De volta dos Jogos
Carlos Diegues

Era como se estivéssemos andando nas ruas vazias de outra cidade. Como elas de fato não haviam sido lançadas, não havia serpentinas usadas pelo chão. Mas era como se tivesse havido uma festa.  Apesar de tudo, os confetes pisados, reais ou imaginários, ainda guardavam vestígios de suas cores naturais, sem nenhuma preferência por uma delas.

A praia estava lá, mas as ondas não rugiam com a mesma voracidade de ontem e do resto da semana. Pareciam cansadas de tanto esforço para nos impressionar. Ou então se entregavam à baixa frequência da desilusão, como todos nós, naquele momento. Ouvíamos apenas o soco na bola sobre a rede. Ou julgávamos ouvir. E mais os mergulhos, as raquetadas, o tropel, as braçadas, os gritos de gol. A baía, os morros e as lagoas estavam no mesmo lugar, não haviam se afastado de seus cantos originais. Mas era como se fosse mesmo uma outra cidade.

Assim acordamos do sonho da Olimpíada, com tristeza mas também com mais confiança. E com a esperança de que tenhamos todos aprendido alguma coisa naqueles dias de disputas enérgicas, vitórias serenas e derrotas honrosas. Acordamos com a consciência de que nossa cidade era outra, iluminados pela ideia de que ela podia ser outra, se assim o desejássemos.

A cidade tirou o macacão da construção civil, trocou-o por calções e camisetas. E, agora que os atletas e seus torcedores foram embora, nos sentimos nus. Felizmente, aprendemos que a cidade pode ser diferente, que ela já é diferente. Saudades de vocês, Phelps e Bolt. Nós vos amamos, Rafaela e Rafael. Obrigado, Marta e Neymar. Vocês todos, milhares de todos, nos permitiram amar de novo nossa cidade e ter confiança diante de tanta competição que nos espera.

O Rio de Janeiro é o mesmo, mas é novo. Os tapumes se desfizeram e ficamos tomados por tanta coisa que não conhecíamos. Ou mal conhecíamos. Na Barra, em Deodoro, na Zona Portuária. Muito obrigado, prefeito Eduardo Paes e quem mais ajudou.

Agora vamos voltar ao que parece eterno nesse país, o que é tão triste há tanto tempo. Vamos voltar a falar da miséria e da desigualdade que essa alegria toda nos fez constranger por uns dias. Vamos lembrar a carta de Graciliano Ramos a Cândido Portinari, dois mestres da consciência social nas artes brasileiras, escrita em fevereiro de 1946, num momento igualmente eufórico, quando o ditador Getulio Vargas acabara de ser deposto, a Segunda Guerra Mundial terminara com a vitória da democracia e o horizonte se iluminava de manhãs que cantam. Ela dizia assim.

Caríssimo Portinari: A sua carta chegou muito atrasada, e receio que esta resposta já não o ache fixando na tela a nossa pobre gente da roça. Não há trabalho mais digno, penso eu. Dizem que somos pessimistas e exibimos deformações; contudo as deformações e miséria existem fora da arte e são cultivadas pelos que nos censuram.

O que às vezes pergunto a mim mesmo, com angústia, Portinari, é isto: se elas desaparecessem, poderíamos continuar a trabalhar? Desejamos realmente que elas desapareçam ou seremos também uns exploradores, tão perversos como os outros, quando expomos desgraças?

Dos quadros que você mostrou quando almocei no Cosme Velho pela última vez, o que mais me comoveu foi aquela mãe com a criança morta. Saí de sua casa com um pensamento horrível: numa sociedade sem classes e sem miséria seria possível fazer-se aquilo? Numa vida tranquila e feliz que espécie de arte surgiria? Chego a pensar que faríamos cromos, anjinhos cor de rosa, e isto me horroriza. Felizmente a dor existirá sempre, a nossa velha amiga, nada a suprimirá. E seríamos ingratos se desejássemos a supressão dela, não lhe parece?

Veja como os nossos ricaços em geral são burros.
Julgo naturalmente que seria bom enforcá-los, mas se isto nos trouxesse tranquilidade e felicidade, eu ficaria bem desgostoso, porque não nascemos para tal sensaboria. O meu desejo é que, eliminados os ricos de qualquer modo e os sofrimentos causados por eles, venham novos sofrimentos, pois sem isto não temos arte.

E adeus, meu grande Portinari. Muitos abraços para você e para Maria. Graciliano”.

Tudo é ética. Quadros, histórias, filmes, novelas, esportes. Estamos sempre a falar do comportamento nas relações, ainda que ele se modifique no tempo e nas sociedades em que ocorre. É isso o que desejamos julgar quando nos tornamos espectadores das cidades e do que nelas surge. Julgamos sempre se o que foi feito devia ser feito ou o que foi dito devia ser dito. É essa a base de toda a cultura popular, nosso parque de diversões.

De Portinari e Graciliano a hoje, podemos estar trocando a responsabilidade do Realismo Socialista do século XX, pela exaltação do Realismo Capitalista do século XXI. Talvez não tenhamos mesmo alternativa a essa fatalidade.

carlosdiegues2015@gmail.com

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