Braços negros ao mar
Carlos Diegues

Na primeira página do GLOBO, cabeças negras, protegidas por boias vermelhas enfiadas no pescoço, tentam escapar das águas do Mediterrâneo, alçam seus braços negros a pedir ajuda a outros braços negros que tentam socorrê-los. Um dos náufragos consegue se equilibrar na borda branca da embarcação de socorro, parece estar por salvar-se. Entre os que ainda lutam contra as águas e se esforçam para tentar alcançar o barco, um homem negro se apoia no braço de um companheiro e no salvavidas dele.

 

O homem parece cansado, a ponto de desistir de tanto esforço pela vida que provavelmente não lhe vale mais de nada. Talvez imagine o que ainda lhe falta de tanto sacrifício para escapar da guerra, da miséria, do infortúnio em seu país, de onde tenta se refugiar. Parece ter suspirado, antes que se tomasse sua fotografia. Ele é o único a olhar para a lente da câmera que, provavelmente de outra embarcação, registra a cena de horror da qual teria preferido não tomar parte. E é com esse sentimento que olha sério para a lente da câmera, o único que, por estar de costas para o barco salvador, percebe sua presença.

 

Mas seu olhar não registra autopiedade ou vãs acusações. Ele olha para a câmera com fria curiosidade, como se estivesse se perguntando porque as mãos que clicam sua tragédia não tomaram prévio conhecimento dela. Num momento fatal de sua vida, o olhar do náufrago negro é de curiosidade, ele tenta entender quem são os outros e o que eles podem querer de nós. Talvez não lhe ocorra que aquela fotografia há de circular pelo mundo todo, na primeira página de jornais em tantas grandes cidades, na hora do café da manhã ou na ida de metrô para o trabalho.

 

Talvez não ocorra a esses longínquos leitores de jornal que a felicidade para alguns pode ser apenas alcançar a borda branca de um barco de borracha, tentando salvar refugiados no Mar Mediterâneo.

 

Enquanto isso, na primeira página do jornal “Folha de São Paulo”, a fotografia registra a tragédia em ação, possivelmente por ocasião do mesmo evento, já que o reporter fotográfico que as assina é o mesmo. Aqui, num mar bravio de espumas brancas, possivelmente formadas pelo esforço dos náufragos que se afogam embaixo d’água, os salvavidas vermelhos flutuam sem ninguém a usá-los. Não vemos nenhuma vítima, só os salvavidas ao sabor das ondas.

 

Mas, de dentro do mar, um longo braço negro se estende para fora das águas em busca de um contato qualquer. A mão negra que surge das espumas parece acenar para alguém que não vemos e não é mesmo visto, pois não há mais nenhum barco à vista. Alguém que poderia tentar salvar o dono do braço e da mão, mas que não pára de fotografá-los, cumprindo sem paixão seu dever de observador do que acontece de alegre ou triste por este mundo afora.

 

Os dedos negros do afogado não apontam para lugar nenhum, eles se dobram como se fossem iniciar uma dança popular daquelas que exigem uma certa sensualidade, condizente com rítmos étnicos, levadas de origem africana. Saindo da espuma branca do mar, nem mesmo um adeus essa mão ensaia. Se por acaso a mão negra pertencer ao homem que nos olhava na outra fotografia (o que é bem possível), entenderíamos logo que ela não tem pressa para se afogar, mas também não espera nada de quem a observa com seus dedos a despencar.

 

Daqui a pouco, essas duas cenas cairão no esquecimento de um mar que voltará à sua aparência tranquila, sem salvavidas vazios a flutuar ou barcos a oferecer socorro, sem espumas brancas levantadas no esforço de nadar e homens negros que se afogam com serenidade, como se tivessem vivido o pouco que viveram nesse planeta apenas para isso. Como se não houvesse mesmo nada a fazer.

 

Nosso repórter fotográfico da agência de notícias não terá mais o que fotografar por ali. Ele voltará para casa, enviará o resultado de seu trabalho a quem de direito e, na hora do jantar, comentará com os filhos a crueldade de um mundo desigual que obriga as pessoas a se arriscarem para fugir da morte que irão encontrar logo mais adiante.

 

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Não posso deixar de anunciar que acabam de estrear e estão em cartaz dois preciosos documentários brasileiros. “Cinema Novo”, de Eryk Rocha, e “Cicero Dias, o compadre de Picasso”, de Vladimir Carvalho, tratam de dois fenômenos singulares da nossa cultura no século XX, dos quais temos muito que nos orgulhar. “Cinema Novo” trata do movimento cinematográfico dos anos 1960, que inventou o cinema moderno no Brasil. “Cicero Dias…” nos remete ao grande pintor pernambucano dos anos 1930, amigo de Picasso, Éluard, Miró, Léger, um dos criadores do modernismo na pintura brasileira. Num momento de tanta desconfiança em relação ao que nós mesmos valemos, ver esses dois filmes levanta a nossa moral nacional.

 

carlosdiegues2015@gmail.com

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