Publicado na revista "Bonifácio", em agosto de 2003
O Brasil e o cinema brasileiro
Carlos Diegues
Como isso não é comumente dito e nem é ensinado nas escolas, poucos brasileiros sabem que nosso cinema tem mais de cem anos de existência. O cinema foi inventado na França, a primeira projeção de um filme se deu em Paris, no ano de 1895. Poucos meses depois, já se inaugurava a primeira sala de projeção da América do Sul, na rua do Ouvidor, 57, no centro do Rio de Janeiro. Há algumas dúvidas quanto à identidade do primeiro filme rodado no Brasil; mas nenhuma quanto ao fato de que isso aconteceu antes que a invenção do cinema completasse dois anos de idade.

O cinema brasileiro é, portanto, um dos mais antigos do mundo, embora tenha vivido todo esse tempo de ciclos que se abrem com grande euforia e se fecham dramaticamente, por motivos políticos ou econômicos sempre inesperados. Durante a primeira década do século 20, por exemplo, fomos um dos maiores produtores do mundo, uma produção interrompida pelas contingências da primeira guerra mundial. Como não fabricávamos nosso próprio filme virgem e os países empenhados no esforço de guerra haviam deixado de exportá-lo, ficamos simplesmente sem matéria prima para rodar nossas produções.

Sem viver uma história fluente, sem nunca ter se tornado uma atividade permanente no país, o cinema brasileiro sobreviveu, durante o século 20, aos trancos e barrancos, de crise em crise, da experiência genial e solitária de Mário Peixoto, às produções da Cinédia (1930), da Atlântida (1940 e 50), da Vera Cruz (1950), do Cinema Novo (1960), da Embrafilme (1970 e 80), de vários ciclos regionais como os de Recife, Cataguases, Campinas, etc., que terminavam sempre vítimas de golpes mortais, como o da ditadura militar de 1964 (que acabou com o Cinema Novo) e o da crise econômica dos anos 1980 (que iniciou o fim da Embrafilme). Ou, mais recentemente, o da loucura catastrófica de Collor de Mello (que destruiu todas as possibilidades de se fazer cinema no Brasil).

Nada é mais parecido com o próprio Brasil do que o cinema brasileiro. Vivemos de esperanças, na expectativa de um amanhã que não chega nunca, confiantes em nossos valores, em nossas virtudes, em nosso potencial de excelência e glórias. Sabemos que temos tudo para dar certo, pelo nosso talento, pela própria qualidade do país, pela multiplicidade e originalidade de sua cultura, mas acabamos sempre por esbarrar em uma nova frustração, cada vez que nos julgamos próximos de realizarmos nosso destino. E, no entanto, naqueles poucos momentos em que a luz desse destino se revela no horizonte, mesmo que por um curto espaço de tempo, surpreendemos o mundo com a generosidade e a grandeza de nossos feitos, com a proposta de uma nova e inesperada civilização, mais humana e fraterna, de um jeito que sabemos construir e que está nos filmes de Mário Peixoto, Humberto Mauro, Lima Barreto, Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Rogério Sganzerla, Hector Babenco, Walter Salles e tantos outros, ainda em atividade ou não.

O cinema é o espelho de um país, não podemos imaginar uma casa sem espelho, nela não veríamos nunca nosso próprio rosto, não saberíamos nunca quem somos, como somos. Claro que a televisão, de certo modo, cumpre também esse papel. Mas ela não tem a vocação da reflexão e da densidade, uma característica do cinema, mesmo quando ele é também (como deve ser) entretenimento. A televisão é um fast food, numa comparação em que o cinema seria a haute cuisine de pratos delicados, raros, únicos, reveladores de uma cultura e de costumes originais. Não podemos prescindir desse espelho, sob pena de, por falta de qualquer auto-referência, nos mirarmos apenas na vida dos outros, vivendo exclusivamente das histórias e dos personagens que não têm nada a ver conosco.

É claro que todo nós gostamos de cinema americano, que temos o hábito de vê-lo, que reconhecemos o valor de Hollywood e de sua construção de uma arte e de um modo de vida que seus filmes operaram na América e no resto do mundo. Mas não é bom para a humanidade que mais de 90% das telas de todo o mundo estejam, neste momento, ocupadas por um filme americano. Como não é nada bom para o Brasil que isso aconteça também aqui, onde os filmes brasileiros são "penetras" na festa de nosso próprio mercado. Não é bom que a cultura cinematográfica da humanidade se reduza à língua e aos costumes de um só país, mesmo que nos cheguem através de filmes dos quais reconhecemos a qualidade artística e de lazer. Não é possível que, por falta de oportunidade de se manifestar, a cultura de outros povos se transforme, para nós e para eles mesmos, em conjuntos arqueológicos vivos, tão desconhecidos e misteriosos quanto as civilizações já desaparecidas. Principalmente quando, como é o caso brasileiro, temos tanto a contribuir para o progresso material e espiritual da humanidade.

Outro dia, com muita alegria, ouvi o ministro José Dirceu, em declaração pública, dizer que o Brasil não é só uma nação e um povo, mas também uma civilização. Para que essa civilização floresça de fato, é preciso primeiro que nos comuniquemos entre nós mesmos, confrontemos nossas idéias e nossos hábitos, a partir de nossa própria produção cultural. O cinema tem um papel fundamental nisso, ele é o patriarca fundador da moderna estirpe do audiovisual, à qual pertencem a televisão, o videoclipe, o videogame, a própria internet. É preciso que tenhamos consciência desse seu papel e que façamos dele uma questão nacional e de estado.

Tenho repetido constantemente, em minhas palestras e artigos, na imprensa e na televisão, que às vezes me surpreendo com certo repúdio à crença no Brasil e em suas possibilidades. Esse não é o melhor país do mundo para se viver, aqui se morre de fome, se sofre na miséria, se é vítima de violência em várias circunstâncias. Mas é preciso acreditar que não deve e não pode ser necessariamente assim, que essa não é uma fatalidade histórica ou divina. Se eu disser que torço pelo Coríntians no futebol ou pela Mangueira no carnaval, todo mundo vai achar essa confissão natural e quem sabe até simpática. Mas se declarar que torço pelo Brasil, sou capaz de provocar uma reação de certa ironia, como se estivesse afirmando alguma coisa meio ridícula. Pois eu torço pelo Brasil, torço para que ele dê certo, já, ainda no meu tempo de vida. Quero que o Brasil dê certo e se outros brasileiros o quiserem também, a soma dessas vontades sinceras já será alguma coisa.
Volta