O Globo
A festa do Advento
Carlos Diegues

Precisamos nos preparar para uma semana de muito pesadelo. Não é que já esteja programado mais um sequestro de avião. Ou que outro caminhão esteja pronto para invadir, à toda, uma via agitada do mundo ocidental. Isso até que ainda pode vir a acontecer nos próximos sete dias, mas os pesadelos a que me refiro vão estar, de fato, na ativação de nossa memória, na lembrança do que foi o ano de 2016. Não teremos como escapar à reprodução de tanta tragédia em nossas publicações impressas e nos noticiários de televisão. E ainda teremos, à nossa disposição, a internet e suas redes nem sempre confiáveis, por tonitroantes de pós-verdade.

A pós-verdade é o novo conceito acadêmico, criado em universidades norte-americanas, que serve para definir a narração nem sempre precisa de fatos, através da luxúria liberal da internet. Ela não é uma mentira pessoal, aquilo que inventamos por não conhecermos a verdade. Mas um conjunto de, quase sempre, pequenas ideias que, a qualquer custo, se tornam verdades subjetivas para cada um de nós. A invenção de uma outra racionalidade, capaz de pensar o mundo sem a preocupação da verdade genérica.

É tanta miséria humana acumulada nestes últimos 365 dias que os resenhistas terão que escolher os seus destaques selecionando as pedras mais preciosas da coroa mórbida do ano.

Não se trata de fazermos a soma escandalosa de mortos e feridos em diferentes circunstâncias e tipos de desastres, mas de iluminarmos a importância histórica de cada um desses desastres. E essa importância histórica será diretamente proporcional à relevância do lugar e da gente, capazes de impressionar os fregueses dos meios de difusão.

Não  importa se, na guerra síria que já dura seis anos, foi até agora de cerca de 300 mil o número de mortos contabilizados. Ou se mais de um milhão de refugiados norte-africanos sofreram algum tipo de acidente na tentativa de atravessar o Mediterrâneo de canoa. Ou, ainda, se surge diante de nossos olhos, no fundo de uma ambulância precária, a imagem de um menino de 4 anos, com o rosto ensanguentado e o olhar pateticamente vazio. É como se já soubéssemos previamente que a guerra e a tentativa de fugir dela são mesmo passíveis desses números assustadores que já não nos assustam mais.

O que fazer com a notícia de que mais de 50 seres humanos foram massacrados num night-club de Orlando quando, num  fim de semana, tentavam se distrair e amar em paz? Ou de que 19 alemães foram atropelados à morte por um caminhão desembestado em tão singela, quanto inocente feira natalina? Setenta e um atletas, executivos e jornalistas perderam suas vidas com a Chapecoense, porque os responsáveis pelo avião acharam conveniente economizar alguns dólares, ou coisa que o valha, em gasolina. Os números não importam mais, eles já não significam grande coisa para a administração do mundo.

Não será surpreendente se o resenhista dessa semana nos explicar que o mais significativo do mundo em que vivemos não foi, em 2016, nenhuma dessas guerras, acidentes, choques morais, misérias de toda natureza. O que caracteriza a dimensão do pesadelo é a escolha, para guiar o país mais rico e poderoso do mundo, o país que nos faz, queiramos ou não, girar na direção em que ele se move, de alguém que não é apenas um político conservador e frio, isolacionista e arrogante, violento e preconceituoso, indiferente aos que não são como ele e como sua própria comunidade.

O que mais revela a gravidade do pesadelo é que Donald Trump é o representante acabado do capitalismo  selvagem que  julgávamos esquecido desde o sucesso da democracia social ou da sociedade de bem estar, em parte de algumas partes do mundo.

Trump é um velho capitalista selvagem, fiel fanático do capitalismo rentista, competitivo e cruel, para o qual não basta ser rico e ficar mais rico - é preciso também que nosso competidor empobreça, fique na miséria para nossa segurança e prazer. Foi assim que ele construiu sua vida de milionário, a fortuna da qual nunca abriu mão de um só centavo, para qualquer gesto de solidariedade.

Como podemos esperar que um homem que sempre teve a vida privada ordenada pela competição implacável, pela dominação e destruição do outro, tenha algum generoso gesto de compaixão, uma vez eleito presidente dos Estados Unidos? Seu país tão poderoso coloca em suas mãos os instrumentos que lhe faltavam para completar  sua passagem destruidora pelo mundo.

Hoje é dia de Natal. Para cristãos e para não cristãos, o Natal é uma  festa do Advento, uma festa daquilo pelo que sempre esperamos e que sabemos que há de chegar. Uma festa da esperança sem critério e sem razão. A nossa pós-verdade mais responsável. Como escreveu Goethe, "eu amo aqueles que anseiam pelo impossível".

Feliz ano novo

 

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