Notas sobre um Velório

Notas sobre um Velório

De vez em quando, o cinema brasileiro “morre”. Tem sido assim através dos 110 anos de sua existência no país, desde o início. É como se a nação não pudesse (ou não quisesse) acreditar que tem capacidade para produzir filmes. Quando eles são feitos e fazem algum sucesso, preferimos imaginar que se trata de uma ilusão passageira, uma exceção à regra de nossa impotência cinematográfica.  O cinema é o nosso certificado de subdesenvolvimento, da nossa falta de vocação para a modernidade.

É verdade (e todo mundo já sabe disso) que, nesse mais de um século de existência, nosso cinema sempre viveu de ciclos que se abrem com euforia e se encerram com brevidade. Uma crise econômica internacional, provocada pela guerra de 1914, acabou com o primeiro desses ciclos. O golpe militar de 1964 (e sobretudo o Ato 5 de 1968), com o do Cinema Novo. Fernando Collor, com o da Embrafilme. E assim por diante. Como se vê, nenhum desses fatores letais foi de exclusiva responsabilidade dos cineastas brasileiros da época; mas a lenda que se registra é a da incompetência deles.

 

Em 1994, graças a uma modesta e insuficiente Lei do Audiovisual, recuperou-se a viabilidade de se produzir filmes no Brasil. Seguiu-se à lei uma produção anual que cresceu de meia dúzia deles, no ano seguinte, até cerca de 90, em 2007. Veteranos voltaram a filmar e mais de 200 novos diretores estrearam nestes últimos 14 anos. Sucessivas safras anuais de cineastas talentosos foram sendo colhidas ao longo desta década e meia, entre os quais alguns já reconhecidos e consagrados por público e crítica, no Brasil e fora dele. Muitos de seus filmes mereceram destaques e prêmios importantes, em festivais da grandeza de Berlim, Cannes, Veneza, Toronto, Sundance, Havana, Montreal, e muitos outros. Conquistamos também, pela primeira vez em nossa história, várias indicações ao Oscar.

A ocupação de nosso próprio mercado por nossos próprios filmes não se deu com a velocidade e a intensidade que desejávamos; mas ela também não está muito longe do que acontece em outros países, sobretudo nos latino-americanos como nós. E isso não significa morte próxima. Sabemos que o valor das ações de quase todas as grandes empresas do mundo está caindo dramaticamente, mas ainda não ouvimos ninguém dizer que a Bolsa de Valores está morrendo.  Já chegamos, em 2003 (o melhor ano dessa ocupação), a cerca de 22% de market share (participação no mercado), um índice que nos colocava perto de países europeus com bom desempenho neste campo. Nada impede que sonhemos voltar, em breve, a essa marca e mesmo superá-la.

Para isso, precisamos, em primeiríssimo lugar, tomar consciência de que a natureza de nossa atividade não é mais a mesma. Ela foi e está sendo modificada radical e rapidamente; e ainda o será por muito tempo à nossa frente. As novas tecnologias geraram novas formas de captação e difusão de imagens e sons, a arte e o negócio cinematográficos não são mais os mesmos. E este é um sentimento definitivo, uma convicção em todo o mundo cinematográfico do planeta – dos grandes estúdios de Hollywood (que estão financiando a digitalização do circuito exibidor americano e comprando redes de TV), a artistas independentes e fundamentais (como fica claro, por exemplo, nas declarações de Peter Greenaway, David Lynch e Wim Wenders, nossos recentes visitantes).

Tanto do ponto de vista da criação, quanto do da comercialização dela, o filme não é mais o mesmo produto cultural de poucos anos atrás; e, daqui a pouco, também não será mais o que é hoje. No Brasil, não podemos ficar eternamente a reboque dos problemas de ontem, enquanto este amanhã está sendo construído sem a nossa participação.

Da França à Coréia do Sul, da Romênia à Tailândia, da Nigéria ao Paraguai, cada país está se inserindo  neste novo mundo de um modo particular, preparando suas cinematografias nacionais para enfrentar a poderosa concorrência hegemônica, sem temer a cosmopolitização indispensável à atividade. É claro que, no limite, toda cinematografia depende, em primeiro lugar, do talento e da competência de seus cineastas. Mas o estado e a sociedade nacionais precisam provê-los de um sistema, de mecanismos adequados às bases institucionais, articulados com as economias locais, atentos aos projetos da população de cada um desses países. Temos que encontrar os nossos, o mais urgentemente possível.

Para início de conversa, é preciso pensar no consumidor. Mas não apenas desse modo banal de fazer contas de botequim para saber se um filme foi ou não um sucesso de bilheteria. O cinema é uma manifestação do imaginário humano e a contabilidade deste não é tão simples assim. Precisamos fazer filmes para todas as telas e todos os públicos, claro; mas é preciso também que essas telas e esses públicos existam de fato. Como atingir o público se ele não está ao nosso alcance? Seria como instalar a indústria automobilística num pais sem ruas e sem estradas.

Para nos prepararmos para o futuro anunciado, precisamos enfrentar logo as nossas muitas ausências, preenchê-las convenientemente. A ausência de salas populares de exibição, que condena nossos filmes a um circuito de elite, que tem um dos piores desempenhos do mundo na relação entre número de salas e tamanho da população. A ausência de uma sólida relação de produção e difusão entre cinema e televisão, sabendo-se que, no ano passado, só a TV Globo (tão demonizada!) e a TV Cultura (em menor escala) exibiram filmes brasileiros. A ausência desses mesmos filmes na televisão paga, onde eles se encontram murados no gueto do Canal Brasil.  A ausência de uma política realista de produtores e distribuidores para o vídeo doméstico, seja ele o DVD em decadência ou os emergentes VOD e Blue Ray. A ausência de compreensão de que a pirataria, tão maléfica, não é uma questão policial e sim social, resultado do impulso de consumidores que não têm acesso ao produto audiovisual que desejam consumir. A ausência de um mecanismo de promoção e exportação de nossos filmes no mercado internacional, que representa hoje 65% da renda de um filme americano. E, sobretudo, a ausência de uma visão de mundo cinematográfica que contemple fenômenos como o da internet, da televisão móvel e similares, com todas as suas conseqüências na transformação radical de nossa atividade.

Mas a ausência que mais nos prejudicará será sempre a da tolerância em relação à nossa diversidade. O cinema é hoje o espaço de uma grande arte, no qual se exprimem artistas originais que nos proporcionam conhecimento, encantamento e êxtase. Mas não podemos nunca nos esquecer de sua igual vocação para a arte popular, aquela que o cinema vem construindo desde sua origem. No Brasil, como em muito poucos países do mundo, temos a oportunidade real de fazer conviver essas duas grandes tendências e seus derivados.  Não podemos deixar que a intolerância nos impeça de dar essa grande contribuição civilizatória à humanidade do século 21.

Para que esses últimos anos não se transformem em mais um ciclo (embora o mais longo e bem sucedido de todos), para que eles representem o início da consolidação do cinema como atividade permanente em nosso pais (com uma história crítica, mas fluente), é preciso nos dispormos a dar um salto por cima de tudo que não resolvemos no passado, para cair direto no século 21, encarando as notáveis, fascinantes e tão ricas questões do audiovisual desse tempo. E essa não é uma tarefa apenas dos cineastas, mas também dos espectadores, dos cinéfilos, das autoridades, da imprensa, da academia, de toda a sociedade, a verdadeira responsável por ele.

De qualquer maneira, se o pior acontecer, não se preocupem – repito que o cinema brasileiro não morrerá nunca. Ele estará sobrevivendo, como uma necessidade e como for possível, em experiências isoladas e aventuras inesperadas, como já aconteceu tantas vezes no passado, entre um  ciclo e outro. Talvez na produção universitária de tantas escolas espalhadas pelo Brasil, reveladoras de novos talentos. Ou na coragem e no empenho dos jovens cineastas de periferias urbanas, que não esperam pela piedade de ninguém. No esforço e na paixão dos que amam o cinema e não sabem viver sem ele. Mas seria muito melhor se, em vez de nas catacumbas da resistência, o cinema brasileiro se fizesse à luz do sol, para deleite e orgulho de toda a nossa população.


Carlos Diegues
23 agosto 2008

 

 

 Leia também:
"Crônica social relembra a grandeza do Cinema."
http://www.carlosdiegues.com.br/artigos_integra.asp?idA=45 

 

 

 

 

 

 

 

 

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