As palmas de seu Palminha
Carlos Diegues

Sinto falta de uma época em que havia futuro. Não faz muito tempo, a gente vivia em função dessa expectativa, dessa esperança. A história era um trem instalado em seus trilhos, de onde não sairia nunca, indo sempre em frente, mesmo que às vezes nos parecesse lento demais. E o amor havia de chegar na hora certa, singular e único como cada um de nós o merecia. Aliás, amor e revolução eram uma só coisa que nossa impaciência juvenil não admitia separar.

Com o tempo, descobrimos que o tempo era um pião que rodava em torno de si mesmo, que nada de fato avançava como tanto sonháramos. Tínhamos de cuidar de nós mesmos no presente, o único tempo que existia de verdade. Acho que foi por aí que o trem descarrilou e inventamos o fim da história para nos consolarmos da falta de destino. As nações eram apenas territórios traduzidos em PIBs, a soma anual de nossa atividade financeira, independente do que para o que ela servisse.

Desistimos da felicidade. Não existem homens felizes ou infelizes, existem apenas momentos de felicidade ou de infelicidade, temos que tentar fazer render aqueles para que esses passem logo, depressinha. E que os inevitáveis momentos de infelicidade não deixem rastro algum, a tristeza é algo que não deve existir, o que ela pode nos ensinar não serve para nada. A não ser que queiramos perder a competição com nossos semelhantes, essa paraolimpíada de esforços vãos, diferente dos Jogos Paraolímpicos que estamos assistindo, bela e valente vitória sobre o destino.

A tragédia aguardada com ansiedade não é só a que está dentro de         nós, mas também a que nos envolve a todos que vagamos por esse planeta. A tragédia do mundo do qual não teremos mais o que reclamar, porque a essa altura ele não estará mais por aqui. E, contra essa fatalidade, não planejamos fazer nada. Pelo contrário, cantamos em regozijo todas as suas hipóteses, desde os primitivos Maias que haviam previsto o fim para 2012 (tenho um amigo que garante que os Maias estavam certos, o que está diante de nós hoje são as ruínas de um mundo que já acabou). E o cinema mais popular possível só faz registrar com entusiasmo esses desastres em seus blockbusters, para gozo de um público majoritário que parece atraído perversamente para a exposição festiva de seu próprio fim.

Rogério Duterte, o presidente recém-eleito das Filipinas, novo elo dessa cadeia terminal, mandou sua população matar os suspeitos de tráfico e uso de drogas, sem mais delongas e explicações. Duterte é como um herói do Estado Islâmico, sem o pretexto da religião; com ele, caminha-se mais depressa para o extermínio, esse estranho amor à morte que se dispõe a aniquilar quem ainda ousa prestar culto à alegria.

Quem está certo mesmo é seu Palminha, conhecido meu de caminhadas, que o povo do calçadão passou a chamar assim. Em geral, ele está sempre de prontidão na quadra que vai da rua Garcia d’Avila ao hotel de luxo na outra esquina. Vestido em bermudas convenientes à sua idade, a ostentar elegante barba de alguns dias (como costuma usar quem sabe das coisas), seu Palminha anda ao longo da quadra dando bom dia a quem passa, a bater palmas para incentivar com ritmo intenso o exercício alheio, inventando indentidades para quem passa por ele.

A mim, já me chamou de Fausto, Aroroba, Juracy, Pindamonhangaba, entre outros nomes cristãos, africanos e indígenas que provavelmente lhe ocorrem na hora: “Bom dia, Etelvino, vamos correr, vamos correr que a vida está lá na frente.” E lá vêm as palmas ritmadas em minha  direção ou na de outro atleta da vez, com a mesma delicadeza de quem chicoteia um cavalo preguiçoso.

De vez em quando, mas sobretudo no sábado de manhã, passa por ele lentamente uma menina magrinha recém saída da adolescência, bem vestida e de pés descalços, carregando na ponta dos dedos um pulôver que já não lhe é útil, pois o sol de rachar expulsou do céu a lua mortiça com que contava à noite. Com um sorriso dissimulado por pensamentos vagos, a menina deve estar vindo de uma noite arretada, daquelas que os boêmios italianos do pós-guerra chamavam de una giornata balorda. A cada fim de semana no calçadão, peço aos santos que me façam ver outra vez a menina magrinha, para que eu tenha certeza de que ela sobreviveu à última noite de provável orgia. Eu nunca soube o nome dela.

Nem a ela seu Palminha poupa. Regularmente, desde que ela apareça, faz-lhe a mesma observação, acompanhada de palmas: “Menina, você precisa ser mais bem comedida”. Ao que ela pergunta altaneira: “Mais bem comida?”. Seu Palminha não ri. Ele olha para o atleta mais próximo, com voz suficientemente alta para que a menina o ouça: “Por que só há de ser nobre o amor das bem comportadas?”. E a ela, com palmas: “Vamos, menina, que Deus te acompanhe nesse teu rumo ao futuro”.

carlosdiegues2015@gmail.com.br

 

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