Publicado na revista "Bonifácio", em abril de 2004
Cultura, auto-crítica e auto-estima
Carlos Diegues
Um país só pode desenvolver todas as suas potencialidades como nação, quando tem uma população consciente; e essa consciência significa, antes de tudo, conhecimento de si mesmo e conseqüente capacidade de auto-crítica. É indispensável que a população de um país tenha consciência do que ela é, de como vive e de como seria justo que vivesse. Ou seja, a consciência do que lhe falta e da necessidade de mudanças. Mas, por outro lado, essa consciência crítica de nada lhe servirá se não vier acompanhada de uma base sólida de esperança no futuro, um sentimento dinâmico de que a mudança é possível, porque a merecemos e somos capazes de fazê-la. Uma esperança sustentada por nossa auto-estima. Sem essa auto-estima, a auto-crítica se torna depressiva, lamentação inútil, auto-linchamento masoquista.

O Brasil passou recentemente por períodos em que a perda de auto-estima de sua população, por motivos muitas vezes compreensíveis, se tornou uma moda e depois uma praga. Com o fim da ditadura militar, esperava-se que a democracia fosse resolver todos os problemas da nação, quase que por puro efeito de gravidade. Mas o rastro de miséria deixado por anos de autoritarismo, concentração de renda e descaso social, não pôde ser eliminado da noite para o dia, por um "milagre democrático”. A desconfiança no regime veio a se agravar com a eleição democrática de um desastre republicano, como foi o governo Collor de Mello.

A democracia, segundo Winston Churchill, é o pior dos regimes, à exceção de todos os outros. Ela é o regime mais próximo da natureza humana, quando a queremos civilizada, e de seu progresso espiritual - nada é humano fora da democracia. Mas a partir daí, formam-se, em seu seio, bons e maus governos que não têm necessariamente nada a ver com as virtudes ontológicas dela. Criticar com justiça a administração de um governo eleito democraticamente, não significa descrer da democracia em que ele se funda, desfazer das virtudes essenciais do regime.

A democracia é também um regime onde as mudanças se dão mais lentamente, porém de maneira mais segura. Na base dela, a idéia de negociação entre partes implica num tempo mais largo para as decisões, mas quando essas são tomadas vêm respaldadas pela segurança do consenso ou da evidência do desejo de uma maioria. O que não se dá em regimes autoritários, onde as decisões são inspiradas apenas pela vontade do tirano, sendo portanto tomadas mais rapidamente porém sem a garantia de permanência por coincidir com a vontade da população.

A decepção que esses tempos pós-ditatoriais provocaram em nós, semeou um certo pessimismo e uma conseqüente cultura de indiferença em relação aos destinos do país, necessariamente fracassado e sem solução, cronicamente inviável. Ela gerou uma espécie de passividade, um mito de impotência diante do projeto de nação em benefício de um individualismo selvagem, um salve-se-quem-puder justificado por aquele fracasso irrecorrível. A conseqüencia desse pessimismo foi uma ideologia da predação, a justificação para que cada um tratasse de tirar seu proveito e seu pedaço, pois o que não tem solução só merece mesmo ser predado.

Canções, filmes, peças, textos, toda forma de expressão cultural brasileira foi contaminada por esse auto-linchamento explícito, esse canto de desistência e rendição. A confiança no povo, a esperança no futuro, a vontade de viver num país melhor, o vigor e a alegria que restou em certas manifestações, tudo isso foi tratado como arcaico, ingênuo e ridículo. Tomou-se essa exibição de chagas sem remédio por maturidade cultural, sinal do fim de nossa infância artística, de nossa inocência em relação a nós mesmos.

A eleição de Lula representou um passo importante na retomada de nossa auto-estima, indispensável a uma nação que quer resolver seus problemas. O significado simbólico dessa escolha democrática ainda não foi esgotado por nenhuma das análises que conheço e ele talvez seja mais importante do que qualquer outra circunstância ligada ao fato político. Um homem do povo, retirante nordestino, operário paulista, líder sindical, chega ao posto máximo do país, por decisão popular e com um discurso de paz e entendimento.

Não é só uma nova esperança de oportunidades iguais que ilumina o coração de cada brasileiro, mas também a consciência de que a construção de um projeto de nação é possível e é desejada pela população.

A produção cultural no país tem um papel importantíssimo nessa dialética entre a necessária auto-crítica e a indispensável auto-estima, é ela que vai representar simbolicamente essa possibilidade e estimular a relação permanente entre as duas. Segundo Charles Darwin, se uma espécie não tiver alguma esperança de felicidade em seu futuro, não se reproduz mais. Isso também pode certamente acontecer com as populações que perdem a confiança nelas mesmas e na sua capacidade de se consolidar como nação. Cabe às nossas canções, filmes, peças e textos, manter acesa essa chama, sem ilusões mas cheios de esperança, reproduzindo a realidade como ela é mesmo que não gostemos dela, mas também exercendo o direito de dizer como pensamos que ela devia ser.
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