Publicado no jornal "Folha de S. Paulo", em 8 de junho de 2003
Dois pontos
Carlos Diegues
Não esperava que aquela minha entrevista sobre incentivos à cultura ("O Globo", 03/05) tivesse a repercussão que teve, fico muito orgulhoso de todos os apoios públicos e privados que desde então venho recebendo.

Mas o ardor das paixões e uns velhos preconceitos impediram que alguns entendessem (ou não quisessem entender) que ela visava, antes de tudo, alertar para regulamentos de estatais que colocavam na mão de burocratas, nem sempre bem informados, critérios de avaliação como "divulgação do folclore", "identidade nacional", "imagem do Brasil no exterior", "adequação aos programas dos ministérios", etc., em evidente tendência à instrumentalização da cultura como braço de interesses políticos e ideológicos. Era preciso devolver a condução da política cultural ao Ministério da Cultura, o que lhe cabe por letra da Constituição e mérito de seu ministro.

Não inventei nada, as idéias que defendi circulavam por aí há tempos e já haviam aparecido em matéria de capa da "Ilustrada", em 30/04, com o título: "Produtores apontam 'dirigismo' em critérios de patrocínios de estatais", e o subtítulo: "Ministério da Cultura se opõe à política de incentivos orientada pela Secom". Ali se falava de "indignação e críticas de um suposto 'dirigismo cultural' por parte do governo federal", pela voz de representantes de entidades de cineastas, tanto do Rio quanto de São Paulo. Só fiz reproduzir, do jeito que julguei certo, esses desgostos todos.

A representação corporativa é indispensável ao funcionamento dos costumes democráticos. Mas a manifestação individual é um direito sagrado, essencial ao progresso do homem e ao bem da democracia. Ser inconveniente é o papel social do intelectual moderno e do artista-pensador de hoje, de Émile Zola a Susan Sontag. Não me julgo com a grandeza e a importância de nenhum deles, mas não abro mão de exercer esse papel, sempre que minha consciência julgar necessário.

Nesse debate, me empenho sobretudo na defesa de mecanismos que permitam a fabricação e a difusão de todos os filmes, que atendam a todas as tendências e necessidades do cinema brasileiro. Ele precisa de "Amarelo Manga", dos novos modos de contar nossas novas histórias; como precisa de "Carandiru", capaz de desbancar o cinema dominante dentro de suas próprias fortalezas-multiplex, conquistando público para nossas histórias. Não é possível que ainda não tenhamos aprendido que, para impor o que faz, um artista não precisa eliminar o que lhe é diferente.

O cinema brasileiro não pode ter um padrão único de orçamento ou uma única intenção estética. Ele não deve ser um gênero cinematográfico, mas sim uma cinematografia nacional, representativa de nossa variada complexidade, capaz de reunir nossa população em torno dele, para refleti-la e fazê-la refletir.

Na reunião com os ministros Gushiken e Gil, quando o governo resolveu com sabedoria a questão dos regulamentos das estatais, reiterei que a dependência da cultura a estas vinha de que fora permitido às empresas privadas investir nelas mesmas, através de fundações e outros artifícios. Se isso fosse corrigido, os recursos das estatais poderiam, por exemplo, ser reservados a estreantes, projetos especiais, experimentações fora do mercado, etc. Aliás, se quisermos uma "contrapartida social" de verdade, esses recursos deviam ir mesmo era para a produção cultural dos excluídos, para o que é produzido nas periferias urbanas e no interior abandonado do Brasil.

Assim como não se pode deixar de montar "Hamlet", só porque o Brasil não tem nada a ver com a Inglaterra elizabetana ou com a Dinamarca medieval, é preciso entender também que inclusão social não é levar Mozart ao Borel, montar Ibsen no Buraco Quente, passar "Marienbad" no Complexo do Alemão, essa ingenuidade acadêmica de "elevar a cultura das massas". Quem está fazendo inclusão social para valer, no peito e na raça, é MV Bill e os Racionais, o AfroReggae e o Nós do Morro, o Ceasm (Centro de Ações Solidárias da Maré) e a Cufa (Central Única de Favelas), todos esses movimentos que produzem sua própria, nova e surpreendente cultura híbrida.

Inclusão social é dar voz à Rocinha e ao Capão Redondo, a Brasília Teimosa e à Ceilândia, dar a essas populações condições para que se expressem em seu próprio nome, integrando suas manifestações ao conjunto da cultura brasileira, para além dos guetos a que estão confinadas, em vez de impor-lhes, goela abaixo, a cultura gentil de nossa boa consciência assistencialista, com a pretensão de representá-las.

Por último, mas não menos importante, nunca foi meu desejo politizar o debate, minha intervenção não foi um voto de descrédito no governo. Fiz apenas um alerta, identifiquei uma hipótese que poderia se tornar uma tendência e depois, talvez, um comportamento hegemônico que, uma vez instalado e com poder, impor-se-ia à liberdade de expressão.

Cabe ao estado criar as condições para a produção de cultura no país. Mas o estado precisa resistir, sempre com muito rigor, à tentação de ele mesmo produzi-la através de práticas ou regras restritivas. A história dos autoritarismos do século 20, de direita ou de esquerda, nos ensina que isso conduz as nações a tragédias irreparáveis.

Cabe a nós evitar a tradicional síndrome culpada e oportunista de certos intelectuais militantes. Cada vez que se fala em justiça com sinceridade (como está se falando agora no país), cada vez que a esperança de justiça aparece no horizonte, eles logo correm afoitos a oferecer o martírio da liberdade como o preço inevitável a se pagar por ela. Quero que o Brasil dê certo e tenho certeza de que, muito mais cedo do que se espera, isso vai acontecer, sob o reinado de ambas, da justiça e da liberdade.
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