Um mundo maravilhoso
Carlos Diegues

Os americanos têm uma expressão para qualificar suas comédias cinematográficas leves, em geral românticas e familiares, que eles chamam de “feel good comedies” (mais ou menos, “comédias para se sentir bem”). Nunca ouvi falar de expressão similar para as canções que nos deixam distendidos, namorando o mundo, mas imagino que também exista algo como “feel good songs”.

Assim teríamos como classificar coisas como “If you wish upon a star”, “Pure imagination”, “Over the rainbow”, “True love”, ou esse suprassumo da alienação do sofrimento que é “What a wonderful world”, consagrado por Louis Armstrong e desmoralizado por Robin Wiliams, em “Bom dia, Vietnam”, o filme de Barry Lewinson sobre os bastidores da guerra.

Alguém que não esteja preocupado com o estado do mundo pode passar anos ouvindo essas canções, com um sorriso nos lábios e o coração palpitando de sossego e sonho. Não são canções que pretendam nos exaltar, levantar nossa moral ou nos preparar para uma felicidade eterna que tanto merecemos. Muito menos nos alertam de nada. Elas simplesmente colaboram com o fluxo de um anseio que cada um de nós tem dentro de si, em direção à passividade interior.

Na música brasileira, temos um certo balaio dessas canções, algumas delas verdadeiras obras primas que cultivamos há muitos anos. Elas nos são muito úteis na política, por exemplo, quando descobrimos que, no mundo contemporâneo pós-moderno, não existe mais confronto de idéias e programas, mas uma agressiva e sanguinária disputa acusatória entre as partes, onde a vida é o que menos importa. O futuro não pode ser sempre uma continuação da violência do presente, a violência de quem se julga herói salvador de quem não pediu para ser representado, a violência das idéias indiscutíveis.

Sempre que ouvimos uma dessas canções para se sentir bem, nos imaginamos num por de sol de uma praia idílica, a correr de braços abertos em direção ao ser amado, como nos mais contundentes comerciais de cigarro de antigamente. É como se o por do sol, a praia idílica e o ser amado só nos fossem permitidos nesses momentos de alienação e fantasia. Na real, não temos direito a nada disso, porque nos disseram que o prazer não presta e o mundo é necessariamente um vale de lágrimas. O contrário do que está, por exemplo, na difamada “What a wonderful world”.

Um filme tem sempre uma duração precisa, ele termina enfim por acabar. Já a canção pode ficar sendo cantarolada em nossas mentes para sempre. Depois de ver um bom filme, podemos pensar sobre ele, chegar a certas conclusões estimuladas por ele. Mas as emoções que nos proporcionou durante sua projeção não existem mais, nem voltam com a mesma força se não virmos o filme de novo. De uma canção que amamos, podemos guardar e viver a emoção que ela gerou em nós pelo resto da vida. A música, a mais abstrata das expressões artísticas, é justamente aquela mais intrinseca e misteriosamente humana, a que nos provoca mais sentimentos, muitas vezes inexplicáveis. Como somos nós mesmos.

Quando falo bem da canção que faz a gente sentir-se bem, não estou elogiando a mediocridade formal de grande parte delas. É verdade que, quase sempre, são escritas de modo a não nos perturbar com notas surpreendentes e acordes inesperados, de modo a que nos entreguemos instintivamente a elas e não pensemos no que elas são. Meu elogio é à sua capacidade de nos dar o direito ao bem estar, ao prazer e a eventual momento de felicidade.

O contrário disso tem sido, ao longo dos séculos, uma imposição tragicamente equivocada da inteligência humana (sobretudo  ocidental), para que nos convençamos de que, quanto mais sofrermos, mais seremos dignos do paraíso. Aqui mesmo ou no céu. Embora devamos sempre tentar mudá-lo, nos esforçar para que ele seja bem melhor para todos, não foi para isso que nosso mundo foi inventado,.

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Dib Lutfi foi um dos maiores diretores de fotografia da história do cinema brasileiro. Inventor da imagem de nosso cinema moderno com a câmera na mão e luz natural, ele trabalhou com quase todos os realizadores de sua geração (a geração do Cinema Novo) e inspirou cada um deles em seu trabalho. Um homem ao mesmo tempo doce e crítico, sempre bem humorado, fascinado por desafios técnicos e artísticos, Dib acabou tendo gloriosa repercussão internacional. Ele nos deixou no início dessa semana, depois de alguns anos de alzheimer. Além de seu papel exemplar na história de nossa cultura, Dib deixa uma lembrança inesquecível para quem o conheceu.

carlosdiegues2015@gmail.com

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