Sempre haverá Casablanca
Carlos Diegues

Independente do valor artístico, certas obras se tornam referências culturais para se entender determinado tempo e seus costumes. No cinema, elas podem ou não ter valor cinematográfico, mas são um marco para se desvendar o lugar e a época em que foram feitas, uma espécie de contribuição decisiva ao dado histórico.

“Casablanca”, produzido em 1942, é um destacado exemplo disso. Um filme que custou a ter reconhecimento artístico (que ainda se duvida que mereça), nunca perdeu o interesse de cinéfilos, cronistas e curiosos de todas as tendências e idades. A ponto de tornar de domínio público expressões criadas por seus roteiristas, os gêmeos Julius e Philip Epstein, e Howard Koch, um escitor engajado, coisas como “Here’s looking at you, kid”, “Round up the usual suspects”, “Play it, Sam” (sem o “again” acrescentado por Woody Allen), e outras irreverências, pensamentos cínicos e melancólicas declarações de amor. Segundo David Mikics, essas frases acabaram por se tornar parte da cultura popular americana como, por exemplo, o discurso de Lincoln em Gettysburg.  

Talvez a mais famosa dessas expressões seja a que Rick (Humphrey Bogart), o amante trocado por uma ideologia, diz a Ilsa Lund (Ingrid Bergman), a mulher fiel às suas crenças políticas com quem viveu, na capital francesa, os momentos mais felizes de sua vida: “We’ll always have Paris”. Ou seja: “Nós sempre teremos (a lembrança de) Paris”. Numa paródia a essa expressão em seu título, acaba de ser publicado “We’ll always have Casablanca”, excelente e divertido livro de Noah Isenberg, que me foi apresentado pelo jornalista Zevi Ghivelder. Comemorando os 75 anos de “Casablanca”, o ensaio nos fala dos brilhantes judeus refugiados que criaram um grande filme sobre judeus refugiados que estão tentando escapar do nazismo.

No Marrocos neutro de dezembro de 1941, ainda uma parte da França não ocupada, um expatriado americano, meio cínico, sardônico e melancólico, alvo da pressão sem limites morais de todos os lados envolvidos na guerra, reencontra o amor de sua vida, agora dedicada a promover a fuga de um líder anti-nazista, Victor Laszlo (Paul Henreid). Lançado nos Estados Unidos pouco antes da invasão aliada na África do Norte,  “Casablanca” não era um filme de propaganda, por mais justa e oportuna que ela fosse.  Mas um filme sobre a natureza humana, o que torna mais misterioso o seu enorme sucesso de público, desde o lançamento em época de tanta exaltação bélica.

 

A maioria dos atores de “Casablanca” era de judeus vindos da Europa Central, fugindo de Hitler e tentando reconstruir a existência em Hollywood. E esse era um assunto que Hollywood sempre tratara de evitar, nos filmes e na vida real. Sem perder o humor e o gosto pelo que faziam, essa turma, comandada pelo diretor Michael Curtiz, acaba por fabricar um filme de guerra sem heróis e homens perfeitos, onde o amor e a amizade estão presentes sem ilusões de preferência ou superioridade sobre o resto de tudo. Apesar disso, é o afeto que, no final da história, sai vitorioso com a nova, inesperada e cínica amizade entre Rick e o capitão Louis Renault (o britânico Claude Rains), enquanto a heroína foge com quem não ama, afim de ganhar a guerra de todos.

 

Conrad Veidt, ator alemão que não era judeu e fora astro do “Caligari”, obra prima do cinema expressionista, havia se casado com uma judia antes de deixar a Alemanha, em 1933, obrigado a exilar-se por ter escrito “judeu”, em letras maiúsculas, num formulário nazista que tivera que preencher. Ironicamente, em Hollywood, Veidt se tornou um especialista em papéis de nazista, inclusive em “Casablanca”, onde interpreta o fanático Major Strasser, que leva um tiro fatal de Bogart no final do filme.

 

Fiéis a suas experiências pessoais, mais do que a conceitos previamente elaborados, os responsáveis por “Casablanca” deixaram voluntariamente expresos, no produto final, um humor fino, uma história de amor eterna e uma firme mensagem política: “Num momento em que a América, país fundado por descendentes de refugiados, parece estar sendo ensinada a odiá-los e temê-los, todos nós devemos dar uma nova olhada em ‘Casablanca’”. 

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A Academia Brasileira de Letras tem o direito de eleger, como seu membro, quem bem entender. Sobretudo quando o candidato possui as indiscutíveis qualidades do historiador Arno Wehling. Mas, essa semana, os acadêmicos perderam a oportunidade de imortalizar um de nossos grandes poetas vivos, Antonio Cícero, um filósofo original e um bem sucedido letrista de canções populares, elegendo-o para a cadeira que foi justamente de Ferreira Gullar. Quando o Prêmio Nobel de Literatura se atualiza com a escolha de Bob Dylan, só resta lembrar, talvez como consolo, que um dos maiores poetas da língua portuguesa de todos os tempos, o eterno (mais que imortal) Jorge de Lima, foi rejeitado por três vezes, pela mesma Academia. E morreu sem entrar nela.

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