Prefeitos não são perfeitos
Carlos Diegues

Sou um admirador fiel do Horário Político Obrigatório na televisão. Não é que eu ache formidável tudo o que ali se diz e se mostra, em geral é até bem detestável. Mas é impossível ignorar esse instrumento de participação, esse ringue civilizado de disputa política, onde todos são iguais e têm a mesma oportunidade de chegar a seus eleitores (se bem que ainda tenho dúvidas quanto à justiça na distribuição de mais tempo para os partidos com mais votos). Não sei de outra democracia no mundo onde isso aconteça com tal regularidade, sem custos para partidos e candidatos, a não ser os da ambição de sua própria produção.

Os cidadãos e as cidadãs que ali se apresentam, com suas candidaturas à vereança do município, representam quase perfeitamente nossa sociedade, suas lideranças e suas preferências. Se por acaso lamentamos seu nível político e cultural, se nos horrorizamos com seus programas cretinos e sem conteúdo, com a hilariedade de seus discursos, é injusto culpar de nosso desgosto a lei que criou essa programação. O que podemos lamentar é o nível da sociedade de onde vieram os que a usam, a mesma onde vivemos e pela qual somos todos, de algum modo, responsáveis.

Somos nós que elegemos nossos representantes e, se eles não estão à altura do que imaginamos que deviam ser, a culpa é nossa, de quem os educa, prepara e vota. Talvez não haja, em busca de nosso voto, alguém à altura do que julgamos ser nossa grandeza pessoal. Os que estão na telinha, anunciando nomes e números, são aqueles que conquistaram o amor de seus vizinhos, colegas de trabalho e parceiros de função social. Os eleitores elegantes que se julgam de mais gabarito, nunca se darão ao trabalho de encontrá-los na vida real. Onde, quem sabe, andem fazendo o bem a muita gente, mesmo que sem ideologia e em troca de voto.

Ainda não sei em quem vou votar para vereador. Já pensei em usar a prerrogativa da idade e não ir às urnas nessas eleições. Por cansaço da política e dos políticos, talvez. Ou para aproveitar o feriado cívico na praia, já que não sou mais obrigado a votar. Mas tenho assistido o programa eleitoral na televisão e acompanhado os candidatos na internet com os dedos no aplicativo de notas de meu celular. Nunca se sabe. Vou digitando nome e número de quem me chama a atenção, seja pelo que anuncia pretender fazer em benefício da cidade, seja pela intuição que me inspiram seu comportamento e sua própria figura pessoal.

Assim, já anotei nomes sugestivos como Rosa do Coração e Babu Irmão Guerreiro, vi que Benrique pretende construir uma Bariloche nas montanhas de Nova Friburgo, ouvi extratos de antigas canções românticas cantadas por Aguinaldo Timóteo, descobri um militante que se chama Delongas da Juventude (e que nem muito jovem me parece ser), me confundi com o número imenso de Brads Pitts e Cauãs Reymonds pedindo meu voto.

Já entre os candidatos a prefeito, a coisa é diferente. Que me desculpem se desdenho de seu candidato ou candidata (tem uma que mal tem tempo de dizer seu nome, coitada), mas nenhum deles é tão sincero quanto a maior parte dos aspirantes à vereança, nem parece ter saído do mesmo cadinho social de nossos futuros legisladores municipais. Os que falam uma outra lingua que, por pobre e canhestra, mas dirigida à grande comunidade que frequentam, talvez diga melhor de onde viemos e o que ainda somos de verdade.

Prefeitos não precisam ser obrigatoriamente perfeitos. Fiorello LaGuardia, prefeito mítico de Nova York de 1934 a 1945, parceiro republicano de Franklin Roosevelt no New Deal, vinha de pobre família de imigrantes italianos, frequentava a boemia do bairro popular do  Bronx, compunha com jazzistas barra pesada de então, era um político nada convencional. E, no entanto, modernizou sua cidade, deixando-a em grande parte como é até hoje, com transformações no trânsito, construção de habitações populares, de playgrounds públicos e até de um aeroporto. E ainda por cima tinha apenas 1,52cm.

Devo reconhecer que nunca tivemos um prefeito tão competente como o desses últimos oito anos. Por mais que a gente não goste de falar bem de político, poucos administradores dessa cidade, como Pereira Passos (1902/06), Carlos Sampaio (1920/22) ou Carlos Lacerda (1960/65), fizeram tanto por ela quanto Eduardo Paes. É claro que, nesse desfile de despedida de seu mandato, sua Comissão de Frente foram os Jogos Olímpicos. O Rio de Janeiro ficou mais lindo e risonho, mais confiante em si mesmo. E, por maior que seja o mau humor que nos ataque de novo, vamos sempre celebrar os milhões de moradores que usam o BRT, as ciclovias, a nova linha do metrô, as veredas desafogadas do centro e da zona portuária, os parques públicos em lugares como Deodoro e Madureira, as crianças nas escolas de tempo integral em bairros pobres da cidade. Mesmo que às vezes exagere nas piadas, Eduardo Paes é um prefeito-sorriso, o que devia ser sempre a cara do Rio de Janeiro.

carlosdiegues2015@gmail.com

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