Começar de novo
Carlos Diegues

Os assassinatos se sucedem nas ruas do Rio de Janeiro. Mataram Maria Eduarda, de 13 anos, com cinco balas “perdidas” disparadas pela PM no pátio de sua escola, em Acari. Hosana, da mesma idade, morreu porque estava na linha de tiro de um traficante que destravava sua arma. Já morreram 48 PMs desde o início do ano, um a cada dois dias. Todos eles tinham mulher, filhos e sonhos.

Anos atrás, o então secretário estadual de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, inaugurou as UPPs, um projeto que haveria de livrar as favelas cariocas de bandidos e do crime. O secretário avisou, várias vezes, que o programa não teria nenhuma serventia se o estado não atravesasse a porta aberta pela polícia para levar, àquelas comunidades, os serviços a que elas tinham direito: saneamento, emprego, educação, saúde, o que mais fosse fundamental para a sobrevivência digna de um cidadão.

O dinheiro público que nossos políticos, flagrados roubando pela Lava Jato, botaram no bolso, seria mais do que suficiente para iniciar esse processo contra a miséria e a desigualdade. Até agora, mais de dois bilhões e meio de reais voltaram aos cofres públicos, fora o que ainda se espera que venha por aí. São mais de 1.600 investigados e, a cada semana, surgem novos suspeitos, quase todos devendo alguma coisa. Eles trocaram o bem do povo pelas jóias da madame.

É impossível não ver, pelo menos em parte, o crescimento da violência como resultado desse descaso com a população. Se os políticos enriquecem às custas do que devia ser destinado ao povo, que mal faz o desempregado ir buscar o seu com uma pistola? Até o sentimento de culpa, um das bases da paz pública, desaparece sem traumas. Pois a culpa só pode ser dos que tomaram o que é nosso, sem dar nada em troca.

Uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo (ligada ao PT), junto a moradores da periferia de São Paulo que deixaram de votar no partido nas últimas eleições, destaca o elogio do mérito e da ascensão social, em vez da abstração de uma revolução de classe. Para isso, é necessário e justo que todos tenham as mesmas oportunidades. E é isso o que o novo laissez faire do neoliberalismo lhes nega, é isso o que eles buscam e não encontram nos comícios das forças ditas populares, que viajam no pó da ideologia.

Sempre fui contra e sempre escrevi contra o impeachment de Dilma Roussef, embora sempre a tenha considerado principal responsável pela crise que levou o país à recessão que vivemos hoje. Por teimosia, arrogância e incompetência, a ex-presidente conseguiu desmantelar o que tinha sido construído nos dezoito anos anteriores a ela, de Itamar a Lula, passando por FHC, um período de esperanças, com um  horizonte cheio de luz.

Mas ela não podia ter sofrido o impeachment, ainda que constitucional, produzido pelo oportunismo canhestro de políticos do governo e da oposição. Eles abriram a caixa de Pandora, cujo conteúdo liberado hoje lhes os devora. O PT quase acabou. Mas o PMDB, que girou a chave  da caixa de monstros, se tornou a principal vítima de seus assombros, com ministros desnomeados, líderes tornados réus e um futuro pouco promissor.

Apavorados, os políticos agora tratam de libertar outros monstros, herdeiros dos monstros anteriores, desde a malandragem torpe da lista fechada de candidatos, até a volúpia policialesca de evitar que Lula e outros, conforme o gosto do freguês, sejam candidatos em 2018. Como se alguém ou algum partido tivesse o direito de evitar que o eleitor escolha quem bem entender.

O erro do “Fora Temer” é muito parecido com o erro do “Fora Dilma”. Estamos tornando hábito as soluções voluntaristas, sem considerarmos suas consequências. Abre-se o sinal de que, segundo a nossa vontade, tudo pode, não importa o quê, contanto que garanta o poder para o nosso lado. Caminhamos em direção a um sistema político volátil, sem limites e sem certezas. Em direção à desmaterialização da política.

Só nos resta inventar o novo, o que ainda não foi experimentado, o que esperamos ver surgir até 2018. E precisamos chegar lá inteiros, sem mais sustos.

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A deputada federal Renata Abreu é a relatora de um projeto de lei  que isenta hotéis, motéis, rádios, igrejas, academias e outros estabelecimentos, do pagamento de direitos autorais musicais. Segundo a Associação Procure Saber, parece que o grupo de empresas de rádio e hotéis da família da deputada deve cerca de 25 milhões de reais ao ECAD. O que significa que, antes mesmo da lei que pretende aprovar, dona Renata já andava praticando esse retrocesso medieval na vida de quem faz arte. Nos tempos que correm, Renata Abreu é forte candidata ao prêmio Trabalho Escravo de 2017.

cacafdiegues@gmail.com

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