A evolução das espécies por seleção artificial.

A evolução das espécies por seleção artificial

Na terceira década do século 21, o mapa do genoma humano foi enfim integralmente decifrado. A manipulação de células humanas, sobretudo a de células troncos que já vinham sendo utilizadas para reverter processos de degeneração física, passou a substituir os medicamentos existentes, servindo para curar todas as doenças e a maior parte dos aleijões. Com o tempo, essa nova medicina permitiu não só o aperfeiçoamento da vida, como também uma maior extensão dela, prevenindo males e protegendo o organismo humano de vírus e bactérias oportunistas. A nova medicina se tornou conhecida como genoterapia.
 
A genoterapia seguiu se aprimorando velozmente. Mas, por ser um procedimento extremamente caro, só estava ao alcance de famílias muito ricas de países ricos e estáveis que podiam nele investir. As famílias de classe média com rendimentos significativos escolhiam um ou dois de seus filhos para se beneficiarem dos planos de saúde da genoterapia, ficando os outros membros delas sob o regime da medicina convencional. Fora dos países ricos e estáveis, líderes árabes, altos funcionários asiáticos, ditadores de países africanos e bilionários latino-americanos, tomando conhecimento dos formidáveis benefícios  trazidos por aqueles avanços da ciência genética, trataram de comprar o acesso a eles e passaram a usufruir também de seus efeitos.
 
As pessoas beneficiadas pela nova terapia foram chamadas de genos e, em pouco tempo, o número delas cresceu o suficiente para que os laboratórios pudessem passar a viver exclusivamente da nova medicina. Os lucros com esta se tornaram de tal modo elevados que os laboratórios deixaram de fabricar os medicamentos convencionais, responsáveis por uma relação custo-benefício insignificante, se comparada à da genoterapia.
 
Alguns governos de países desenvolvidos e outros do mundo em desenvolvimento tentaram obrigar os laboratórios a seguir fabricando medicamentos convencionais, capazes de atender os que não podiam pagar pela nova terapia. Mas esses governos foram derrubados por processos de impeachment, mecanismo previsto em suas constituições e votado por parlamentos democráticos, ou foram eliminados por revoluções sangrentas, feitas em nome da liberdade, do livre arbítrio e do direito de escolha.  
 
Apesar da decadência da medicina convencional, a parcela grandemente majoritária da população de países ricos e estáveis que não tinha condições financeiras para se beneficiar da genoterapia continuou a crescer, embora a elevação estatística dos óbitos infantis causasse certa preocupação. Esses não-genos, cumprindo o dever de proteger a saúde de suas famílias, se organizaram para evitar a exportação do que havia restado de médicos bem formados e de bons medicamentos convencionais.
 
Essa política protecionista provocou algumas guerras localizadas, focos de conflitos regionais explodiram pelo mundo afora. Mas os genos não se envolveram, limitando-se a agir por motivos humanitários, sempre que necessário evitar graves prejuízos ao planeta e à civilização, impedindo o uso de armas químicas e nucleares de destruição em massa. Graças a essas intervenções, aprovadas pelos organismos internacionais, as conseqüências desastrosas das guerras ficaram restritas aos combatentes e a suas regiões geográficas.
 
Apesar de viverem cada vez mais isolados e protegidos do resto da população, os genos praticavam, em relação a esta, atos de caridade, provendo serviços de assistência social e sistemáticas contribuições materiais. A vida já tinha sido estendida a possibilidades centenárias para eles, quando uma crise de proporções gigantescas atingiu os não-genos.
 
Vivendo em condições sanitárias lastimáveis, sem o atendimento de uma medicina eficiente e sem medicamentos convenientes, os não-genos foram assolados por grandes epidemias que resultaram em interrupção do trabalho e fome crescente. Bandos deles passaram a tentar se apropriar ilegalmente dos benefícios da genoterapia praticando roubos, assaltos, seqüestros e outros atos abomináveis.  As autoridades foram obrigadas a declará-los inaptos à convivência democrática e decidiram negar-lhes o direito de cidadania, isolando-os definitivamente de seu convívio, mesmo que para isso tivessem que usar a força.
 
Foi mais ou menos por essa época que, através de estreita cooperação entre bio e neuro-cientistas, descobriu-se o infra-ego, o regente de um mecanismo autônomo que ordenaria todo o conjunto do corpo humano, o oposto simétrico do super-ego. Assim como este se encontrava num espaço indeterminado fora da pessoa, aquele se localizava em algum ponto, igualmente inidentificável, no interior profundo dela. O infra-ego regia a circulação do sangue, o sistema digestivo, o ritmo pulmonar da respiração do ser humano, a coordenação necessária entre essas atividades orgânicas, capaz de mantê-lo vivo.
 
Acabou-se descobrindo que a própria Terra, como um corpo vivo, possuía também um infra-ego que cuidava da harmonia entre seus diversos elementos de distintas naturezas, podendo eventualmente alterar seu comportamento, humor e clima, provocando catástrofes imprevisíveis ou intermináveis primaveras.   
 
Alguns cientistas mais astutos não acreditaram que o infra-ego regesse apenas o funcionamento físico de um organismo, como se fosse simples
ignição mecânica de uma máquina, e continuaram a busca por sua verdadeira natureza e pelo entendimento da totalidade de suas funções. Logo chegariam à descoberta de que o infra-ego era também capaz de por ordem nas mentes humanas, através de sinapses que não se passavam no cérebro mas tinham conseqüências decisivas em seu circuito de neurônios. Essas sinapses, sem aparente nexo ou qualquer finalidade, podiam ser controladas artificialmente, reorganizando o sistema moral de cada um segundo seu próprio programa individual, interferindo voluntariamente na clássica dialética entre os princípios de prazer e de realidade, neutralizando interferências indesejáveis do super-ego.
 
Os estudos sobre as funções do infra-ego evoluíram simultaneamente a novas e complementares descobertas relativas à genoterapia. A interação entre esses dois campos de pesquisas aproximou a pequena humanidade que se beneficiava delas de uma existência quase milenar, cujo sentido não cabia mais na mera palavra vida. Em harmonia com a natureza, sua e do mundo à sua volta, a procriação dos genos privilegiava suas novas e sucessivas vantagens e aptidões, de modo que logo sofreram uma mutação genética, tornando-se uma nova espécie dentro do gênero humano.
 
Lembrando a origem fundadora de sua evolução, antropólogos e biólogos convencionaram chamar a nova espécie de homo-ricus, denominação que foi adotada universalmente. 
 
Os decadentes homo-sapiens seguiam espalhados em desordem pelo planeta, vagando pelas áreas mais pobres dos continentes, com famílias numerosas e sobrevivência cada vez mais curta. A partir de certo momento, seus governos não haviam conseguido mais exercer nenhuma autoridade em seus territórios, muito menos prestar qualquer tipo de serviço público. Os estados entraram em colapso e as nações começaram a desaparecer, impossibilitadas de conservar suas fronteiras e os laços comuns entre seus cidadãos.
 
Conforme os homo-ricus iam prescindindo delas, os programas de assistência às populações necessitadas formadas por homo-sapiens foram sendo abandonados, já que não serviam para mais nada à comunidade dos contribuintes que pagavam por eles. Era um dinheiro jogado fora, um desperdício de recursos sem nenhuma racionalidade econômica.
 
As hordas de homo-sapiens doentes e famintos começaram a evitar o contato com seus semelhantes, pois os encontros terminavam sempre em disputas violentas pelos restos de alimentos, confrontos que resultavam em morticínios e no genocídio dos mais fracos. Os poucos que conseguiam sobreviver à falta de tudo andavam a fugir das cidades empestadas e em ruínas, onde as epidemias, algumas novíssimas e totalmente desconhecidas, arrematavam a miséria em que viviam. Assim, a linguagem começou a desaparecer por perigosa e as manifestações culturais rarearam por desnecessárias e inúteis.
 
Os homo-ricus progrediam rumo a uma vida cada vez mais saudável, a rostos e corpos cada vez mais belos, a mentes cada vez mais livres de ilusões, a existências cada vez mais longas e despreocupadas, fundamentos que construíam uma cultura de sabedoria e contemplação. Eles tinham orgulho de sua beleza, inteligência e longevidade, se reconheciam como uma espécie superior, a obra mais perfeita de Deus, feita à Sua semelhança, fosse Ele quem fosse.
 
Na cultura dos homo-ricus, a lembrança dos homo-sapiens se restringia à narrativa científica da evolução, como ancestrais da espécie a que pertenciam, eucariontes mamíferos e bípedes, como tantos outros animais existentes ou já extintos. Primeiro por diversão e esporte, os homo-ricus passaram a caçar os homo-sapiens, como se havia caçado macacos num passado longínquo.  As caçadas eram organizadas para introduzir as festas do verão no hemisfério norte, mas logo se tornaram preliminares à alegria coletiva de grandes churrascos comemorativos.
 
Por causa do generalizado e excessivo entusiasmo por essas caçadas, as autoridades foram obrigadas a promulgar leis rigorosas, com penas severas para salvar o homo-sapiens da ameaça de extinção. Algumas áreas reflorestadas do subcontinente sul-africano, do sudeste asiático e da América do Sul, foram transformadas em pequenas reservas vigiadas, onde os homo-sapiens restantes eram mantidos em estado natural e não podiam ser vítimas da violência de safáris exterminadores. Um número mínimo de caçadas formalmente autorizadas tinha por objetivo capturar alguns poucos exemplares da espécie, encaminhando-os a zoológicos, onde eram mantidos em cativeiro para estudo de sábios e diversão das crianças.
 
Mas, em algumas das reservas destinadas a esse fim, a caça aos homo-sapiens com o objetivo de abatê-los era permitida, em certas condições especiais e em temporadas muito precisas, com absoluto controle do número anual de vítimas. A carne deste animal em extinção havia se tornado rara e nobre, só era servida em circunstâncias muito especiais, sobretudo por ocasião do Natal, quando a iguaria substitua o antigo e já extinto peru.
 
Carlos Diegues
13 outubro 2008
 
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