Isto é Real
Carlos Diegues

Carlos Diegues, 2 julho 10

Enquanto brasileiros e holandeses se preparavam para entrar em campo, no estádio Nelson Mandela, a câmera oficial da FIFA passeava pelo túnel de acesso ao gramado. A televisão flagrava assim a inevitável tensão que antecede uma partida decisiva de futebol, os rostos ansiosos, os abraços formais entre jogadores adversários, os cochichos táticos, as providências para organizar a cerimônia. Entusiasmado com essa novidade nas transmissões de Copa do Mundo, Galvão Bueno informava aos tele-espectadores que tudo aquilo estava acontecendo de fato. E repetia várias vezes a mesma frase: “Isto é real”.

Quando o cinema nasceu, inaugurando a família do audiovisual que iria conquistar a humanidade do século 20, seu grito primal, o primeiro filme de seus inventores, os irmãos Louis e Auguste Lumière, pretendia exatamente a mesma coisa que o locutor esportivo. Isso é, nos confrontar com o real. Consta até que, no dia 28 de dezembro de 1895, quando foi realizada a primeira projeção pública desse filme, num café de Paris, os espectadores se levantaram assustados, derrubando mesas e cadeiras, quando o trem filmado pelos Lumière avançou para a câmera e consequentemente para eles próprios.

Mas o cinema e os seus descendentes, da televisão ao game, não se conformaram em registrar apenas o real. Logo de cara, muito pouco tempo depois do sucesso das projeções dos inventores, já havia artistas e artesãos curiosos, como o também francês Méliès, usando a mesma tecnologia para alterar a realidade ou criar um outro real, um novo mistério através dela. E o mistério sempre atraiu a inteligência humana, sendo a matéria prima da poesia em todas as suas dimensões de produção.

Hoje, a natureza da imagem que vemos em todas as telas, das salas de cinema aos aparelhos de TV, da internet aos games que constroem uma nova cultura, se multiplicou e se repartiu em diversos sentidos, formando-nos na confusão embaralhada de suas várias direções. A imagem criada originalmente pelo cinema perdeu sua integridade, seu significado único, e portanto não merece mais a nossa confiança. Hoje, não há mais como reproduzir algo parecido com a experiência do trem dos Lumière no café parisiense. Não é a toa que, quando queremos dizer que alguém está fingindo, encenando uma falsa realidade, dizemos que essa pessoa está “fazendo cinema”.  

Não tomemos essa observação como uma crítica à manipulação da cultura de massa, uma crítica no velho estilo da Escola de Frankfurt, com seu moralismo elitista e às vezes ingênuo. O consumo é posterior à produção e é a essa que nos referimos, como uma necessidade humana de imprimir novos conteúdos às tecnologias novas, novos formatos para novas plataformas. A tradição será sempre a fonte da ruptura, esta sendo consequência da dissecação e desmaterialização  daquela.

Um grande sucesso entre novos games chama-se “Red Dead Redemption”, uma operação revisionista da tradição dos westerns, os filmes de cowboy que fizeram parte da glória de Hollywood. Dando a seus jogadores uma grande liberdade de escolha e quase inesgotáveis alternativas de jogo em vastos espaços, o “Read Dead Redemption”, ao contrário de Hollywood, não visa cantar a história do oeste americano, mas alterá-la.

No nosso universo audiovisual de hoje, os fragmentos de todas as imagens do real e da imaginação caem sobre nós como uma chuva permanente de verão, uma infindável tempestade em que cada gota tem uma representação diferente e o significado que formos levados a lhe dar. Talvez nem precisemos mais ver essas imagens para conhecê-las bem, com algumas poucas pistas podemos adivinhá-las. Slavoj Zizek, filósofo e psicanalista da moda, confessou recentemente ter escrito um texto sobre “Avatar”, publicado pela renomada revista francesa Cahiers du Cinéma, sem nunca ter visto o filme.

Esse movimento de produção e reprodução inflacionárias de imagens, típico de nosso tempo, acaba por criar um mundo virtual que confundimos com o real, mais ou menos como no filme “Matrix”. Mas como temos consciência dessa confusão, duvidamos sempre da imagem, mesmo quando ela nos parece real. No início da semana, depois do jogo contra o Chile, um jornal importante publicou, por  equívoco, o anúncio de um supermercado anunciando a desclassificação da seleção brasileira e desejando-lhe felicidades para 2014. Obviamente essas imagens já estavam prontas para a eventualidade, muito antes de a Copa começar. Agora, isso também é real. 

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