenção. E no entanto devíamos ter levado mais a sério o que nosso escritor dizia ao pintor seu amigo, para o bem de sua geração e das gerações de artistas que os sucederam.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Caríssimo Portinari”, escreve Graciliano, “(...) receio que esta resposta já não o ache fixando na tela a nossa pobre gente da roça. Não há trabalho mais digno, penso eu. Dizem que somos pessimistas e exibimos deformações; contudo as deformações e miséria existem fora da arte e são cultivadas pelos que nos censuram. (...) se elas desaparecessem, poderíamos continuar a trabalhar? Desejamos realmente que elas desapareçam ou seremos também uns exploradores, tão perversos como os outros, quando expomos desgraças? Dos quadros que você mostrou (...), o que mais me comoveu foi aquela mãe com a criança morta. Saí de sua casa com um pensamento horrível: numa sociedade sem classes e sem miséria seria possível fazer-se aquilo? Numa vida tranquila e feliz que espécie de arte surgiria? Chego a pensar que faríamos cromos, anjinhos cor de rosa, e isto me horroriza. Felizmente a dor existirá sempre, a nossa velha amiga, nada a suprimirá. E seríamos ingratos se desejássemos a supressão dela (...)”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Gostaria muito de pensar, e faço sempre um grande esforço para isso, como Bachelard, filósofo francês: “O mundo é belo antes de ser verdadeiro, o mundo é admirado antes de ser verificado”. O que significa que descobrir e se encantar com o que está à nossa volta deve ter primazia sobre ouvir o que se diz sobre o que está à nossa volta. Esse talvez seja o principal conflito da inteligência humana, a disputa eterna entre cultura e conhecimento. Os artistas sofrem com isso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

De que dor e de que mundo devemos falar quando nos deparamos com um desastre como esse de Lampedusa? Mais de 300 imigrantes ilegais, fugindo pelo Mediterrâneo de países africanos em crise, tentam chegar ao sul da Itália e morrem no naufrágio previsível de um barco sem condições de fazer os 350 km da viagem, controlado por gerentes da miséria humana que cobravam mais de 1.500 dólares por cada um dos 500 passageiros, número de viajantes impossível de caber em seus poucos 20 metros de extensão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Eu sei que isso não é novo, nem raro. Eu sei que já aconteceu com albaneses que tentavam chegar ao norte da Itália, com mexicanos que atravessavam a fronteira para os Estados Unidos, com cubanos que remavam em direção à Florida. Eu sei que isso não deixará de acontecer enquanto houver fome, miséria, opressão e guerra por aí afora, enquanto houver seres humanos desejando com desespero viver outra vida. Mas não quero me acostumar a isso, não vou me acostumar a isso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A dor a que Graciliano se refere e não deseja suprimir faz parte da natureza humana, está sempre dentro de nós e no mundo ao nosso redor, temos que contar com ela. Nascemos para parir e parimos com dor. Os animais, as plantas, a terra toda, tudo à nossa volta vive fugindo dela, viver é tentar escapar da dor. Mas a dor de Lampedusa, dos que morreram sem conhecer a felicidade, dos que sobreviveram inutilmente e dos que, como nós, assistem perplexos a esse espetáculo brutal, essa é uma vergonha e pode muito bem ser suprimida. Como disse Francisco, acertando mais uma vez, ela é o resultado da “globalização da indiferença”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Devemos prestar atenção à dor dos outros, para tentarmos atenuar a nossa. Vejo o desastre de Lampedusa e penso, por exemplo, nessa irracional reação corporativista aos médicos estrangeiros que querem trabalhar no Brasil. Nossas corporações são mais importantes do que o bem estar e a saúde dos outros, num país miserável como esse? Como penso também em nossos professores em greve. Destruir equipamentos públicos, como estação de metrô, transportes coletivos, pontos de ônibus, placas de sinalização, cabines de telefone, equipamentos que servem ao resto da população, sobretudo aos mais pobres que não têm nada a ver com isso, faz parte de suas reivindicações corporativas?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nesse e em outros exemplos mais e menos modestos, que se dane o resto, aquele que não sou eu, o outro?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Uma correção relativa ao artigo do outro sábado. O primeiro universitário da PUC-RJ a ser eleito presidente da UNE foi o estudante de direito José Baptista de Oliveira, durante o biênio 1956-57. Arthur Poener, em "O Poder Jovem" (ed. Civilização Brasileira, 1968), escreveu que a gestão de José Baptista “assinalou a formação da primeira frente única de católicos e comunistas no movimento estudantil, autêntica precursora do pensamento ecumênico em nosso país".

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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