A Era Dunga
Carlos Diegues

Carlos Diegues, 14 julho 2010

Talvez estejamos cometendo grave injustiça, no presente linchamento do que se convencionou chamar de Era Dunga. Em que pese o mau humor, o mandonismo e a deselegância de quem o batizou, não é desprezível, para quem deseja conhecer o país, o significado simbólico desse período de tempo em nosso futebol.

Visto por outro viés, como complexa manifestação cultural que contamina e entusiasma nossa população, o futebol pode ser compreendido também como uma revelação do estado de espírito da sociedade brasileira num momento dado. Como na música, na literatura, nas artes.

Sempre fizemos parte do grupo de povos visto, pelo mundo que importa, como produtor de uma cultura que faz rir e dançar. Sempre fomos os “nativos” inquietos e barulhentos, divertidos e ingênuos especialistas em “alegria de viver”. Essa era uma necessidade do colonizador clássico, aquele que se compensava vendo em nós aquilo que eles teriam deixado de ser.

Para não deixar dúvida quanto à nossa qualidade face a seus próprios povos, éramos chamados por eles de “subdesenvolvidos”. Depois, quando, no auge da Guerra Fria, ganhamos uma certa importância política na disputa entre as potências pela conquista do mundo, passamos a ser conhecidos por “Terceiro Mundo”. Hoje, já sendo notório nosso peso econômico no concerto das nações, somos tratados como “emergentes”. A linguagem explica muito sobre quem a inventa e usa.  

Começamos a ganhar outra personalidade e uma certa confiança em nós mesmos, a partir da euforia desenvolvimentista do final dos anos 1950. Foi aí que nos sagramos bi-campeões do mundo, com um futebol inédito que nós mesmos inventamos e que assombrou a estrangeirada. Em 1970, durante o take off do milagre econômico, novamente encantamos o mundo aliando agora, à qualidade técnica de jogadores inspirados, uma mentalidade “científica” na sua preparação. Estávamos começando a nos insinuar no universo da tecnologia moderna.

Na década de 1990, no iníco da qual convencionamos ter começado a Era Dunga, éramos um país saindo da selvagem anarquia medieval provocada pela ditadura militar, estávamos ansiosos por uma nova agenda nacional (o que resultou no equívoco da eleição de Fernando Collor).  É como se o Brasil, anos depois do pito de De Gaulle, tivesse resolvido enfim ser um “país sério”. Em vez de só fazer dançar e gingar, começamos a propor o elogio do trabalho como merecimento da graça, a desejar a substituição da inspiração pela disciplina, a empreender em vez de improvisar.  A permanência da tática elaborada, em vez da incerta criação do instante.

Almejamos introduzir um pouco de rigor no nosso gosto pelo jeitinho (o drible?), esse aprendizado da corrupção. E um pouco de racionalidade no delirio barroco de que nos orgulhamos tanto, esse barroco que se consagrou nas igrejas douradas construidas pela força da escravidão mais cruel e mais longa da América Latina. E, com esse espírito, fomos tetra-campeões em 1994, em Los Angeles, a capital anglosaxônica do pragmatismo protestante na cultura.

A Era Dunga representou um salto importante na cultura brasileira, um desejo de por uma pitada de iluminismo na bagunça de nossos corações. Foi durante sua vigência (e na obstinação de Felipão por sua estratégia) que voltamos a ser campeões em 2002, num período de estabilidade econômica e relativa distribuição de renda no país.

Mas a exacerbação da virtude não é virtuosa, ela perverte o que tivermos de melhor, como vimos agora, na Copa de 2010. Ela pressupõe a vitória definitiva, como sob o comando de um deus. Mas a história não é divina e não se acaba nunca, ela continua indefenidamente em estado permanente de crise, o único capaz de produzir conhecimento para o homem. Nenhum fim é triunfal, ele se dá sempre quando a ascenção se encerra.

Claro, não é possível ganhar sempre. Ser o melhor e não ganhar pode até ser desejável como alívio para nossas culpas, uma indulgência para nossa agressividade contra o outro. E há ainda o imponderável, o acaso que está sempre mudando nossas vidas. Na semana em que o Brasil perdeu para a Holanda, um chofer de táxi,  fazendo o elogio do futebol, me fez a seguinte observação, a propósito de sua imprevisibilidade: “Por exemplo, no basquete,  o senhor já ouviu falar em cesta contra?”.

O futebol é o esporte que mais se parece com a vida, o único em que você pode fazer um gol contra seu próprio time. O viralata de Nelson Rodrigues não é o homem que perde, mas aquele que não tem coragem de vencer.

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