Publicado na revista francesa "Cahiers du Cinéma" e reproduzido pelo jornal "O Globo", em 12 de julho de 2004
Sobre François Truffaut, no vigésimo aniversário de sua morte
Carlos Diegues
Quando vi pela primeira vez "Os incompreendidos” ("Les quatre cent coups”) e, em seguida, "Uma mulher para dois” ("Jules et Jim”), eu era um jovem cineasta de uns 20 anos de idade que se iniciava no curta-metragem e aspirava a que meus filmes mudassem meu país e o mundo, forjando um novo e glorioso futuro para o cinema.

É claro, portanto, que aqueles filmes me irritaram muito, ao mesmo tempo que me encantavam secreta e misteriosamente.

Alguns cineastas filmam para a bilheteria, outros para seus amigos, uns terceiros para a história do cinema. François Truffaut filmava para a vida, como se cada um de seus filmes fizesse parte de um elo de acontecimentos que se reproduzem para compor a existência de cada um de nós, seus espectadores.

Ver esses filmes é uma experiência de ensinamentos sem sobressaltos, como se cada um deles não passasse de súbita e necessária lembrança de alguma coisa que, embora clandestina, sem existência reconhecida e declarada, já está previamente inscrita em nossa memória individual ou na própria memória da espécie.

Seus filmes descobrem a nobreza e dão direito de cidadania, no reino de nossas individualidades, a sentimentos que geralmente desprezamos e logo sufocamos como banais, indignos de nosso respeito, sentimentos que quase sempre tratamos de esconder de nós mesmos e dos outros.

Como Jean Renoir antes dele, Truffaut nos condena a contemplar nossas imperfeições como uma condição humana que podemos amar e da qual é possível tirar proveito em benefício de nossa felicidade comum, sem fórmulas ou grandes estratégias, com a naturalidade de uma simples respiração.

Em suma, François Truffaut nos ensina a fazer filmes como quem respira.
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