A imperfeição do afeto
Carlos Diegues

Segundo Sergio Buarque de Holanda, no Brasil nunca houve pensamento conservador, só pensamento atrasado. Esse atraso sempre distanciou do país nossos intelectuais e artistas, que rejeitavam essa condição com horror aristocrático. Foi só no modernismo que o atraso, quando criação popular, se tornou identidade, e, retrabalhado pela inteligência culta, motivo de afeto. O cinema que vem sendo feito em Pernambuco, desde a retomada da produção no país, é também um desejo de recuperação desse afeto modernista, nada demagógico, por certos valores populares.

Não gosto da ordenação patronímica do cinema, ele só é “nacional” ou “regional” do ponto de vista de sua economia. Nem creio na unidade dos movimentos, eles nascem muito mais do encontro de sonhos e da amizade entre seus realizadores do que em algo comum aos filmes. Mas toda boa arte fala sempre do estado do mundo e de um estado de espírito diante dele.  E, desde “Baile perfumado”, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, lançado em 1996, algo de novo, a partir disso, começou a acontecer em Pernambuco. Três filmes recentes, vindos de lá, representam bem a riqueza complexa da novidade.

Como se a tradição barroca precisasse ser contida por um minimalismo oposto ao folclore nativista, “Boi Neon”, de Gabriel Mascaro, é uma celebração do conflito. Nele, jovem vaqueiro almeja se tornar um estilista, dividindo seu tempo entre vaquejadas e um atelier de moda. Sucesso na seleção oficial do último festival de Cannes e premiado como melhor filme no de Sidney, “Aquarius”, de Kleber Mendonça, trata de um enfrentamento entre direitos pessoais e a voracidade do capitalismo selvagem. Se o primeiro é um filme sobre o desejo de mudança, o segundo é um filme sobre o direito à resistência.

Um terceiro filme, “Big Jato”, de Claudio Assis, ainda em cartaz (vá ver logo, os filmes deixam depressa os cinemas em que passam), é sobre a imperfeição do afeto, a dor como estado natural, a necessidade do rompimento. 

Embora não conheça o texto de Xico Sá em que “Big Jato” se inspira, admiro muito sua obra, seu bom humor contundente. Aqui, num lugarejo perdido do sertão, onde o mar já esteve há milhões de anos e lá deixou fósseis de peixes de pedra, um pai dedicado trabalha para criar seus filhos desentupindo fossas sanitárias. Seu irmão gêmeo (ambos interpretados pelo mesmo extraordinário Mateus Nachtergale) se dedica a um programa de música na rádio local, a  falar língua em que apenas a sonoridade se parece com inglês e a insistir em que foi uma banda da região, os Betos, que inventou os Beatles.

Este belo filme termina diante de um mar envolvente e luminoso, diferente do mar bárbaro do final de “Deus e o diabo na terra do sol” e do mar elegante do final de “Abril despedaçado”. Em “Big Jato”, trata-se de um mar que abraça o futuro de Chico, seu pequeno herói, na única imagem de lirismo romântico em toda a obra cinematográfica de Claudio Assis. Não é que “Big Jato” odeie a fraqueza de amar; ali, o amor é um mandacaru espinhento no alto de um morro seco e pedregoso, como em Peixe de Pedra. Mas dando para o mar.

Nada é permanente em “Big Jato”, a não ser o atraso do qual não se pode escapar. O delegado cruel que prendeu o radialista com porrada se torna em breve seu amigo; assim como o sentido da vida muda no interior de uma mesma família imutável. Numa das mais belas cenas do cinema brasileiro contemporâneo, o pai bêbado espanca o filho mais novo por ser poeta, dando-lhe como exemplo o filho mais velho que estuda matemática. Como está em Platão, são os números que governam o mundo e, contra o acaso da poesia, o pai impõe ao filho a matemática da vida.

Nossa distopia moderna é formada por ruínas da modernidade. Ela propõe um humanismo distante dos clássicos, onde o homem estava sempre à espera de um fim triunfal (a imposição da razão, a sociedade sem classes, a harmonia com a natureza, o paraíso celeste). Esse neo-humanismo não triunfalista se alimenta de nossa imperfeição, do afeto na dor inexplicável, das lágrimas de uma esperança pouco provável produzida pelo rompimento. “O sertanejo forte é aquele que parte”, diz um personagem de “Big Jato”.

O Cinema Novo falava da luta de classes de um ponto de vista abrangente, ideológico. Esse novo cinema brasileiro voltou ao assunto, mas através de personagens singulares, trazidos de uma microvisão da sociedade (“O som ao redor”, “Casa Grande”, “A que horas ela volta”, entre outros). No Cinema Novo, a questão se resolvia sempre politicamente. Agora, ela se resolve nas relações particulares, numa estratégia singular de comportamento. O que exige permanente atenção contra uma cultura da performance.

 

Em “Big Jato”, com seus planos fixos em que os nervos estão na tela e não nos equipamentos usados, está presente um salutar desprezo pela performance. Este é um filme sobre o afeto com consciência da imperfeição, uma compaixão pelo outro na miséria que amamos e com a qual é preciso romper.

 

 

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