Crônica social relembra a grandeza do cinema
Linha de Passe
 
Nem sempre o melhor de um filme é visível a olho nu. A maioria deles expressa o que deseja veicular através, exclusivamente, das coisas concretas presentes na tela. O filme, produção do imaginário humano, se manifesta sempre, em primeiro lugar, através da platitude de suas imagens concretas, diante das quais não temos dúvidas sobre o que vemos. Essas imagens concretas quase nunca são ambíguas como as palavras ou imateriais como os sons de uma música. Podemos imaginar, portanto, que o cinema seja uma arte rasa, superficial e sem perspectiva, de uma pobre e monótona unidimensão. 
Mas, de vez em quando, surgem filmes que negam essa platitude e nos colocam diante de um mistério que nos deixa perplexos quanto a todas as certezas que tínhamos sobre sua natureza. São filmes feitos para serem absorvidos em um certo estado que não é o da vigília, nem o do sono, mas algo intermediário que nos permita ver sem ver. Digamos, para simplificar, em estado de graça. São esses filmes que fazem a grandeza do cinema.
“Linha de Passe”, o novo filme de Daniela Thomas e Walter Salles, é um deles.
Ali, um aparentemente radical naturalismo nos vai levando pelo cotidiano de uma família dos que, segundo Jurandir Freire Costa, “carregam este país nas costas”, construindo pelo caminho metáforas inesperadas que transformam o documento em poesia. Estamos diante de uma crônica social, a pequena história de uma mãe e quatro filhos, tão semelhante a tantas outras de nossa tradição cultural politicamente empenhada, que se desdobra de modo surpreendente em profundas e complexas idéias sobre a condição humana, suas imperfeições e fraquezas.
É como se estivéssemos diante da proposta de um novo humanismo, mais adequado ao mundo real em que vivemos, nascendo na volúpia de uma arte rigorosa. Um humanismo no qual, ao contrário da tradição ocidental, o homem não triunfa no final da história, seja este a sociedade sem classes, a harmonia com a natureza ou a parusia, mas simplesmente segue andando sem destino necessário. Um humanismo que, reconhecendo nossa falta de vocação divina, recupere nossos sonhos pela construção de uma utopia fundada em nossas fragilidades, e não em nossos anseios de perfeição.
No caso de “Linha de Passe”, o poema é muito objetivo, quase geométrico em sua direção-de-arte despojada, sua fotografia despolida, sua interpretação de atores tão identificados com seus personagens, sua encenação sem transes. E, antes disso tudo, em seu roteiro tão preciso e, ao mesmo tempo, tão rico em sugestões de prováveis improvisos (não conheço a crônica das filmagens mas, pelo que vemos na tela, imagino que esses improvisos tenham acontecido).
Um sereno poema moral, antes de qualquer coisa, construído a partir de tantas e dilacerantes crises de seus personagens, manifesto em defesa da fraternidade como regra de vida. Com ela vigendo, você pode fazer o decisivo gol de penalty, descobrir um milagre pessoal, reconstruir sua relação com o mundo, transformar-se no pai que não encontra, dar à luz enfim. Podemos até compreender a patroa pragmática ou o treinador corrupto, embora reajamos contra a desqualificação da vítima, no episódio do assalto de moto. São esses mistérios que tornam o horror cotidiano um estímulo para a grandeza da vida – vencer na vida é só saber um pouco mais sobre você mesmo e os outros, mesmo que dando apenas mais um curto passo à frente.
É para isso que serve o cinema e um filme como "Linha de Passe".  Um belíssimo filme sobre a vida como uma graça a ser vivida com fraternidade. Um filme literalmente sublime.
 
Carlos Diegues
31 agosto 2008
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