Filmes de Cacá Diegues em restauração
Chegou ao fim a restauração de "Xica da Silva, filme realizado por Cacá Diegues há 35 anos  lançado em 1975. A Cinemateca Brasileira, em São Paulo, promove, no dia 3 de maio, terça-feira, às 20hs, uma sessão solene do filme restaurado. A exibição contará com a presença da ministra Ana de Hollanda.

Enquanto "Xica da Silva" é restaurado em São Paulo, em Paris "Joanna Francesa" e "A Grande cidade" acabam de ser restaurados Centre National du Cinéma. Esses filmes serão objetos de uma coleção de DVDs com a obra de Cacá Diegues.

Xica da Silva

Por Carlos Diegues

"Xica da Silva" foi um de meus filmes que mais me deu alegria.
Primeiro, durante as filmagens, pela química entre equipe e elenco que tornou a trabalho de quase cinco meses em Diamantina um prazer inesquecível. Depois, no lançamento do filme, pelo enorme sucesso que ele fez no Brasil e, em seguida, no exterior. "Xica da Silva" foi o primeiro filme da distribuidora da Embrafilme a obter uma bilheteria consagradora, que garantiu a boa partida da empresa na área da distribuição.

Mas o mais importante é que este foi o filme que marcou a "abertura democrática" no âmbito do cinema brasileiro. Em 1976, ano de seu lançamento, o presidente Geisel já tinha anunciado o projeto de uma abertura democrática lenta, segura e gradual, e o país começava a sair da longa noite escura da ditadura militar. Um "Xica da Silva" alegre e otimista, um filme que "dava a volta por cima",  ajudava o cinema brasileiro a liderar esse novo clima cultural no país.

Acho que aquela foi a primeira vez que um filme brasileiro tinha, encabeçando seu elenco, uma atriz negra e desconhecida até aquele momento. Lembro-me inclusive que um importante exibidor da época se negava a exibir o filme em seus cinemas porque, segundo ele, filme com negros não era comercial. O produtor Jarbas Barbosa insistiu com o grande lançamento que sonhara e acabou provando ao exibidor que ele estava errado. Só num cinema lançador, o Roxy, então uma só sala com cerca de dois mil assentos, "Xica"  ficou em cartaz por 11 semanas.

Para esse sucesso, muito contribuiu a luz brilhante e mágica de Zezé Motta, sem a qual o filme não existiria, assim como seu personagem principal não seria lembrado como até hoje o é.

A restauração desse filme, exatamente 35 anos depois de seu lançamento, é um presente que recebo como uma homenagem a todos que nele trabalharam e sobretudo a Jarbas Barbosa que não está mais entre nós. Um país que preza sua cultura e seu passado, tem que ter uma memória viva do que seus artistas fizeram de mais relevante. A restauração de "Xica da Silva", realizada pela Cinemateca Brasileira, com a supervisão técnica de Carlos Magalhães, Patricia di Fillippi e do fotógrafo Lauro Escorel, só pode honrar o serviço prestado ao Brasil pelo Ministério da Cultura e pela Petrobras, os patronos dela.

Por coincidência, estão sendo programadas algumas retrospectivas de meus filmes, agora em março em Goiás, em abril na Caixa Econômica Federal no Rio e em agosto no Lincoln Center, em Nova York, nunma mostra completa de meus filmes. Essas mostras só estão podendo ser realizadas graças à restauração de alguns de meus filmes mais antigos: Ganga Zumba (1964), A grande cidade (1966) e Joanna Francesa (1973) foram restaurados pelo Centro Nacional de Cinematografia francês (CNC), enquanto a Cinemateca Brasileira de S.Paulo cuidou da restauração de Xica da Silva (1976) e agora prepara as de Os herdeiros (1969) e Chuvas de verão.
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