A morte de um bravo
Carlos Diegues

Hector Babenco viveu uma vida de bravura, no sentido mais nobre que essa palavra possa ter. Sua vida, como sua obra, sempre foi uma contenda, um altivo desafio ao lugar-comum, à platitude, ao bom-mocismo. Uma vida de generosidade guerreira.

Na véspera de sua morte, quarta feira passada, ainda no hospital onde se recuperava de uma cirurgia, falei com ele pelo telefone e lhe perguntei como estava. Com uma voz fraquinha que não era a dele, me respondeu que estava bem, que a cirurgia a que se submetera era muito simples. Eu lhe disse brincando: “Nada é muito simples com você, Hector”. A cirurgia pode ter sido mais complicada do que ele imaginara, mas dificilmente se pode morrer de um modo mais simples, sem espanto, sem gritos, sem excessos. Como ele quis sempre viver e filmar.

A obra de Babenco é uma constante dúvida sobre a grandeza da vida, para o que ela serve e como encará-la no mundo real dos sofrimentos. De “Lucio Flavio” a “Ironweed”, de “Pixote” ao “Beijo da Mulher Aranha”, de “Brincando nos campos do Senhor” a “Carandiru”, seus filmes tratam sempre de seres humanos deslocados que não têm mesmo para onde ir. São filmes que questionam com raiva a possibilidade de se ser feliz num mundo que não é como gostaríamos que fosse, que não é como devia ser. Filmes que não se conformam, nem se consolam, com escassos momentos de prazer, quase sempre patéticos. E, no entanto, vale à pena viver para tentar entender porque vivemos.

Nada parece ser por acaso na vida e na obra de Hector Babenco. É como se ele tivesse programado cada surpresa, o acaso seria uma vitória da mistificação, a vitória de um deus no qual ele não parecia acreditar. Babenco não era um sonhador romântico, ele sabia que as coisas são assim mesmo e é assim mesmo que devemos encará-las. Um racionalista trágico, para quem a tragédia era parte inconsútil da natureza humana.

Seus filmes nos alertavam para essa dimensão trágica da vida, sem nos propor qualquer festiva esperança de mudança. Era como se  desejasse nos impor seu próprio estoicismo disfarçado em fúria, ética rigorosa que foi muitas vezes responsável pelo pouco sucesso de público de alguns de seus filmes. Em “Ironweed”, por exemplo, um dos mais belos, ele ousou fazer dos dois maiores astros do momento em Hollywood, Meryl Streep e Jack Nicholson, dois bêbados, marginais vencidos sem possibilidade alguma de redenção. Babenco se recusava a afagar o público, preferia conquistar sua eventual confiança através de um espelho cruel, de seu rigor em relação ao mundo.

É difícil chamá-lo de um “amigo querido”, essa platitude com alguém que amamos e se vai. Não era isso que ele buscava junto às pessoas com que convivia mais de perto. Assim como ele não se importava em afagar o público, também não desejava conquistar amigos através de palavras piedosas e gestos pusilânimes, ambos inúteis. Para Hector, o amor não podia ser pretexto para comiseração; o amor fazia parte da tragédia humana, não podia se tornar uma banalidade. Não me lembro de amigo mais fraterno, mais sincero e rigoroso do que ele.

Amado e consagrado em todo o mundo, o cineasta Hector Babenco vai se eternizar na história do cinema. E, mais particularmente, na história do cinema brasileiro. O homem do corpo cansado (vítima de males sucessivos que combateu com vigor desde o início dos anos 1990) e de mente fulgurante (acesa para tudo o que se passava à sua volta, das artes à política, do cinema à vida), vai fazer muita falta aos que, sentados no escuro, nos extasiamos com seus filmes e aos que, a seu lado, aprendíamos um pouco a viver.

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A diferença entre o espetáculo cinematográfico e o teatral é que, mesmo num filme médio, pode sempre acontecer um belo plano que vai compensar o resto; no teatro, quando o espetáculo é ruim, não tem como nos surpreender, é muito mais doloroso acompanhá-lo até o fim. Em compensação, quando o teatro é bom, ele nos transporta a um êxtase incomparável, uma experiência inigualável de prazer físico e místico. Como se a força daqueles seres humanos no palco fosse uma experiência orgiástica que dificilmente encontramos em outra arte.

É o que acontece com esse extraordinário “BRTrans”, espetáculo dirigido por Jezebel de Carli, com texto e atuação de Silvero Pereira, em cartaz no Rio, no Teatro Poeira. De um amontoado de histórias reais ou imaginárias, de canções surpreendentes e encenação misteriosamente brihante (a luz, por exemplo, é comandada pelo próprio ator em cena), “BRTrans” nos leva com graça e densidade a um mundo de travestis encontrados pelo autor pelo Brasil afora, de surpesa em surpresa, de descoberta em descoberta. E Silvero Pereira é um jovem ator simplesmente genial.

Além de comover, aprende-se muito sobre o mundo em “BRTrans”.

carlosdiegues2015@gmail.com 

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