Um herói público
Carlos Diegues

Desde alguns anos, acompanho de perto a gestão de José Mariano Beltrame, à frente da secretaria de Segurança do Estado do Rio de Janeiro. Em 2010, com os mesmos diretores de “5XFavela, agora por nós mesmos”, jovens cineastas moradores de favelas cariocas, produzimos o documentário “5XPacificação”, tematizando a nova política de segurança pública instaurada dois anos antes por Beltrame, com as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora).

Vi de perto o empenho do secretário e, ao mesmo tempo, a emoção das populações daquelas comunidades, em dicussões intensas sobre o funcionamento e o futuro das UPPs. O Complexo do Alemão tinha acabado de ser retomado dos traficantes de drogas, estava livre do controle da violência armada e da repressão social que eles exerciam sobre os moradores. Fizemos então uma entrevista coletiva ao ar livre com Beltrame, numa viela da Vila Cruzeiro, até ali território exclusivo do tráfico. Além de sua segurança militar, quem dava cobertura e proteção ao secretário e a todos nós eram os próprios vizinhos da viela.  

Visitei, com nossos cineastas de “5XPacificação”, diferentes comunidades, com ou sem UPPs. Filmamos em Cidade de Deus, na Maré, no Cantagalo, em Nova Brasília, Dona Marta, Babilônia, Vigário Geral, Parada de Lucas, Rocinha, sei lá mais o quê. Fomos todos testemunhas do entusiasmo e da esperança com que a chamada “política de pacificação”, um policiamento doméstico e permanente articulado com as necessidades de cada favela, era recebida. O herói dessa pacificação era, para todos, o secretário José Mariano Beltrame, ele também comovido com a expectativa popular.

Desde o início do processo que encheu de esperança os cariocas de um modo geral, sempre ouvi Beltrame dizer, clara e publicamente, que as UPPs não eram uma panacéia que ia resolver tudo. Ele sempre fez questão de ressaltar, em entrevistas, conversas ou depoimentos, que o papel das UPPs era apenas o de abrir as portas das favelas ocupadas pelo tráfico armado aos serviços sociais do estado, aos quais todo cidadão tinha direito. Se o estado não levasse às favelas, pelas portas abertas pela polícia, educação, saúde, saneamento, esgoto, emprego, cultura e outros serviços indispensáveis, a política de pacificação iria fracassar, os traficantes voltariam com suas atrações letais para a juventude local, ocupando um espaço que o estado não quis ou não soube ocupar.

Ouvi-o dizer isso várias vezes, inclusive em depoimentos públicos diante de autoridades como o próprio governador do Estado. E nada aconteceu.

Em minhas visitas às favelas, cada vez que eu via, na esteira da pacificação, uma sala de cinema ser instalada, uma agência de banco ser aberta, uma organização cultural ser fundada, uma onda de pequenos negócios e empreendedorismo ser iniciada, a recuperação de ex-drogados e ex-traficantes por associações como o AfroReggae, a CUFA ou o Observatório de Favelas, eu me perguntava o que aconteceria se Beltrame não fosse ouvido pelas autoridades e pela própria sociedade.

A esperança não foi desconstruida da noite para o dia; mas teve seu declínio e corrupção de ideais, a partir do momento em que o Estado se ausentou de seu dever e os próprios policiais de UPPs, diante da justa impaciência dos moradores, voltaram às práticas anteriores à exortação de Beltrame. Os homens públicos, com muito raras exceções, ignoraram essa crise. Alguns, desinteressados das causas populares, mal perceberam o que se passava. Enquanto que os  populistas, animados pelos  oportunistas de sempre, demonizavam genericamente as UPPs. O bárbaro crime cometido contra o pedreiro Amarildo na Rocinha, por exemplo, transformou-se logo num instrumento hipócrita de desmoralização da política de pacificação. O nítido interesse não era o de punir os criminosos, mas de acabar com as UPPs.

José Mariano Beltrame agora está indo embora da secretaria de Segurança, onde trabalhou durante dez anos por nossa população mais pobre. Ele é um desses raros homens públicos, em nosso país, que ainda pode ser tratado como um herói. Como todo herói, nem sempre o mocinho vence no final. Mas deixa sempre um exemplo político, público e moral com seu comportamento, uma amarga frustração do que podia ter sido o que ele pregou e tentou realizar durante esses anos todos. Uma nova esperança.

carlosdiegues2015@gmail.com

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