Em quinze anos
Carlos Diegues

Essa foi uma semana intensamente cinematográfica. Ela começou com a entrega dos prêmios anuais da Academia Brasileira de Cinema, relativos a 2015, numa cerimônia em que se destacou o discurso objetivo e vibrante do principal homenageado da noite, o diretor e produtor Daniel Filho. Tenho especial gosto por essa festa, hoje sob os cuidados dos principais dirigentes da Academia, os cineastas Roberto Farias e Jorge Peregrino. Em sua primeira versão, há quinze anos, o prêmio de melhor filme foi dado, pelos membros da Academia, ao nosso “Orfeu”.

Só pode nos dar orgulho ver premiados, num mesmo ano, filmes tão distintos quanto “Que horas ela volta?”, “Chatô”, “Chico, artista brasileiro” ou “Estrada 47”, entre outros. O cinema brasileiro não é mais um gênero abrangente e único, mas uma cinematografia nacional, onde vigoram todas as variáveis possíveis de gêneros, uma diversidade capaz de representar a múltipla grandeza do país.

Dois dias depois, a celebração deixava de ser em torno de nossa capacidade de fazer, para se tornar uma festa do conhecer, um tributo à cultura cinematográfica representado pela inauguração do Festival do Rio, comandado por Ilda Santiago. Cerca de 250 filmes de todo o mundo, clássicos, recentes e inéditos, estão e estarão nos próximos dias à disposição dos cinéfilos espalhados por toda a cidade. Num momento em que o audiovisual sofre transformações tão radicais, desde os meios de produção aos de consumo, não se pode pretender participar desses novos tempos sem cultivar seu conhecimento.

Foi também há quinze anos, em setembro de 2001, que a Agência Nacional de Cinema, a Ancine, foi criada. Depois da devastação do cinema brasileiro provocada pelo governo de Fernando Collor, seu sucessor Itamar Franco iniciou a recuperação da atividade no país. Ao longo dos dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, sobretudo a partir do Terceiro Congresso Brasileiro de Cinema, realizado em Porto Alegre entre 28 de junho e 1º de julho de 2000, essa recuperação foi acelerada, com a criação da Ancine, a invenção de um sistema original para a economia do cinema brasileiro.

Embora muitas vezes criticada pelos próprios cineastas em seus primeiros anos de existência, a Ancine, com o apoio dos governos seguintes de Lula e Dilma, acabou por consolidar o sistema econômico que inaugurara, gerando hoje um julgamento praticamente unânime sobre seu papel. Ao longo de sua história, ela foi agente e vítima de uma certa tendência malsã ao excesso de burocracia, típico do serviço público brasileiro. Mas adaptou-se no tempo, tornando mais democrática e dinâmica a atividade cinematográfica, bem como alargando seu campo de ação a outras mídias, como a televisão.

Hoje o cinema brasileiro não é mais apenas um sacrifício de abnegados em favor da cultura nacional, mas uma atividade da economia criativa que cresce a cada ano, gerando, como lembrou Daniel Filho no Teatro Municipal, centenas de empregos a cada filme realizado, além de crescente receita para o estado na forma de impostos e taxas.

Segundo a FIRJAN, a economia criativa no Brasil responde por 2,6% do PIB, emprega  900 mil profissionais com média salarial e taxa de crescimento que correspondem ao dobro da média da economia brasileira. Os incentivos fiscais são fator poderoso por trás de números tão significativos. Segundo previsão da Receita Federal, em 2016 a renúncia fiscal para a cultura deverá ser de 0,48% dos 270 bilhões de reais que o Brasil deixará de arrecadar com programas de incentivos a outros setores da economia, tais como a indústria automobilística ou os eletrodomésticos da linha branca. (Mas nunca se soube de geladeira que, uma vez aberta, agradecesse o apoio do Ministério da Indústria).

Nunca se filmou tanto no Brasil, com tão bons resultados, quanto nesse período de existência da Ancine, sob a presidência de Manoel Rangel. Em 2002, foram lançados 29 filmes brasileiros; em 2015, foram 129. Há quinze anos, os filmes brasileiros foram vistos por 7,2 milhões de espectadores, que se tornaram 22,4 milhões em 2015. Um total de 90 milhões de ingressos foram vendidos em 2002; 173 milhões, em 2015. As salas de cinema cresceram de 1.635, em 2002, para 3.100 hoje em dia. E agora elas não são mais o único destino de nossos filmes. Por iniciativa legislativa da Ancine, as emissoras de TV paga são obrigadas a exibir uma cota de produção independente brasileira. Essas emissoras já estão exibindo mais do que a lei as obriga.

 

Não é somente um milagre que, em plena catástrofe econômica do país, um setor de nossa economia cresça desse jeito. Mas talvez seja porque o Brasil é um dos poucos países do mundo que, por seus costumes, tamanho, geografia e cultura, pode ser considerado uma nação de cinema.

 

carlosdiegues2015@gmail.com

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