Um novo mundo
Carlos Diegues

Um fantasma assombra o mundo inteiro. Ele sai das urnas (como nos Estados Unidos) ou de movimentos autoritários (como na Turquia) para assustar a esquerda e os liberais que, mesmo quando fora do poder, dominaram o pensamento político desde a segunda metade do século passado. Podemos tomar a eleição de Donald Trump como a confirmação americana dessa tendência, a ascensão de uma nova direita ao poder mundial.

Não se trata mais de uma direita politizada, com teorias sobre seu país, seu povo e seus inimigos. De uma direita que pensa sobre seu futuro e seu destino, que acredita na história e que a cultiva. Mas de uma direita selvagem, adormecida há tanto tempo no coração de “pessoas comuns”, silenciosos portadores daquilo que Sergio Buarque de Holanda dizia, em relação ao Brasil: aqui, não existe pensamento conservador, só existe pensamento atrasado.

Esses grupos políticos, que estão tomando o poder ou ameaçando fazê-lo pelo mundo afora, não se importam com programas e projetos, muito menos com versões utópicas do futuro. Eles atuam em função de um pensamento mágico, capaz de transformar franjas da realidade segundo a vontade de cada um. Para esses grupos, a vontade é uma força soberana que ordena o mundo sem regras previsíveis ou pré-estabelecidas. A nova direita se interessa por politica, mas não pelo processo politico. Ela despreza o raciocínio.

A construção de um muro na fronteira não nasce de um pensamento articulado com a realidade, mas de um sentimento pessoal maior do que a realidade, de um desejo que se resolve dentro da própria pessoa. Além de seu sentido mágico, esse desejo não obedece a nenhuma lógica. A nova direita inaugura, assim, uma espécie de anarquismo oportunista que não precisa ser justificado.

Não acho que Trump seja um demônio incontrolável. Uma vez na Casa Branca, ele será obrigado a se portar como o presidente de um país tão complexo quanto o seu.  Não terá outra alternativa. Em campanha, pode-se dizer qualquer coisa; mas, depois de empossado, ele terá que se submeter às limitações legais impostas pela Constituição, pelo Congresso e pela Suprema Corte, bem como aos impedimentos políticos e culturais, como o próprio curso da opinião pública derrotada. Depois de oito anos no poder, Obama não conseguiu fechar a prisão de Guantánamo, jóia da coroa de suas promessas de candidato.

Trump foi eleito pelo ódio xenófobo, misógeno e racista, anterior às lutas pelos Direitos Civis do século XX. Ele tocou o coração de uma população branca de baixa renda, sufocada pelos novos costumes trazidos pela globalização. Trump representa uma vitória contra o império do “politicamente correto” que angustiava tanto pessoas tão pouco sofisticadas intelectualmente. Como escreveu Adriana Carranca, esse povo “se sentiu ignorado pelo sonho americano, do qual se julgou à margem”. Agora, podemos chamar toda  mulher que não nos agrada de nasty (nojenta), todo homem de etnia diferente da nossa  de raper (estuprador).

O novo presidente americano foi escolhido democraticamente por seus concidadãos, respeitadas todas as regras institucionais do país. O que fez o eleitor escolhê-lo foi a libertação de suas vísceras provocada por discursos redentores, pela rejeição de  qualquer impedimento ético à nossa vontade. A vitória dos sonhos perversos sobre a razão das contingências. Trocando em miúdos, o fim dessa conversa fiada de solidariedade ou, mais radical ainda, de fraternidade. O fim do que esse eleitor vê como um conceito artificial de humanidade.

A surpresa do resultado eleitoral deu-se porque o eleitor de Trump escondeu seu voto dos institutos de pesquisa. Ele preferiu disfarçar sua opção, como se estivesse preparando um motim contra os representantes do establishment ao qual planejava destruir ou, no mínimo, dar as costas. Não o fez por vergonha do voto, mas pelo gosto da revanche. Uma espécie de malandragem para, além de sair vitorioso, rir-se do derrotado.

Nem todos se surpreenderam. O cineasta Oliver Stone, suprassumo da esquerda de Hollywood, afirmou que “tinha mais medo de Hillary, uma conservadora intervencionista”. Para ele, “Trump é um negociador, um homem prático”. Intelectuais como Peter Thiel, empresário e pensador de ponta do Vale do Silício, criador do PayPal e primeiro grande investidor do Facebook, que votou duas vezes em Obama, acha que Trump desafia tabus e o statu quo hipócrita: “estamos votando nele porque nossos líderes tradicionais fracassaram e queremos uma nova política”.

Os eleitores de Trump estão aliviando frustrações antigas que foram se aperfeiçoando ao longo das conquistas da civilização moderna. A violência de cowboys sem lei que Trump, bandido ou mocinho, almeja representar, está na linha do Brexit do Reino Unido, da restauração czarista de Putin, da violência desatinada de Erdogan, das dezenas de partidos ascendentes da nova e ansiosa direita da Europa ocidental. Esse é o mundo em que estamos vivendo hoje, insuspeitável até poucos anos atrás. 

carlosdiegues2015@gmail.com

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