O neto da coalizão
Carlos Diegues

Se eu pudesse, se não tivesse outros compromissos na vida, não saía mais de casa, não saía mais da frente da televisão. Está tudo muito animado na telinha.

Até um par de semanas atrás, era a emoção da Olimpíada, a saudável alienação de combates enérgicos, vitórias serenas e derrotas honrosas. Depois, o longo processo de impeachment da presidente, o aprendizado cívico sobre a capacidade humana de conviver com os outros, de suportar a diferença do inimigo. Entre uma coisa e outra, a estréia dos quatro primeiros episódios de “Justiça”, bela e impactante minissérie de Manuela Dias e José Luiz Villamarim, sobre a necessidade de sobreviver à dor. Tudo muito parecido.

Dos três espetáculos, o impeachment foi aquele que me deu mais trabalho para acompanhar, depois do mergulho na fruição prazerosa dos Jogos e no comovente didatismo da minissérie. Da exaltação do corpo e dos mistérios da alma, vimo-nos subitamente diante do emaranhado sombrio das razões políticas, um exercício de reflexão que quase nunca corresponde ao que se supõe serem os fatos.

Nunca morri de amores por Dilma Roussef mas, já disse aqui mais de uma vez, sempre fui contra sua destituição. É tarde demais para me justificar, mas registro ao menos um motivo consequencialista, tão nobre quanto qualquer outro – neste momento, o que temos de muito melhor para colocar no lugar dela?

Segui atentamente os discursos dos senadores e causídicos dos dois lados. Ouvi a repetição da mesma cantilena enjoadinha da velha cartilha de esquerda do século 19. Como ouvi a exaltação clássica de uma direita rabugenta que agora faz piadas. Vi Dilma quase cair do grandioso personagem histórico de seu discurso inicial, ao pedir uns papéis a seu advogado com a arrogância e a impaciência que a acusam de praticar na intimidade. Entre as citações equivocadas de Chico Buarque e Kleiton & Kledir, ninguém explicava direito porque queria isso ou aquilo, ninguém nos convencia de nada.

Aí Janaina Paschoal e José Eduardo Cardoso, ambos muito competentes, choraram juntos, quase simultaneamente, e me acenderam uma luz – os sábios estavam chorando ao mesmo tempo, no mesmo espaço público, do mesmo lado ideológico ou de classe, mesmo que não o quisessem admitir. Choravam de um mesmo lugar, a pensar no futuro do neto que a coalizão desfeita não ia mais poder garantir. Choravam a coalizão rompida.

O processo de impeachment foi uma revelação contundente do atraso de nosso presidencialismo de coalizão, do fracasso desse sistema de representação democrática que adotamos no Brasil a partir da Nova República. A representação democrática está em crise no mundo inteiro. Nós não escaparemos dessa crise, se não formos capazes de inventar novas formas de administração da sociedade usando ideias, costumes, conhecimentos e tecnologias mais atuais, que façam o cidadão se sentir representado de verdade, por sua própria voz. Uma representação democrática que supere a oralidade inviável da democracia direta e a dos signos gutemberguianos.

O presidencialismo majoritário sobrevive nos Estados Unidos, sem crise permanente, graças ao bipartidarismo, à capacidade que cada eleito tem de governar apenas com seu próprio partido, mesmo que tenha que, de vez em quando, negociar com líderes do outro lado. O parlamentarismo clássico sobrevive em países onde há uma tradição política como a que permite, por exemplo, que a Espanha esteja há algum tempo sem governo formal, mas permaneça sendo governada.

No nosso caso, o único instrumento de pressão que garante aos aliados seus direitos na aliança é o impeachment, uma superação traumática da crise da coalizão. E ele é e será sempre político (o tal “conjunto da obra”), qualquer outro pretexto servirá apenas como disfarce face à Constituição. Foi quando Collor e agora Dilma romperam com seus parceiros no Congresso que a hipótese do impeachment vingou. Cada vez que governos de coalizão não têm mais o apoio do Congresso, o impeachment é o único mecanismo capaz de resolver o impasse legalmente. O único modo de recomeçar sem crise institucional, sem a força do golpe. Ou então o país para.

Estamos vivendo uma oportunidade de rever nossa história. O relativo silêncio de Lula, sempre afastado do pelotão de fogo pelo qual Dilma é cercada, pode estar indicando que ele compreendeu que não se trata de recomeçar de onde o processo foi interrompido e o poder se esgotou. Em 1946, depois de deposto, o ex-ditador Getulio Vargas se elegeu senador por vários estados e, cinco anos depois, voltou à presidência eleito pelo povo, com um programa totalmente diferente do da ditadura. Mistérios sempre há de pintar por aí.

Talvez a história esteja dando a nossos velhos e novos partidos uma oportunidade de se refundarem, de recomeçarem tentando encontrar o destino que a imaginação de seus fundadores traçou para cada um deles.

 

carlosdiegues2015@gmail.com

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