A vitória da alegria
Carlos Diegues

Está atualmente em cartaz, nos cinemas do Rio de Janeiro, São Paulo e outras cidades do país, o filme “Shaolin do Sertão”, de Halder Gomes. Halder é o mesmo jovem realizador cearense de “Cine Holiúde”, sucesso recente do cinema brasileiro, sobre um herói sertanejo que constrói uma sala de exibição de filmes no interior do Ceará.

Criador de situações e personagens originais, quase sempre hilariantes referências à realidade cotidiana de sua região, o diretor dá um passo à frente com esse novo filme, através de seu herói, jovem morador de Quixadá, no sertão do estado, apaixonado por artes marciais e cultura oriental.

Interpretado por Edmilson Filho, extraordinário talento cômico sem igual no país (na melhor tradição cearense de Chico Anísio e Renato Aragão), o “Shaolin do Sertão” se dedica à prática das lutas orientais, sempre vestido como um monge guerreiro da tradição japonesa, sonhando com um espaço e uma cultura distantes, sem os quais não pode ser feliz. O shaolin Aluizio Li cultiva esse espaço em sua imaginação e essa cultura em seu espaço real de quarto acanhado na casa de sua inconformada mãe.

E assim segue sua vida solitária, na companhia eventual de um menino da cidade, diabolicamente engraçado, que confunde supositório com depositário. Só ele, o menino, sabe da paixão secreta de Aluízio Li pela filha do padeiro da cidade (uma volta de Dedé Santana ao cinema, sem a trupe dos Trapalhões).

Para impressionar sua amada, o shaolin Aluízio Li aceita o desafio público para uma luta com Toni Tora Pleura, um gigante patrocinado por canal local de televisão, que já acabou com todos os que ousaram subir ao ringue para enfrentá-lo. Envolvido em misteriosos lances políticos com o prefeito em quem não se pode confiar (o comediante baiano Frank Menezes) e treinado por um falso, interesseiro, mentiroso e sábio Mestre (o cantor Falcão, dotado de um carismo cômico sem similar), capaz de pensamentos óbvios ditos em linguagem acadêmica (“depois da noite, o mais provável é que venha o dia” e coisas parecidas), nosso shaolin se prepara para finalmente enfrentar o monstro Tora Pleura, diante de toda a sua Quixadá.

Não conheço ainda o resultado de público desse “Shaolin do Sertão”, mas é preciso saudá-lo como um “aggiornamento” do que sempre existiu de bom na comédia popular brasileira. Uma mistura de televisão (antes era o rádio) com circo (sempre foi o circo), do mais secular em nossa cultura popular com os anseios mais modernos de nossa população exposta à mundialização cultural e a seus meios de difusão, “Shaolin do Sertão” é uma sátira delirante de nosso desejo de viver a vida dos outros. Já que não podemos vivê-la na realidade, tentamos na fantasia cultural do que conhecemos desse outro. Acabamos prisioneiros de uma armadilha cômica em que não somos uma coisa nem outra, em que não somos nós mesmos nem o outro.

O filme de Halder Gomes, muito acertadamente, não encara isso como uma tragédia, mas como uma consequência natural dos andares da sociedade, das coisas que se passam em torno de nós e não podem ser ignoradas. Apenas se sente curioso sobre o destino disso tudo.

O grande pensador paulista do cinema, Paulo Emílio Salles Gomes, dizia, para escândalo dos críticos convencionais da época, que artistas como Mazzaropi e Zé Trindade ensinavam o cinema nacional a falar brasileiro, como se fala nas ruas  e nos lares de nossas cidades. Dessa forma, eles cultivavam um retrato do que somos e não a fantasia do que gostaríamos de ser. Talvez não nos ensinassem apenas a falar a nossa lingua, mas também a nos reconhecermos.

Alguns aspectos fundamentais de nossas chanchadas, mesmo aquelas mais absurdas tematicamente, paródias explícitas como “Matar ou Correr” ou “O homem do Sputnik”, eram reveladores desse confronto entre eu e o outro. “Nem Sansão, nem Dalila”, paródia do famoso épico hollywoodiano, se passava  em ambiente de costumes políticos onde o personagem do presidente Getulio Vargas, cujo suicídio se dera um ano antes, era uma referência.

“Shaolin do Sertão” ajuda a reinstalar essa ideia de que podemos nos descobrir pela veia cômica, pela carinhosa e saudável auto-ironia sem restrições acadêmicas. É possível ser sério, sem perder a alegria, o gosto pelo trapézio dos risos. É isso o que esse filme nos oferece de mais precioso, esse gosto pela comicidade inventiva e original, um gosto pela alegria. “Shaolin do Sertão” e seus heróis precisam ser saudados como o surgimento de um novo cinema popular, no seio desse cinema brasileiro contemporâneo tão diverso.

É como se marcasse um passo decisivo na direção de um entretenimento irressistível que pode também nos fazer pensar, sempre com alegria e amor à vida. Uma espécie de “entretendimento”, o ideal da inteligência humana.

carlosdiegues2015@gmail.com

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