Uma alma em fogo
Carlos Diegues

Conheci Aldo Arantes quando éramos ambos estudantes de Direito, na PUC-RJ. Nascido em Anápolis, goiano atuante e dedicado, eu tinha feito questão de contar com Aldo na chapa em que fui presidente de nosso Centro Acadêmico, por seu talento político e sua correção pessoal. Com  papel fundamental na organização da esquerda católica na AP (Ação Popular), Aldo tornou-se, no ano seguinte, o primeiro aluno da PUC a ser presidente da UNE.

Nessa eleição, articulou e representou ampla, rara e histórica união da esquerda do movimento estudantil, uma composição política que ia de trabalhistas a comunistas, de social-democratas a trotskistas, de católicos progressistas a liberais moderados. Um exemplo bem-sucedido do que deveria ter sido procurado no Brasil, naquele início dos anos 1960. Isso nunca mais aconteceu.

Na UNE, Aldo criou a Editora Universitária, a revista “Movimento”, o Centro Popular de Cultura (CPC), a UNE volante, com esse mesmo espírito aliancista, sem discriminações ideológicas. Dessas entidades, saíram os melhores intelectuais e artistas brasileiros do período.

Agora Aldo está lançando um livro, “Alma em Fogo”, pela Editora Anita Garibaldi. Nele nos conta sua vida pessoal e política, desde Anápolis até sua atual especialização em Meio Ambiente, passando pela UNE, pelo Partido Comunista do Brasil, pela clandestinidade, prisão e tortura, Anistia, Constituinte e volta ao Congresso. Uma vida marcada pelo desprendimento, pela generosidade, pela coragem pessoal e política, sempre colado à história do país.

Preso em 1976 pela ditadura militar, Aldo narra em seu livro as sessões de tortura nos DOI-Codis de São Paulo e do Rio, onde foi esmurrado e “torturado na chamada ‘geladeira’, nu, algemado, encapuzado e sem  me alimentar”, como está a partir da página 204. Depois foi levado à Cadeira do Dragão, “uma cadeira recoberta de metal para ampliar os efeitos dos choques elétricos (...) aplicados no pênis, na língua, na orelha, em partes sensíveis do corpo”. Vou poupar os leitores do resto da descrição, uma sucessão de  horrores selvagens. Mas não devemos esquecer nunca que isso um dia aconteceu no Brasil.

 

Mesmo cometendo equívocos como, entre outros, a oposição ao Plano Real e os elogios ao regime norte-coreano, a biografia desse homem de bem deve nos servir de exemplo da dedicação ao que se julga melhor para o outro.

O título do livro é uma citação do “Fausto”, de Goethe: “Aquilo que não sentes, não deves pleitear; é preciso que o queiras com a alma em fogo”. Isso podia ter sido escrito pelo próprio Aldo Arantes.

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Quem quiser que ache o quebra-quebra, o vandalismo, a violência que surgiu no meio de nossos protestos populares, manifestações espontâneas. Esse comportamento se espalhou pelo mundo, vestindo as mesmas máscaras, desde as manifestações decorrentes da crise de 2008, nos Estados Unidos e na Europa.

John Zerzan, professor e filósofo  norte-americano de 70 anos, é o pai do anarco-primitivismo inspirador dessa atitude, uma teoria que deplora a civilização e a tecnologia, afirmando que a humanidade só foi feliz enquanto viveu na pré-história, em sociedades na “plenitude da liberdade”, sem a “domesticação” de linguagem, arte, ciência, pensamento simbólico e conceito de tempo. É preciso voltar a este mundo primitivo, mesmo que à força.

Zerzan publicou livros sobre o anarco-primitivismo, sendo o mais conhecido “The twilight of the machines” (O crepúsculo das máquinas), editado justamente naquele ano crítico de 2008.

Ele começou a ficar famoso a partir da segunda metade dos anos 1980, quando sua obra, uma salada de Rousseau, Thoreau, Marcuse e Debord, entre outros, se tornou coqueluche em círculos universitários americanos e europeus. E se consagrou em 1995, quando o célebre Unabomber o citou como sua principal referência, em seu manifesto publicado no Washington Post, antes de ser descoberto e preso por ter enviado 16 bombas pelo correio que deixaram três mortos e 23 feridos.

Zerzan é o teórico dos primeiros Black Blocs americanos, inspirando a participação deles em manifestações públicas para causar destruição, medo e insegurança, capazes de abalar a paz social. Sendo os Black Blocs muito poucos para produzirem manifestação própria, devem pegar carona infiltrados em movimentos de estudantes, operários, mulheres, gays, negros, o que for. Como tentaram fazer com o Occupy Wall Street, em Nova York, de onde foram expulsos sumariamente.

Ah, sim. O demônio declarado de John Zerzan e do anarco-primitivismo é Steve Jobs. Mas é através das redes sociais na internet que as manifestações são convocadas.

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Eu também queria que esse julgamento do mensalão acabasse  logo.

Acho que nem os réus devem estar aguentando mais essa tensão. Mas não exageremos. A Justiça tem que julgar segundo as leis vigentes, não devemos desejar que as decisões do STF sejam plebiscitárias. Se entregarmos a Justiça à emoção da opinião pública, estaremos correndo o risco de vivermos trocando Cristo por Barrabás. Bem, isso não significa que eu esteja comparando os réus do mensalão ao nazareno. Longe de mim.

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