A fabricação do lápis
Carlos Diegues

Quem vota no Oscar não são os sábios do cinema. Quem escolhe os vencedores são os profissionais do maior e mais poderoso centro cinematográfico do mundo, os produtores, diretores, escritores, técnicos e intérpretes de Hollywood.

Embora tenha sido inventado para afagar o ego de suas estrelas com um selo de qualidade, o Oscar é antes de tudo uma festa em que membros de uma comunidade vestem suas roupas mais finas para se aplaudirem uns aos outros. Uma celebração de seu ofício; menos do que a consagração de qualidade, o Oscar é uma indicação de tendências.

A festa desse ano foi particularmente sugestiva, expondo as mudanças que, ao longo do tempo, Hollywood vem sofrendo. Jean-Luc Godard dizia que, quando cineastas passam a se encontrar constantemente, surge uma revolução no cinema de seu país. Menos no cinema americano, onde eles sempre estiveram se encontrando, da cantina diária do estúdio ao Kodak Theatre anual.  As revoluções no cinema americano se dão com sussurros e não com explosões,  com palmas e não com ranger de dentes.

Vamos combinar que o justo anti-imperialismo, o esforço contra a hegemonia de uma cultura sobra as outras, não pode virar um racismo contra tudo que vier dos Estados Unidos. Seria mais ou menos o que fazem os conservadores fundamentalistas americanos contra negros, árabes, latinos. O mesmo racismo irracional que não nos permitiria gostar de Coppola ou Scorsese, de Paul Thomas Anderson ou Gus Van Sant.

A mítica Hollywood da economia vertical dos estúdios, onde os filmes eram criados, realizados, distribuidos e exibidos por uma mesma empresa (as majors), já acabou há algum tempo. Hoje, essa poderosa máquina industrial se adapta ao mundo moderno globalizado, concentrando seu poder financeiro como banco de investimento e descentralizando suas decisões entre “independentes” de vários tipos e gostos. E isso não se dá apenas no cinema.

Cinco dos seus seis principais estúdios ainda são americanos, só a Columbia é japonesa. Mas mesmo aqueles cinco são objeto de investimentos vindos da área do Golfo, da India, da Europa e da própria China (via Hong Kong). Recentemente, por exemplo, o grupo indiano Reliance abriu as portas de Hollywood comprando parte significativa da mini-major de Steven Spielberg, a DreamWorks.

Na música, das quatro majors só a Warner é americana – a EMI é britânica, a Universal francesa e a Sony japonesa. Na edição de livros, a líder de produção e vendas, a Random House, é propriedade da Bertelsmann alemã, e o lendário grupo Time Warner foi comprado pela Largadère francesa.

O entretenimento e a cultura americanos não são mais propriedade exclusiva deles. E eles sabem que têm interesse em aumentar essa interdependência – hoje, mais de 60% da renda dos filmes de Hollywood vêm do exterior, só menos de 40% são resultado do mercado doméstico.

Quando Hattie McDaniel ganhou o Oscar de atriz coadjuvante pelo seu papel de escrava negra em “E o vento levou”, de 1939,  a Academia estava praticando um ato simpático e piedoso. Mas quando escolhe “12 anos de escravidão” como o melhor filme de 2013, a kenyana Lupita Nyong’o como melhor atriz, os mexicanos Alfonso Cuaron e Emmanuel Lubezki como melhores diretor e fotógrafo do ano, está agindo com a sabedoria de seus interesses.  Mesmo os jurados de filme estrangeiro devem ter tomado a chatice do filme italiano por arte avançada, o cinema que só os europeus sabem fazer. E isso também é uma abertura.

Apesar de seu positivo anti-maniqueismo, “12 anos de escravidão” não é propriamente um filme sobre a luta pela abolição da escravatura nos Estados Unidos do século 19, mas um melodrama sobre um homem livre ilegitimamente levado ao trabalho escravo, do qual se livra com documentos oficiais fornecidos pelo regime escravocrata. Em nenhum momento desse filme, alguém se empenha pelo fim genérico da escravidão, embora nos seja dito de sua abjeção. Nem mesmo a vítima do engano perverso abraça essa causa, ele só pensa em voltar aos braços de sua família e tocar seu violino.

Mais significativo que esse é o prêmio de Alfonso Cuaron como diretor de “Gravidade”, a invasão de um mexicano no mundo específico de Hollywood, fabricando o grande espetáculo que tornou Hollywood diferente, popular e amada em todo o mundo. Cuaron não é um aliado, como Steve McQueen, o diretor de “12 anos de escravidão”. Ele é um infiltrado, capaz de demonstrar que o que faz a hegemonia de Hollywood está ao alcance de todos. 

A arte é sempre individual, mas a cultura é coletiva.  Num ensaio do qual tomei conhecimento graças ao economista Paulo Arêas, meu amigo, o pensador Leonard Read observa que ninguém  no  planeta  sabe  como  fazer  um  lápis.  O   conhecimento está disperso entre os muitos milhares de mineiros de grafite, lenhadores, trabalhadores de linha de montagem, designers de ponteira, vendedores e assim por diante.

Quem não participar dessa linha de conhecimento coletivo estará fora do mundo. Esta é a verdade para o cinema do século 21, que os americanos começam a entender.

carlosdiegues@uol.com.br

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