O exemplo das autoridades
Carlos Diegues

Num mundo experimental, como este em que vivemos hoje, as consequências são sempre muito mais significativas do que a fonte dos fenômenos. Se eu fosse fazer um filme sobre a Lava Jato, por exemplo, evitaria entrevistar o Sergio Moro ou qualquer um desses bravos guerreiros do Ministério Público Federal. Em vez disso, filmaria os palácios de Brasília totalmente vazios, sem nenhum político passeando entre suas colunas e salões desertos, todos em cana.

A política hoje é uma atividade para jovem sonhador e velho ladrão, gente que não vê razão para desistir do que é. As cadeias estão lotadas, a promessa de mais prisões chegam todo dia aos jornais, dizem que a colaboração premiada da Odebracht vai ser um arraso. Mas quem é do ramo, não perde nunca a oportunidade.

Não consigo compreender como é que um veterano da política, um homem famoso pela habilidade com seus pares, filho de um pai formado nesse mesmo universo, ainda se entrega ao serviço de empreteiras dedicadas a destruir, com seus projetos, o que nos resta de patrimônio histórico e, portanto, de orgulho nacional. Que ao menos escolhesse um momento mais distendido, um ministro da Cultura mais “compreensivo”, um país menos preocupado com a corrupção pública. Atualmente, praticar esse tipo de lobby criminoso é quase um escárnio, um desafio aos nervos de uma população cansada de tanta miserável roubalheira revelada.

Não existe uma ética metafísica que sirva a todas as sociedades, em todos os tempos. Quando Moisés desce da montanha com os dez mandamentos nos braços, está trazendo uma proposta de comportamento que ajude seu povo a sair da crise em que se encontra. É claro que ali estão princípios universais, daqueles que serviram e ainda servem para o avanço da humanidade, para a construção de uma civilização marcada pela convivência entre os semelhantes. Se o mandamento de não matar serve para sempre e para todos, “amar a Deus sobre todas as coisas” não significa nada para um ateu que tem o direito de sê-lo, se não prejudicar ninguém.

O que é inquestionável, em todas essas e outras formas de pensar a convivência humana, é a obrigação que temos de não perturbar o direito do outro, de não avançar sobre o que é do outro. A ética é o princípio que organiza essa convivência humana, nas circunstâncias eleitas por seus praticantes. Quando um político importante pressiona alguém em benefício próprio, usa seu poder para obter vantagens indevidas, investe contra o direito dos outros e de todos. Seu comportamento deve ser punido, para que a sociedade possa conviver em paz.

É um desvio de atenção chamar isso de “judicialização da política” ou “moralismo udenista”. O que se encontra por trás desses gestos criminosos não punidos é o exemplo dado pelas autoridades, aqueles que comandam o país, que nos dizem como ele deve ser. Não tenho a menor dúvida, como já disse aqui nesse espaço, de que a onda de violência que nos assola atualmente, em todas as regiões geográficas e classes sociais do país, é devida, em grande parte, a essa sensação geral de impunidade, a essa constatação de que cada um tem o direito e o dever de obter a vantagem que puder, como o ministro do apartamento em Salvador. Nossa única obrigação é a de não sermos flagrados praticando o delito. O resto vale.

Estamos vivendo um mundo em transição e, como em toda transição, isso nos gera uma ansiedade que nos faz perder certos critérios de valor. É como se o iluminismo estivesse chegando ao fim de seu ciclo de influência sobre a humanidade, como se o humanismo estivesse perdendo sua autoridade para a cultura da técnica, como disse Domenico de Masi, o antropólogo italiano. A ascensão da direita na política mundial corresponde à ascensão na vida cotidiana daqueles que a escolhem, os que desprezam a inteligência e o conhecimento.

Não podemos nos iludir. Nas últimas eleições municipais no Brasil, a imensa turma dos 42% que se abstiveram de votar não era composta apenas pelos que se negavam a eleger um dos lados. Quem evitou votar no Crivella, se negou a votar no Freixo também; quem se absteve, para não votar no Doria, também deixou de votar no Haddad. E assim por diante. O que está em questão no mundo de hoje é a própria democracia representativa e o modo pelo qual ela é praticada nos países ocidentais, entre os quais o Brasil.

Em vez de perdermos tanto tempo pensando no que pensa Donald Trump, devíamos nos dedicar a pensar no que pensam seus eleitores. Perder não é tão grave assim; grave é não se interessar em saber porque perdeu. Como bom botafoguense, acho até que perder às vezes faz bem, perder faz a gente pensar.

cacad1940@gmail.com 

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