Por onde vamos navegar
Carlos Diegues

O debate entre Donald Trump e Hillary Clinton na televisão nos explica muita coisa sobre o que são hoje os Estados Unidos e sua reprodução no resto do mundo. Trump não é o primeiro político selvagem a tentar sua eleição à presidência americana. Na categoria bilionários, por exemplo, Ross Perot havia enfrentado, como terceira força “reformista”, as duas candidaturas vitoriosas de Bill Clinton, em 1992 e 1996. Esses representantes de uma certa “maioria silenciosa”, que parecem empolgar o eleitor,  acabam sempre sendo descobertos e esquecidos bem antes das eleições.

Nos anos 1960, assistimos o célebre e decisivo debate entre a terrível raposa  republicana Richard Nixon e o jovem democrata inexperiente John Kennedy. Contra o suor na testa de Nixon, foi o charme da juventude, o humor afiado e a presteza ferina de suas intervenções que fez o senador de Massachussets derrotar um dos heróis do macartismo, responsável recente pela eliminação pública que fez sofrer tantos artistas e intelectuais acusados de atividades anti-americanas. 

Naquela mesma década, depois do assassinato de Kennedy, seu vice, Lyndon Johnson, enfrentaria Barry Godwater, ícone racista da luta contra os direitos civis. Assim como, na década seguinte,  um desconhecido governador da Georgia, Jimmy Carter, derrotaria a dramática ignorância de Gerald Ford. E, mais tarde, Bill Clinton tiraria do poder o Bush pai, que havia iniciado a catástrofe da guerra no Oriente Médio. Tenho a impressão de que essas não foram vitórias ideológicas, mas simples opções pelo bom senso. Certo ou errado, o eleitor americano estava escolhendo a sobriedade contra o espalhafato e o escândalo da extrema burrice. Estava se protegendo do desastre, ao preferir a poesia de ilusões à  prosa de terror.

Hillary não tem o charme de Kennedy, a modéstia sincera de Carter,  a esperteza moral de seu marido; mas é claro que é muito mais equilibrada e consciente da responsabilidade do cargo que pretende ocupar do que seu adversário. Apesar do tédio de sua retórica, ela nos transmite mais confiança do que Trump. Talvez até porque não nos diga mesmo nada de muito importante para o futuro dos Estados Unidos e do mundo.

Ela lembra um Pacheco, aquele personagem de Eça de Queiróz respeitado por sua sabedoria que, ao morrer, nenhum de seus amigos e admiradores é capaz de lembrar de onde lhe vinha a fama de sábio. Mesmo com os resutados das pesquisas sobre o debate dando vitória à candidata do Partido Democrata, sente-se no ar que o republicano histriônico ainda não saiu da disputa. Muitas vezes, como em certos casos nas eleições municipais brasileiras, seu eleitor prefere esconder que pretende votar nele. E nos surpreende nas urnas.

Trump reproduz um fenômeno crescente na política internacional, sobretudo na dos países onde existem eleições democráticas. Trata-se de uma espécie de fastio do eleitor médio e pobre em relação à política e aos políticos, um desgosto que está sendo usurpado pela direita mundial. O que está acontecendo nos Estados Unidos e na Europa de um modo geral (e no Brasil também) é um enorme cansaço diante das discussões econômicas e sociais, travadas com certezas intolerantes que apenas disfarçam a corrupção e o abuso de poder em benefício próprio.

Ninguém acredita mais, ninguém quer mais acreditar em quem nos faz excelsos discursos de salvação nacional. As pessoas preferem os que não fingem pensar, os que dizem logo que o importante é vencer na vida, ficar rico e ter sempre o que vestir e comer, sobretudo quando se engana o eleitor dizendo-lhe que isso está igualmente a seu alcance. Ninguém quer mais saber de quem pensa e tenta dar explicações, as coisas são o que são pela força natural delas mesmas. E é melhor que continuem sendo assim, para sossego de nossas mentes e satisfação de nossos corpos.

Desde  Bretton Woods que a economia é um assunto de esquerda, uma tentativa de organizar o mundo de uma maneira aparentemente mais justa, com maior controle da riqueza. A direita pode até fingir se importar, mas na verdade está pouco se lixando para a economia, não é isso que mobiliza sua ideia de poder. Ao contrário da sofisticação dos que pensam o mundo, a direita quer apenas organizá-lo na base da lei e da ordem, como disse o próprio Trump. Esse é o modo de resolver todos os problemas sem se preocupar em resolver nenhum, a paz imposta como aparência de felicidade coletiva.

Não adianta dizer, como o herói de Guimarães Rosa, que “sou só um sertanejo, nessas altas ideias navego mal”. Pois é nessas novas “altas ideias” que vamos navegar nessas primeiras décadas do século 21. Se não conseguirmos substituir a histeria mística e personalista da esquerda populista por algo mais democrático, efetivo e eficiente, jamais seremos capazes de enfrentar a direita desprovida de sentimentos.

carlosdiegues2015@gmail.com

   

Volta