Um novo papel para nós
Carlos Diegues

Nossa famosa cordialidade e a alegria de viver características da civilização brasileira já foram pro brejo há muito tempo. Há muito tempo que, no carnaval da inteligência mundial, não somos mais o Bloco Inocentes do Ocidente, os ingênuos e bons selvagens que consolavam nossos próprios antropólogos e os turistas da cultura em busca de uma esperança. Para tomar conhecimento disso, basta abrir os jornais.

As taxas de homicídio crescem em quase todos os estados da Federação. Os presídios se rebelam e provocam a morte de centenas de pessoas em poucos dias. No Espírito Santo, a greve de policiais militares deixa as ruas vazias e vândalos depredam lojas, trocam tiros na esquina e matam 101 cidadãos. No lendário e aprazível Rio de Janeiro, terra de samba e pandeiro, apenas neste ainda curto 2017 um policial militar foi morto a cada dois dias, enquanto no ano anterior foram cometidos 5.033 homicídios intencionais, 20% a mais do que em 2015. No mesmo 2016, quase cem mil pessoas foram assaltadas nas ruas da capital fluminense, nosso paraíso tropical.

Para não pensarmos que essa violência toda é exclusiva de nosso caráter nacional, lembremos as milhares de vítimas do Estado Islâmico, os 13 mil enforcados pelo governo sírio na prisão de Saydnaya, os refugiados africanos afogados no Mar Mediterrâneo, etcetera e tal pelo mundo afora. E não podemos esquecer a eleição de Donald Trump, protagonista poderoso desses novos tempos.

Não são as besteiras que Trump diz que nos devem interessar. O importante é o que pensam os eleitores de Trump, os que o escolheram para comandar o país mais poderoso do mundo, o país capaz de levar com ele grande parte da humanidade na direção que tomar. Esses cidadãos americanos representam a maioria planetária que está de saco cheio de teses e teorias, que não aguentam mais a inteligência e querem voltar à boa e velha barbárie, ao estado selvagem em que reagem apenas a seus instintos, o que não depende de nenhum valor ou de juizo qualquer mas apenas de seu desejo.

Os cientistas chamam de Antropoceno os cerca de 200 mil anos em que o homem domina e muda o planeta. Talvez a cultura seja a principal responsável por tantas desgraças que vivemos no Antropoceno, os hábitos humanos sendo o veículo delas. Em recente artigo, Delfim Neto, nossa estrela da economia, escreveu:  “Tempos estranhos esses? Não! Tempos normais, quando vemos o homem como ele é, despido da romântica ‘humanidade’ moral que lhe atribuimos. (...) O predador é sempre a espécie que está acima da cadeia alimentar, que a consome para sobreviver e reproduzir”.

Em meados do século passado, o mundo foi levado à guerra total, uma saída para começar tudo de novo, voltar aos trilhos e reinaugurar uma humanidade possível com o sacrifício das mais de 50 milhões de pessoas que haveriam de morrer em combate. Saimos desse genocídio com a consolidação de dois grandes mitos que dividiriam a humanidade ao meio. Por um lado, o socialismo nos prometia a Igualdade; por outro, o capitalismo nos garantia a Liberdade. Assim como um proclamou a luta anti-imperialista para opor os pobres aos ricos, o outro tratou de inventar uma face mais humana para enfrentar o mito igualitário do inimigo.

O fracasso do socialismo real e o fim da União Soviética libertaram o capitalismo desse compromisso. Com o fim da competição entre os dois modos de vida, o vencedor deitou e rolou com seu caráter mais desumano. Hoje, Trump representa essa volta ao capitalismo selvagem, onde o outro é apenas  um consumidor de bens criados pelo mais forte e a diferença não merece respeito por estimular preferências que nem sempre são as de quem interessa. Como disse o pensador Tzvetan Todorov, recentemente falecido, “pela forma que tratamos os diferentes de nós, podemos medir nosso grau de barbárie ou civilização”.

A civilização se caracteriza por valores éticos, regras criadas pelo cérebro do homem ao longo de sua história, que podem se modificar com o tempo mas sempre existirão. Elas estão aí para nos permitir conviver com a diferença, para evitarmos a perda de liberdade, a desigualdade extrema e a fome de nosso semelhante. A vitória do descaso pelo outro e do puro instinto sem valor algum é a consagração do estado pré-civilizatório. Não se pode permitir que assim caminhe a humanidade. E seria tão bom que fosse esse o novo papel de uma nova civilização brasileira, se fôssemos capazes de dar um jeitinho em nossa própria barbárie.

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Uma correção de lapso cometido no texto de domingo passado. O poeta Paul Claudel foi embaixador da França no Brasil de 1916 a 1919, enquanto Stefan Zweig chegou aqui em 1940. O que não altera o que os dois pensaram e disseram de nós.

 

cacad1940@gmail.com 

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