Meu coração se deixou levar
Carlos Diegues

Na mosca. Na coluna de domingo passado, previ que o princípio do fim desse longo verão seria coroado com a vitória da Portela no carnaval. É claro que isso era mais um desejo do que uma profecia, mas não deu outra. Depois de 33 anos sem título, a Portela é campeã.

Quando eu era moleque, minha turma costumava torcer por uma combinação de times de futebol e escolas de samba. Quem era Flamengo, devia, em geral, torcer pela Mangueira. Quem era Fluminense, pelo Salgueiro. Vasco, o Império Serrano. E quem era Botafogo, torcia pela Portela. Para nós, os quatro grandes do futebol combinavam-se com os então quatro grandes do carnaval. Embora isso fosse uma grande tolice juvenil de nossa turma, pois sabemos que, entre outros muitos exemplos, Paulinho da Viola é um exaltado torcedor do Vasco, sendo um dos mais ilustres e fiéis portelenses.

Como o campeonato carioca se encerrava antes do Natal, no início do ano a gente tinha pouco assunto relativo a futebol e, pelo menos até fevereiro, se concentrava no carnaval e seus prévios destaques, as marchinhas e os sambas que iam sendo lançados pelo rádio, na voz de intérpretes que, entre uma e outra palhaçada de Oscarito e Grande Otelo,  víamos ao vivo nas chanchadas que ocupavam nossas telas de dezembro a março.

De vez em quando, bisbilhotávamos os ensaios de algumas daquelas escolas, frequentando as quadras onde sambistas ensaiavam ao som de sambas de terreiro, aqueles que não eram cantados na avenida, mas que pertenciam à tradição gloriosa de cada uma delas e de seus maiores compositores. Foi nessas visitas à quadra de Madureira que me apaixonei pela Portela, como era apaixonado pelo Botafogo.

Na segunda metade dos anos 1920, uns moradores de Oswaldo Cruz e Madureira, sob a liderança de Paulo Benjamin de Oliveira, um negro carpinteiro de profissão, o futuro e mitológico presidente Paulo da Portela, fariam do chamado Conjunto Carnavalesco de Oswaldo Cruz um  embrião do que seria logo uma vitoriosa escola de samba, formalmente fundada em 1926. Segundo o historiador Lira Neto, em “Uma história do samba”, Paulo da Portela anunciava que, em sua escola,  “todo mundo tem que ter pés e pescoços ocupados, para fazer parte do grupo tem que usar gravata e sapato”. Ele mesmo era um exemplo da elegância popular que contaminou sua escola.

 

Só em 1935, a agremiação ganhou definitivamente o nome de onde foi fundada, embaixo de uma árvore à margem da Estrada do Portela, sobrenome do português Miguel Gonçalves Portela, que era dono de um antigo engenho na região. Embora a Estação Primeira, a escola da Mangueira de Cartola e Carlos Cachaça, tenha sido a primeira campeã nos desfiles na Praça Onze, ao longo dos anos foi a Portela que acabou sendo a maior vencedora, com 22 primeiros lugares, inclusive esse de 2017.

 

Uma vitória impecável e indiscutível, em meio a tantos surpreendentes desastres na avenida. Esses graves acidentes com carros alegóricos, que produziram 32 feridos, apontam para uma crise, alguma novidade desastrosa no desfile da Sapucaí que precisa ser elucidada. Falta de dinheiro? Excesso de pretensão e voluntarismo? Projetos desmedidos? É preciso descobrir o que aconteceu, para não deixar que se repita o que pode se transformar em tragédia.  

 

Foi como amante inebriado que conheci e comecei a amar a Portela. Em 7 de setembro de 1976, celebrei esse amor fazendo a estréia de “Xica da Silva” no velho Cine Madureira, ao lado do viaduto do bairro. Na mesma noite, organizamos a festa comemorativa da estréia na sua quadra, um pouco mais adiante. A Portela é um rio que ainda passa em minha vida. E meu coração se deixa levar.

Agora só falta o Botafogo ser campeão da Libertadores.

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Outra festa na semana, cheia de acidentes, foi o Oscar. Mas podemos tomar o principal deles, a troca temporária do vencedor, como uma metáfora do que acontece com a cultura popular americana de hoje.

“Moonlight”, o vencedor, é um filme pungente que trata de um assunto contemporâneo, um tema duro para a consciência americana, como sobreviver no mundo de hoje sendo negro, gay e pobre. É claro que não foi essa a intenção de seus realizadores, que o produziram bem antes das últimas eleições, mas “Moonlight” é o filme mais próprio à contestação liberal do mal que Donald Trump anda fazendo aos Estados Unidos. 

Se a votação do Oscar tivesse se dado antes das eleições, não tenho dúvida de que o vencedor teria sido mesmo “La La Land”, um filme encantador dos anos 1980, quando o cinema americano deserdava de vez a moda da acidez inconformada da New Hollywood da década anterior (Hopper, Coppola, Scorsese, DePalma, Ashby, etc.), trocando-a pelo simulacro do bem estar criado pelos filmes da festa alegre e romântica do pós guerra dos anos 1940 e 50.

A boa notícia é, portanto, que a vitória de “Moonlight” sobre “La La Land” anuncia que Hollywood e suas estrelas overrated estão mesmo fazendo oposição à tragédia representada por Trump.

cacad1940@gmail.com

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