A Invenção do Cinema

Cacá Diegues

Em 1898, três anos depois da histórica sessão inaugural num café de Paris, Robert William Paul, um fabricante de equipamentos óticos, dizia, em referência às imagens dos primeiros filmes dos irmãos Lumière, que, no cinema, “o público já tinha visto trens, bondes e ônibus demais”. Segundo ele, estava na hora de explorar “as possibilidades das fotografias animadas para fazer rir, chorar ou causar espanto”.

Com o advento do som, no final dos anos 1920, foi esse o cinema que se impôs e se consagrou em todo o mundo, tornando-se o espetáculo mais popular do século e da história da humanidade, através de uma dramaturgia que o remetia de volta ao teatro, ao folhetim e ao psicologismo que os primeiros filmes haviam ignorado.

Depois disso, poucos cineastas permaneceram fiéis ao early cinema (o primeiro cinema), resistindo à hegemonia do melodrama para manter viva a invenção de uma nova forma de se dirigir ao outro através de imagens nunca vistas e/ou combinadas de um modo nunca antes tentado. Uma nova arte que já tinha alcançado um nível extraordinário de autonomia poética, com cineastas como Murnau, Dreyer, Dziga Vertov, Mario Peixoto e outros. Um cinema mais cinematográfico.

Há um par de meses, na mais recente Mostra de Tiradentes, em Minas Gerais, assisti alguns filmes do novíssimo cinema brasileiro que me remeteram à memória dessas ideias. Entre eles, “Santos Dumont: Pré-Cineasta?”, de Carlos Adriano, nos faz sonhar com o cinema naquele rumo perdido, nos faz imaginar o que o cinema poderia ter sido e o que ele ainda pode vir a ser.

Venho acompanhando a produção de Carlos Adriano há pelo menos uma década, dez anos de imensa e fértil solidão nesse panorama tão rico e diverso do cinema brasileiro contemporâneo. Acho que o primeiro filme seu que vi foi “Remanescências”, um choque de beleza e rigor, uma tentativa de compreender o absoluto por seus signos mais simples, remetendo-nos à origem como convém a um inventor de formas. Uma celebração reiterativa de imagens reapropriadas.

Pois “Remanescências” é um trabalho de reapropriação de 11 fotogramas, ondas do mar a bater sobre um pier na baia de Guanabara, as supostas primeiras imagens filmadas no Brasil, no final do século 19, por um certo Cunha Salles. Segundo a tese de doutorado do próprio Adriano, na USP, “por ser prestidigitador, médico, bicheiro e exibidor, não se reconhece ou nem se admite que o fragmento de filme que Salles depositou em 27 de novembro de 1897 no Arquivo Nacional possa ter sido filmado por ele, o que o creditaria como autor do primeiro filme nacional”.

Depois vi “A Voz e o Vazio” que, em tão poucos minutos, nos remete a um tempo da cidade de São Paulo e ao zeitgeist desse tempo, através da voz, de fotos, dos discos e da curta vida de Vassourinha, o grande sambista paulistano. E ainda os filmes de Adriano sobre outros artistas, como “Militância” (sobre Militão Augusto de Azevedo, fotógrafo de lanterna mágica), “O Papa da Pulp” (sobre o quadrinista e escritor Rubens Luchetti), “Um Caffé com Miécio” (sobre o desenhista Miécio Caffé) e “Das Ruínas à Rexistência” (estranho e triste manifesto formalista sobre o poeta, escritor e crítico Décio Pignatari, a partir de imagens criadas por ele mesmo).

Ao mencionar esses filmes sobre artistas, não posso deixar de lembrar o que disse Caetano Veloso sobre o cinema de Carlos Adriano: “(...) seus filmes fazem do espectador que os vê um artista”.

“Santos Dumont: Pré-Cineasta?” é o primeiro longa-metragem de Carlos Adriano e também o primeiro filme que ele finaliza sem seu companheiro de toda a vida, o cinéfilo, cineasta, crítico, curador, cinematequeiro e tudo mais que pode caber no amor ao cinema Bernardo Vorobow, alguém que iluminou de algum modo a grandeza dessa obra. Ou, como diz o próprio Adriano, o seu farol.

Um filme que, não sendo um documentário, reproduz o que vê com um olhar intacto, sem armadilhas por trás do registro concreto do objeto filmado. Não sendo um melodrama, um filme que nos revela sentimentos pessoais que não se submetem às conveniências de uma dramaturgia planejada. Não sendo um ensaio, nos ensina a generosa grandeza do found footage, o código de reapropriação do arquivo inaugural, tornando moeda corrente de hoje certas imagens de ontem. Um filme que, não tendo a intenção de ser uma anedota biográfica, celebra o permanente e indispensável estado febril da criação, seja ela do avião ou da mera realização de um filme.

“Santos Dumont: Pré-Cineasta?” se apropria do mutoscópio de seu protagonista como um épico de objetos insensíveis, frames que são tijolos frios a se articularem na construção de alguma coisa que, ao se juntar, ganha vida e provoca nosso êxtase e nossa reflexão. O pré-cineasta Santos Dumont como portavoz de um pós-cinema possível.

O cinema não precisa ser somente desse jeito. Sua mais indispensável riqueza está justamente em que a beleza de um filme pode florescer dos mais diferentes canteiros da criatividade humana. E é isso o que desejo para o cinema brasileiro.  Mas, ao assistir “Santos Dumont: Pré-Cineasta?”, tenho a incômoda sensação de um compromisso: o de estar testemunhando uma outra invenção do cinema, um cinema que estava perdido e foi recuperado pelas mãos mágicas de cineastas como Carlos Adriano.    

Carlos Diegues, 4 de abril de 2011

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