Picos olímpicos
Carlos Diegues

Nosso único ouro, a medalha da judoca Rafaela da Silva, foi, para os brasileiros, o assunto mais importante dessa primeira semana de Olimpíada. Mais até que a disputa entre os admiradores de Neymar e de Marta. Para esses, sugiro lançar no mercado uma outra camiseta amarela com o número 10 às costas e uma nova identidade: Neymarta.

Sem o passado e a fama dos dois craques do futebol masculino e feminino, Rafaela espantou a todos que a viram ganhar o ouro contra uma favorita e sólida atleta da Mongólia ou da Mandchúria, uma coisa assim. Apesar de sua cara fechada, de sua concentração radical, de uma violência mal humorada a entrar no tatame, logo aprendemos a amá-la. E a compreendê-la.

Vamos logo ao que interessa. Além de atleta exemplar, Rafaela é mulher, negra, pobre, favelada e lésbica (foi emocionante ver o choro de alegria de Thamara, sua companheira). Não pode haver motivos mais fortes para a exclusão. Mas antes que nossa tradição patriarcal comece a elogiar a oportunidade que nós, a sociedade formal, demos a ela, é preciso dizer que não lhe demos oportunidade nenhuma. Quem ganhou a medalha foi o talento de Rafaela, o esforço dela, sua dedicação ao esporte que abraçou. E sobretudo a vontade com que ela se empenhou.

Somente nas artes e no esporte um feito desse, sem tecnologia ou erudição que o suporte, pode ser possível para uma garota como Rafaela. Durante décadas, a cultura brasileira se tornou conhecida e respeitada no mundo graças à produção de excluídos seculares. Como no futebol e no carnaval, como na nossa música popular. Como no caso da Rafaela de Cidade de Deus.

Ao longo da semana, cansamos de ouvir gente praticando perigosa piedade social, como se dissesse que basta darmos oportunidade a quem não tem para que tudo esteja resolvido. Foi Rafaela quem conquistou o ouro e seu espaço em nossas vidas, ela não nos deve nada. Nem a nós, nem à nossa pretensa generosidade. Com as cores da bandeira nacional nos dentes afiados, a afirmar seu pertencimento, ela nos prestou uma homenagem.

Não demos nada a ela, como em geral não damos nada a seus pares. Rafaela é apenas uma prova de que os seres humanos são todos potencialmente iguais e que é um crime excluir alguns, como fazemos, por avidez, truculência e soberba. Não fomos nós que salvamos Rafaela; foi ela que nos deu uma colher de chá aos brasileiros.

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Por falar em atleta feminina, as jogadoras de vôlei egípcias, Doaa Elgobashy e Nada Meawad, participaram da Olimpíada cobertas por panos que não deixavam ver parte alguma de seus corpos, como manda o figurino islamita. Num esporte de praia como aquele, em que a maioria das competidoras veste biquinis mínimos, não foi dificil reparar na excentricidade. A pergunta que fica é aquela que contrapõe a cultura religiosa de uma etnia às condições particulares da prática esportiva. Na Grécia da Antiguidade, por exemplo, os atletas olímpicos competiam nús.

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Com a Olimpíada no Rio, o centro da cidade esvaziou-se. As orlas da zona sul e da zona portuária estão lotadas de gente, de turistas internacionais e domésticos que caminham fantasiados de acordo com sua origem, fazendo selfies com o Pão de Açucar ao fundo ou com a pira no Boulevard Olímpico.

Mas no centro da cidade, não. Ali, naquele quadrilátero entre a Presidente Vargas e a Beira Mar, cortado pela Rio Branco, as pessoas, em menor número que o habitual, seguem em seus afazeres cotidianos, cumprem suas missões profissionais, com muito pouca referência ao que se passa no Parque Olímpico. É como se os Jogos não fossem mais importantes do que uma petição urgente ou um despacho do serviço público.

Parece que voltamos ao passado, quando a cidade tinha menos habitantes, era menos agitada, se locomovia mais devagar, com tempo para admirar os prédios de estilo francês, as vitrines de moda, o doce sol do inverno carioca. De repente, recuperamos a ginga perdida no excesso de automóveis, de violência cotidiana, de corrida para não perder a novela das oito na televisão do vizinho.

Podia-lhe faltar água e luz, assim como sofrer de outras mazelas; mas a cidade era mais agradável de curtir, como está sendo agora em seu centro abandonado pela agitação da Olimpíada que dispensou funcionários e burocratas de seus serviços regulares. Podia não ser melhor do que é hoje, mas foi com essa lentidão sensual, esse andar descuidado, esse balanço único, que conquistamos nossa identidade.

Nas praias e no porto, um novo Rio de Janeiro renasce graças a uma operação urbanística bem sucedida, um legado que os Jogos nos deixam. Mas, vista do centro semideserto de um dia de semana, lembramos de uma cidade que tinha outro ritmo. Tomara que a Olimpíada nos deixe também esse legado, o do reconhecimento de nós mesmos.

carlosdiegues2015@gmail.com

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