Publicado no catálogo de comemoraçao dos 50 anos de "Rio 40 Graus", em julho de 2005
Um filme fundador
Carlos Diegues
Realizado em 1955, durante regime democrático, "Rio, 40 graus” foi interditado pela Polícia Federal brasileira assim que veio à luz, em agosto daquele ano, sob tolos e vagos pretextos, certamente inspirados por nosso permanente e sólido medo da verdade. Somente em março do ano seguinte, depois de árdua batalha contra a censura, o primeiro longa-metragem de Nelson Pereira dos Santos, então com 27 anos, foi lançado nacionalmente debaixo de grande polêmica que dividia políticos e intelectuais, imprensa e opinião pública.

Sob pretextos políticos e estéticos, escondia-se de fato a divergência crucial em torno de uma utopia que dividiu a cultura brasileira durante todo o século vinte e que nela repercute até hoje: o desejo e o direito de fabricarmos uma arte original, um modo nosso de refletirmos sobre nós mesmos. O que de melhor havia sido criado até ali, na prosa e na poesia, nas artes plásticas, na música e até nos ensaios sociológicos e antropológicos brasileiros, era transformado por Nelson Pereira dos Santos num cinema novo, ao mesmo tempo agressivo e lírico, reflexivo e inspirado, pessoal e culto.

Mais até do que uma experiência artística, "Rio, 40 graus” era um programa de vida ao qual seu autor nunca seria infiel, mesmo que seu cinema sofresse tantas transformações no futuro. Um programa de vida ao qual aderiu toda uma geração de adolescentes e universitários cinéfilos que juntos se tornariam, em breve, cineastas brasileiros que marcariam a história de nosso cinema de modo seminal. Se as telas do país, tomadas pela produção internacional e sobretudo americana, eram as janelas através das quais esses jovens aprendiam a amar o cinema, "Rio, 40 graus” foi a porta luminosa pela qual eles o invadiram.

Depois de "Rio, 40 graus”, nunca mais a cultura brasileira poderia ser a mesma. Ela tinha sido levada para as ruas em busca da verdade e da compaixão, em nome da justiça e da beleza, dos sonhos que alimentaram o que de melhor fizemos em nosso cinema. Se sua contemporânea Bossa Nova era, na música, aquilo que aquela geração sempre sonhara para o Brasil, um projeto de harmonia e elegância para um país miserável e em chamas, o cinema inaugurado por "Rio, 40 graus” nos exibia a face dolorosa do Brasil que não queríamos mais que existisse e que, portanto, não devíamos esquecer.

"Rio, 40 graus” fazia ressurgir um cinema brasileiro tantas vezes morto e ressuscitado ao longo do século 20, inaugurando um ciclo que, mais tarde, se encerraria como modelo econômico, mas que estaria sempre vivo e presente em tudo que se fez depois dele, até nossos dias. Um filme portanto fundador. Do Cinema Novo à atual pós-retomada, nenhum filme, nenhuma idéia cinematográfica, nada foi feito entre nós sem que de algum modo, direta ou indiretamente, se levasse em conta a obra de Nelson Pereira dos Santos.

Ela inaugura entre nós a volúpia da invenção de um rumo próprio, o risco da independência, o êxtase da autonomia. Nos mostrava que o melhor de se fazer filmes no Brasil, é que eles podiam ser diferentes de tudo que se fez ou se faz em Paris, Hong-Kong ou Hollywood, no resto do mundo. E que quando fica parecido com os outros, é aí que eles perdem toda a sua graça.

Nelson Pereira dos Santos nos ensinava sobretudo a não temer nossas imperfeições, a encará-las como fruto de contingências das quais podíamos também tirar proveito, digerindo-as serenamente. Não amar a imperfeição, não ser complacente com ela, mas também não tratá-la como a uma inimiga, saber que podemos tirar dela a nossa força, sendo a principal imperfeição (essa, sim, nossa inconciliável inimiga) o silêncio e a morte.

"Rio, 40 graus” enobrece a história do cinema mundial e marca a história da cultura brasileira como uma luz que nunca mais se apaga.
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