Nova Internética
Carlos Diegues

A Frente Favela Brasil entrou no Ministério Público Federal do Rio de Janeiro com uma ação contra um integrante do Conselho Federal de Administração (CFA), acusando-o de racismo por um post publicado em rede social. Nele, o Conselheiro dizia que “eu odeio preto, mas essa goleira do Brasil bem que tinha uma chance”, referindo-se a Bárbara, jogadora de nossa seleção olímpica de futebol feminino.

Ainda esse ano, um médico foi processado por ter ironizado seus pacientes na rede. Mais rápido foi o castigo de moça que, viajando para a África, ainda no aeroporto de partida postou para amigos que não pegaria AIDS porque era branca. Devido à extensão da viagem, ao chegar a seu destino a moça já encontrou, no próprio aeroporto, a imprensa local a esperá-la com quatro pedras na mão.

Isso para não lembrar as ofensas pessoais sofridas por atletas como Rafaela Silva, medalha de ouro no judô na Olimpíada do Rio, que, por ser negra e moradora na comunidade de Cidade de Deus, foi chamada de macaca pela internet. Ou a reação de leitores da famosa artista performática Marina Abramovic que, em seu autobiografia “Walk through walks”, em trecho aparecido no Twitter, disse que os aborígenes australianos “pareciam dinossauros”.

Além da indignação e das providências cabíveis, ações e processos, o primarismo racista na internet nos provoca um certo horror, um sentimento frustrante de que, no Brasil, ainda sofremos as consequências de uma formação cultural baseada na escravidão de africanos supostamente sem alma, sem direito a serem humanos.

Essa deformação não é apenas uma responsabilidade de nosso passado forjado pela hipocrisia dos colonizadores portugueses. O resto do mundo também vive hoje essa onda discriminatória. Ela tanto pode ser detectada nos discursos anti-imigração de Donald Trump e seus aliados, como no cotidiano banal de 50 milhões de crianças que, segundo a UNICEF, vagueiam pelos continentes, em fuga de seus países de origem e em busca de uma vida sem guerras, sem miséria, sem perseguição política.

A informação universal e instantânea nos põe diariamente diante dessas vítimas do descaso humano, cada vez com mais rapidez e precisão. Recentemente, duas crianças sírias incorporaram fisicamente diante de nós o horror genérico que costumamos sentir sem tanta dor. Dessa vez, estavam diante de nós um menino refugiado de cinco anos, morto por afogamento numa praia da Turquia; e outro, em silêncio absoluto, empoeirado e sujo de sangue, no fundo de uma viatura militar depois que bombas fizeram sua casa cair sobre ele.

Essa informação universal e instantânea foi inaugurada no século passado e acabou com a Guerra do Vietnam, a mais sangrenta dos tempos modernos. Em parte, os americanos acabaram com a Guerra do Vietnam porque ninguém aguentava mais ver tanto sangue, violência e miséria, em direto e ao vivo, no jornal da TV, na hora do  jantar em família. No conforto do sofá da sala, podia-se tomar conhecimento da morte do vizinho ou do próprio filho, antes que a colher de sopa alcançasse a boca dos pais e lhes chegassem as honras militares.

Com a internet, essa informação universal e instantânea multiplicou-se, tornando-se decisiva na vida social da humanidade. Os refugiados que fogem das guerras na Síria, no Iraque, na Líbia, onde for, deixam sem nada seus lares destroçados, com apenas um pano qualquer sobre os ombros e um celular à mão que às vezes nem funciona mais. É através desse ultimo que eles e todos nós pretendemos buscar nossos amigos, manter contato com o mundo que julgamos real, aquele do qual não participamos, mas onde supomos existir trégua, compaixão e fome saciada.

A ética é um conjunto de valores necessários ao relacionamento entre os homens, por menor que seja o conjunto desses homens. Etiqueta, por exemplo, é etimologicamente uma ética pequena, que serve para atender um determinado círculo menor de pessoas. Sem essas regras éticas, o grupo não se relaciona convenientemente e, sobretudo, em paz. A ética como a lei, não existe para restringir  a liberdade de ninguém. Pelo contrário, só num mundo livre e de respeito ao outro, a ética pode realmente se modificar e se desenvolver a partir dos costumes comuns.

Não é preciso inventar novas utopias sociais e políticas para resolver a questão da ética no mundo da internet. Basta tentar civilizar o capitalismo, não confundindo ser humano com consumidor, respeitando aquele sem precisar ignorar esse. Basta aceitar o que o outro é e o seu direito de tentar ser feliz. Em suma, estabelecer uma nova moral para o uso dessa nova tecnologia que está mudando nossas vidas.

carlosdiegues2015@gmail.com

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