O Farol da Ilha

Carlos Diegues

Conheci Tomás Gutierrez Aléa, o Titón, em dezembro de 1981, quando estive em Cuba pela primeira vez como membro do júri do festival de cinema de Havana. Mas já conhecia e admirava seus filmes, faróis extraordinários de um cinema latino-americano moderno, criativo, crítico e possível de existir.

Nos anos 1970, no auge do prestígio internacional do Cinema Novo e da repressão da ditadura no Brasil, Fernando Solanas e Otavio Getino, dois brilhantes cineastas argentinos, haviam criado a teoria do Terceiro Cine (eles), o único verdadeiramente revolucionário, em contraposição ao Primeiro (os americanos imperialistas e reacionários) e ao Segundo (os brasileiros pequeno-burgueses e reformistas). O debate ganhou o mundo com o sucesso de “La hora de los hornos”, o filme dos dois argentinos, e na América Latina os cineastas cubanos se tornaram os líderes ardorosos de nossa defesa, proclamando o cinema brasileiro moderno como modelo continental.

Durante aquele festival, me referi publicamente a essa crise da década anterior e agradeci com  muito afeto a solidariedade cubana. Na mesma ocasião em que, dizendo o que sentíamos naquele momento de crescente decepção ideológica, afirmava que não devíamos esperar uma revolução para termos um orgasmo. Naquela mesma noite, Titón se tornou meu mais velho amigo de infância, discutimos os filmes de nossa preferência e descobrimos nossa paixão mútua por Alejo Carpentier e Jorge Amado. Foi ele quem me apresentou à viúva do primeiro, de quem pretendia comprar os direitos do romance “Os passos perdidos”, filme que nunca fiz.

Eu disse que Tomás Gutiérrez Aléa era um farol. Ele iluminava o cinema de seu país e de nosso continente desde 1955, quando, ainda sob a ditadura de Fulgêncio Batista, fizera seu primeiro filme, “El Megano”, um documentário sobre miseráveis interditado pelo governo. Já sob o regime revolucionário que ajudou a tornar vitorioso,  Titón realizou “Histórias de la Revolución”, de 1960, uma homenagem ao neorealismo que tanto admirara (ele chegou a estudar com Cesare Zavattini, o grande roteirista de obras primas italianas do pós-guerra), o grito primal do novo cinema cubano.

Mas foi com “La muerte de um burócrata” (1966) e “Memórias del Subdesarrollo” (1968) que Titón consolidou sua originalidade autoral com um estilo próprio que era ao mesmo tempo revolucionário e crítico, político e existencial, indignado com a injustiça e cheio de esperança na vida. Na contramão da pura exaltação do regime, Titón se dedicava a observar a vida de seus pequenos personagens, vítimas de um mundo maior do que eles, com uma sintaxe livre de qualquer compromisso com o convencional.

Ainda tive a honra de presidir o júri do festival de Gramado em que “Morango e Chocalate” ganhou o prêmio de melhor filme e Titón o de melhor diretor. Naquele filme de 1993, ele tirava do encontro entre um militante revolucionário e um artista homossexual um poema bem humorado de afeto e tolerância, desafiando o gosto do regime cubano que não o poupou de críticas, apesar do triunfo que o filme conheceu no mundo inteiro.

A última vez que vi Titón, em 1994, eu visitava uma Cuba muito diferente da de 1981, levada à  miséria pelo fim da União Soviética. Numa Havana triste e decadente, encontrei Titón já desenganado, magérrimo e sem forças, protegendo-se do frio caribenho que não é nada. Assim mesmo, acabara de realizar seu último filme, “Guantanamera”, em parceria com seu discípulo Juan Carlos Tabio, um filme estranhamente parecido com “La muerte de um burócrata”.

Seu discreto entusiasmo pela vida era ainda o mesmo, sua preocupação com o futuro do cinema latino-americano não desaparecera, o farol permanecia aceso.

 

Carlos Diegues, 11 de abril de 2011

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