Cacá escreve livro de memórias sobre o cinema brasileiro para a Editora Objetiva.
Carlos Diegues continua escrevendo seu livro de memórias do cinema brasileiro, a ser publicado pela Editora Objetiva, em 2009. Segundo ele, “cada vez que avanço na escrita desse livro, mais doloroso vai ficando escrever”. Não só pela necessidade de pesquisar e apurar os fatos abordados, como também “pelo retorno profundo, para dentro de mim mesmo, a épocas distintas de minha vida, a tudo que aconteceu e também poderia ter acontecido ao cinema brasileiro”. A revista literária Granta publicou, em seu ultimo número, capítulo completo do livro, em que Cacá conta seu ultimo encontro com Glauber Rocha, um mês antes da morte do amigo, em Sintra, ao sul de Portugal. 
 Sintra
Em meados de junho, entre o fim da primavera e o início do verão europeus, Glauber me esperava no aeroporto de Lisboa, carinhoso e bem humorado. E assim se comportaria durante todo o tempo de minha visita, um longo fim de semana de quatro dias, os últimos em que o vi consciente e com vida.
 
Minha missão, assumida comigo mesmo, era trazê-lo de volta ao Brasil, afim de que tratasse de sua saúde cercado por seus próprios médicos, a família e os amigos, enquanto preparava um novo filme. Depois de meu encontro com ele em Paris, no outono anterior, as notícias sobre seu estado físico, algumas dadas por ele mesmo, eram assustadoras. Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro, dois de seus mais velhos e queridos amigos, baianos como ele, estavam por acaso em Portugal, envolvidos em eventos literários e acadêmicos de certa duração. Eu e Luis Carlos Barreto, que também se comunicava com Glauber constantemente, entramos em contato com os dois que confirmaram as más notícias e concordaram em participar do complô para trazê-lo de volta. Por mais que Paula Gaetán, sua mulher, tomasse conta dele, Glauber era incontrolável e a gente sabia que dava muito pouca importância ao que devia fazer ou evitar para proteger sua saúde.
 
Glauber morava numa casa simples e simpática, em cima de uma colina, em Sintra, no sul de Portugal, cidade que eu só conhecia através de Eça de Queiróz. No topo da escada de pedra que subimos para alcançar a porta, nos esperavam Paula, com os dois filhos pequenos, Erik e Ava, além de outro hóspede, Claude Antoine, fiel produtor de Glauber, o primeiro vendedor de filmes do Cinema Novo na Europa.
 
Quase não dormimos durante aqueles dias. Passamos manhãs, tardes e noites (não necessariamente nessa ordem) a conversar, quase sempre dando muita risada, sem nunca sair de casa. Glauber estava alegre e animado, me falava de seus projetos com entusiasmo, me contava dos roteiros que escrevera recentemente, me mostrava deslumbrantes desenhos coloridos, magníficos storyboards feitos por ele mesmo, com algumas cenas dos filmes que planejava fazer. Aquele a que se dedicava no momento, o filme cuja produção Claude Antoine tentava montar por aqueles dias, ia se chamar “O tesouro de Napoleão” e deveria se passar em diversos países mediterrâneos, além do próprio Portugal.
 
Para minha surpresa, Glauber reconhecia um certo impasse na linguagem cinematográfica que andava buscando em seus últimos filmes, de “O leão de sete cabeças” a “A idade da terra”. E revelava uma certa nostalgia da narrativa criada pelos cineastas fundadores de sua cultura cinematográfica, os preferidos de sua juventude, como John Ford, Roberto Rossellini, Jean Renoir ou Howard Hawks. Pelo menos, era quase sempre sobre o cinema deles que discursava, interpretando de vez em quando cenas inteiras de, por exemplo, “Rastros de ódio” (The Searchers, 1956), de Ford, como se eu nunca tivesse visto o filme. Quem o pudesse ouvir, naqueles momentos, estranharia o quanto tudo aquilo não tinha nada a ver com a novidade, a ousadia e a transgressão de seus roteiros recentes, os projetos novos que acabara de me revelar. Mas eu me emocionava e me divertia.
 
Conversamos muito sobre “restauração”, a propósito da discussão que havíamos tido em Paris, em novembro do ano anterior, quando ele acusara alguns cineastas (entre os quais, eu mesmo) de estarem retornando a um cinema narrativo, depois de tudo que se havia inventado, do Cinema Novo até algumas vanguardas mais recentes. Glauber revia o que havia dito, sem retirar uma só palavra do discurso anterior; não tinha nenhum problema em dizer o contrário, sem se contradizer. Uma coisa que só ele sabia fazer.
 
Portugal estava na moda em toda a Europa, como um lugar de turismo acessível e frescor cultural. Lisboa vivia cheia de cineastas europeus em busca de locações para filmes baratos, como era o caso de Wim Wenders. Wenders era bastante ligado no cinema brasileiro e de vez em quando visitava Glauber, que o esnobava um pouco. Apesar de ter se recolhido depois da agitação que provocou em Veneza, defendendo “A idade da terra” no festival de 1980, Glauber ainda era muito procurado por jornalistas do mundo inteiro, em busca de entrevistas para jornal ou televisão. Não sei se chegou a colocar a idéia em prática mas, depois de um telefonema que não atendeu,  me disse irritado que era um homem pobre e estava pensando seriamente em cobrar por entrevista, que não ia mais “trabalhar de graça para jornalista nenhum”.
 
Entre os cineastas portugueses, de velhas ou novas gerações, ele era um mito e uma atração. A peregrinação à casa de Sintra era constante, embora nem sempre Glauber estivesse muito disposto a receber seus fiéis lusitanos. Às vezes, os peregrinos tomavam de volta um esporro fenomenal, por qualquer motivo que ocorresse ao mestre naquele momento. Só Paulo Rocha e José Fonseca, grandes cineastas e velhos amigos, tinham passagem livre ao templo cinematográfico de Sintra. O último, aliás, permaneceu sempre ao lado de Glauber, durante seus derradeiros dias de vida.
 
Paula tinha comprado uma Super 8 e filmava tudo o que acontecia, inclusive naquele fim de semana, pelo menos até que chegasse a hora de se retirar para cuidar das crianças. Foi deste material que ela selecionou as imagens para seu belo documentário, terminado em 2007, sobre Glauber e o período na cidade, chamado “Diário de Sintra”, um sucesso de estima no Festival do Rio daquele ano. Ele fazia caras e bocas para a câmera de Paula, inventava cenas com os meninos, improvisava grandes gestos, se divertia com a experiência da produção doméstica.      
 
Nos primeiros dias, pouco falamos sobre política brasileira. Mas havia um consenso, entre nós dois, de que o país caminhava com firmeza no rumo da democratização. Isso, para ele, já eram favas contadas, Glauber só se interessava pelo que iria acontecer depois. E ele tinha planos para esse depois, planos cinematográficos, culturais e também políticos, sempre baseados na nova civilização que haveríamos de fundar no Brasil. Quando Jorge e Ubaldo vieram de Lisboa, para almoçar e passar o dia conosco, esses planos ganharam nova dimensão, envolvendo até uma governança da Bahia, que Glauber reservava a um dos três, de preferência a ele mesmo. Jorge contava anedotas vividas em suas experiências políticas do passado, João anunciava o fim do mundo próximo com sua voz de pastor itaparicano, Glauber escolhia seu secretariado. Nós todos dávamos muita risada, nos divertindo com o infalível projeto de tomada do poder.
 
E como Glauber ria, nestes últimos dias em que o vi vivo! Aquele riso sonoro, frouxo e infantilmente malicioso de sua juventude, em que fechava os olhos e pendia a cabeça um pouco para a frente, balançando os ombros para cima e para baixo, se apoiando em quem estivesse mais próximo.
 
É claro que só o autor pode garantir isso, mas tenho a impressão de que essa obra-prima da literatura de língua portuguesa, “Viva o povo brasileiro”, teve uma de suas gêneses por ali, na excitação delirante dos três baianos, na imaginação caudalosa de seus sonhos, interrompidos pelas gargalhadas de auto-ironia, geralmente provocadas pelo próprio Glauber. De qualquer maneira, foi ali que Ubaldo me deu o recém-lançado “Livro de histórias”, que li de uma só vez, no avião de volta ao Brasil, e de onde tiramos, alguns anos depois, o filme “Deus é brasileiro”. Antes que voltasse a Lisboa, puxei Ubaldo num canto e ele me reiterou o que estava se passando com a saúde de Glauber, suas dores e vômitos, que me fizeram lembrar os mesmos sintomas de poucos anos atrás, quando acabou internado num hospital de Ipanema, onde então morava.
 
Durante a maior parte do longo fim de semana, conversamos sobre os amigos e companheiros, o velho Cinema Novo que Glauber insistia em manter vivo e ativo. Para ele, nós tínhamos que ser uma revolução permanente, extrapolando do cinema e da cultura para o poder político. Ele, o famoso brigão, exigia que não se brigasse mais entre nós, que voltássemos a ser a família que sempre fomos, era preciso evitar as fofocas do inimigo que estavam nos separando. E eu tinha sido um dos responsáveis, mesmo que involuntário, por alguns desses conflitos internos, quando três anos antes levantei a questão das “patrulhas ideológicas”. Ele concordava com o que eu tinha dito naquela entrevista de 1978,  como já repetira várias vezes publicamente; mas agora estava na hora de reconstruir as relações, retomar o movimento.
 
Na minha opinião, porém, era aí que estava o nó do problema. Com a Embrafilme tornando regular a produção de filmes e o fim da ditadura se aproximando, a tendência era não termos mais um projeto único e comum em torno do qual nos unirmos para construí-lo; nem termos mais um inimigo único e comum contra o qual sacrificarmos nossas individualidades, em nome de um esforço de unidade para sair de um estado de exceção. Numa democracia, cada um diz o que pensa e deve pensar de seu próprio jeito, o que provoca fatalmente conflitos e confrontos. Democracia não é mole! Isso nunca abalaria o que havia de eterno no Cinema Novo, o seu exemplo histórico. E tão pouco devia abalar a bela idéia de que o Cinema Novo, como Paulo César Saraceni decretara há anos, era antes de tudo uma questão de amizade. Isso, sim, era preciso preservar; mas por amor e não por conveniência.
 
Era impossível evitar que, durante esse simpósio íntimo de cinema e afeto, Glauber fumasse todo tipo de fumo. Nem eu estava ali para reprimi-lo. Mas não o vi tomando drogas pesadas, como antes e depois me diziam que estava acontecendo. Era o tabaco o que mais me preocupava. Ele fumava um cigarro atrás do outro, tossindo muito, escarrando um catarro escuro demais, reclamando de dores no estômago, como já me havia feito por carta e telefone, desde o fim do ano anterior. Seu entusiasmo mental estava em conflito com sua aparência abatida, seu corpo curvado, o evidente cansaço físico. 
 
No domingo, véspera de minha partida, Glauber convocou-me a um passeio por Sintra, coisa que ainda não tínhamos feito, eu não havia deixado a casa dele um só instante desde que havia chegado. Saímos com Erik, então com pouco mais de 3 anos de idade, para um café no Hotel Central, cenário de “O primo Basílio”, onde Eça havia morado. O Central se encontra diante da larga e majestosa Praça da República, o principal cartão postal da cidade, de onde se avista o magnífico Paço da Vila de Sintra, um castelo de arquitetura realenga, com intervenções mouras, góticas, manuelinas, renascentistas, sei lá mais o quê, ao longo de sua secular existência.
 
Naquela praça, Glauber se encontrara recentemente com o presidente Figueiredo, com quem se confraternizara numa cena que, transmitida pela televisão e registrada nos jornais do país, havia chocado a fina sensibilidade da esquerda brasileira. Quando, depois do café, ele decidiu que faríamos um passeio para que eu conhecesse um pouco da costa sul de Portugal, os taxistas, no ponto em frente ao hotel, disputaram sua preferência, chamando-o, com respeito e afeto, como quem se dirige a uma autoridade popular, de “senhor Rocha”. Glauber escolheu um deles, o que parecia mais íntimo, e partimos.
 
Subimos a serra íngreme de Sintra, enquanto Glauber fumava dentro do táxi, na maior intimidade com o motorista, de quem conhecia toda a história profissional e familiar. Um pouco mais velho do que nós, ele confirmava o que Glauber dizia e concordava com suas observações, algumas contendo censuras bastante críticas a propósito dos filhos do taxista. Sem muita disciplina ou ordem aparente, Glauber misturava essas anedotas privadas com suas obsessões públicas. Cabia a mim decifrar, como sempre tentei fazer, o que estava por trás dessa montagem estranha de palavras e idéias, de metáforas e metonímias acumuladas poeticamente, que para ele, no entanto, pareciam ter um sentido tão simples e claro.
 
E, como sempre naqueles dias, Glauber falava sem parar, como se há muito tempo precisasse dizer tudo aquilo a alguém, um conjunto de coisas, formando uma espécie de conspiração secreta para mudar o mundo, que devia ser transmitido ao conhecimento de todos. E estava otimista. Com ele mesmo e com o Brasil, objeto de sua angústia permanente.
 
A certa altura da estrada, num espaço vasto e deserto, diante de um selvagem promontório sobre o Atlântico, Glauber pediu ao taxista que parasse. Levando Erik pela mão, ele nos conduziu até a beira do precipício, onde o mar batia com fúria contra pedras, a uns cinqüenta metros de altura. Dali, se avistava o oceano sem fim, como se estivéssemos no próprio finis terrae. Ele apontou para o sul de toda aquela vastidão e disse, com certa solenidade: “Daqui saíram as caravelas para descobrir o Brasil”. Argumentei que devia haver um engano, as caravelas saíam da Torre de Belém, no rio Tejo, na base daquele promontório não havia nenhum cais ou ancoradouro, em tal geografia era impossível se construir um. Ele não deu a menor bola para os meus argumentos e insistiu no que me anunciava.
 
Com aquela presença física sedutora de sempre, me segurando pelo ombro, aproximando a boca de meu ouvido como se fosse contar um segredo e mantendo a voz alta, Glauber começou a me informar de seus planos para todos nós. “Seu próximo filme tem que ser sobre o quilombo dos Palmares. E diga a Nelson que ele tem que fazer ‘Memórias do Cárcere’, está na hora”. Assim, segundo ele, nós fecharíamos o circuito histórico. Nelson ia revelar e condenar a barbárie autoritária, que não podia nunca mais acontecer de novo no Brasil; e eu, sucedendo a essa informação, viria com a utopia do Zumbi, a de uma sociedade igualitária e livre, mas com identidade cultural original e bem definida. Ele me disse ainda que era preciso convencer Leon a fazer um filme sobre Canudos, recolocando em cena a tradição popular do campo, abandonada pela migração em direção às grandes cidades do país, onde se perdia o caráter. Enquanto Paulo César faria um grande musical romântico e orgiástico sobre o carnaval carioca, a Joaquim Pedro caberia realizar “Casa Grande & Senzala”, levando Minas para o coração de Pernambuco, construindo assim a ponte definitiva entre a cultura católica e o candomblé nordestino.
 
Sem que eu pudesse dizer uma só palavra, ia me transmitindo, com sereno entusiasmo e firme convicção, os recados que eu devia dar aos amigos, as missões cinematográficas que ainda tinha destinado a David Neves, Ruy Guerra, Gustavo Dahl e todos os outros. Para Luis Carlos Barreto, por exemplo, havia reservado o papel de senador da República. “No Senado”, ele me dizia, “Luis Carlos acaba presidente”. Não se tratava apenas de nossos destinos cinematográficos, mas também de um programa para nossas vidas pessoais, capaz de eliminar os limites entre o público e o privado. Eu, que estava solteiro há uns anos, deveria, por exemplo, voltar imediatamente com Nara, casar de novo com ela e, assim, “refazer a aliança entre o Cinema Novo e a Bossa Nova”.
 
(Não posso deixar de fazer um parêntesis na narração. Para meu espanto, quando vi “Terra estrangeira”, de Walter Salles, em sua estréia em 1995, desconfiei que o promontório sobre o qual Fernanda Torres e Fernando Alves Pinto se abraçam, no trecho português do filme, era aquele mesmo. Fiquei arrepiado quando, na mesma cena, o casal comenta a passagem por ali das caravelas do descobrimento, uma imagem muito parecida com aquela criada por Glauber naquele dia de 1981. Tentei descobrir com Walter se o promontório era o mesmo, mas é impossível confirmar isso, a não ser que eu vá lá vê-lo pessoalmente. Se um dia voltar a Portugal, é isso o que vou fazer).
 
No dia seguinte, no táxi com ele, a caminho do aeroporto de Lisboa, fiz mais uma, derradeira e violenta pressão para que Glauber voltasse já para o Brasil. Afinal, era aquela a minha missão ali. Pela primeira vez, ele concordou expressamente com a idéia, embora dissesse que ainda tinha umas coisas a resolver em Portugal e na Europa, uns compromissos que cumpriria logo. Depois voltava. Claro que não senti firmeza na promessa, mas insisti muito para que jurasse voltar e me dispus a, com nossos amigos comuns, preparar seu retorno. Na entrada do aeroporto, com minha mala na mão, me despedi dele depois de mais um acesso de tosse e de outra cusparada escura no chão. Me lembro perfeitamente de minha última frase dirigida a Glauber: “Você está com o humor e o ânimo que tinha quando éramos jovens, agora só falta cuidar da saúde”.
 
No Brasil, comecei a montar um dispositivo de pressão permanente sobre Glauber, um complô para sua volta imediata. Além da família e dos amigos em geral, acionei Eduardo Mascarenhas, seu psicanalista, e Pedro Henrique Paiva, o clínico que o atendia, nossos médicos queridos, que se dispuseram a preparar o que fosse necessário a seu tratamento. Mascarenhas chegou a falar com Glauber pelo telefone, perguntando por sintomas e expectativas, tentando descobrir, à distância, o que estava acontecendo com seu organismo.
 
Nossos telefonemas trans-atlânticos se tornaram mais constantes, mesmo depois que recebi a notícia de sua entrada num hospital de Lisboa, no início de agosto. Zé Fonseca, Jorge e Ubaldo, ao lado de Paula, cuidavam dele mas nos alertavam para o fato de que a barra estava pesada, era preciso fazer alguma coisa para obrigá-lo a vir se tratar no Rio. As notícias eram de que Glauber não obedecia aos médicos e cometia inacreditáveis transgressões com sua saúde, mesmo numa cama de hospital. Mas comigo no telefone, ainda que numa cama de hospital, fazia questão de me parecer sempre bem humorado e negava as más notícias, tratando-as como fuxicos irresponsáveis. Ele me dizia que estava se sentindo melhor, que tivera apenas uma crisezinha boba, logo estaria bom e, assim que deixasse o hospital, começaria a tratar de seu retorno.
 
Um pouco antes de internar-se no hospital, contei-lhe pelo telefone de meu namoro secreto com Renata, que estava começando. Ele era o primeiro amigo a tomar conhecimento do caso. Esse, então, passou a ser o assunto de seus próximos telefonemas. Embora nunca tivesse encontrado com Renata, Glauber conhecia bem Mitzi e Raphael de Almeida Magalhães, pais dela. Ele tinha sido uma de suas três opções para o papel que, em “Terra em transe”, acabaria sendo interpretado por Jardel Filho, depois das recusas de Tom Jobim, do jornalista Jânio de Freitas e do próprio Raphael. E Glauber agora insistia em saber se Renata era mais parecida com Raphael ou com Mitzi.
 
No dia 20 daquele mês, eu estava em Maceió, participando de um seminário sobre Palmares, quando recebi um telefonema de Celso Amorim, presidente da Embrafilme. Glauber estava com uma septicemia generalizada e ia embarcar imediatamente para o Brasil, em estado semi-consciente. Era melhor eu voltar correndo para o Rio, o mais depressa possível. Ainda cheguei a tempo de vê-lo pela última vez, num momento em que Pedro Henrique Paiva julgou conveniente deixar-nos entrar no quarto do hospital, para nos despedirmos dele. Glauber me olhou com os olhos semi-abertos, certamente sem plena consciência do que estava acontecendo. Ele tentou sorrir e me chamou de “mestre”, como costumava fazer quando queria agradar alguém, com uma voz lenta e muito baixinha, de cansaço infinito. Tinha 42 anos e era o melhor de todos nós.
 
 
Volta