Publicado no jornal "O Globo", em 11 de maio de 2003
Um ponto final
Carlos Diegues
Quem me conhece sabe como foi longo e doloroso meu processo de decisão para dar aquela entrevista. Não a dei em nome de ninguém, a não ser no meu próprio. Não represento ninguém, não pertenço a partido algum, não tenho mandato de nenhuma entidade de classe para falar por ela. E nunca afirmei o contrário. Mas, se meu desabafo estritamente pessoal repercutiu daquele jeito, foi porque ele certamente deu voz ao que estava reprimido no coração de muita gente.

Dei a entrevista em nome da liberdade de expressão e no do respeito à minha atividade, em nome de sua dignidade, de seu valor em si. E voltarei a fazer isso, como já fiz no passado, sempre em meu nome pessoal e quando eu mesmo julgar necessário. Mas, tanto na própria entrevista como em declarações decorrentes dela, na reunião com o ministro Gushiken e na assembléia geral no Teatro Leblon, repeti que é preciso também reformar o sistema de incentivos fiscais vigente. Sobretudo, no caso do cinema, em relação à democratização e regionalização dos investimentos, às relações com a televisão, à implantação de um circuito popular, ao gargalo da distribuição e a outras mudanças necessárias.

Na presença do ministro Gushiken, por exemplo, denunciei o absurdo de a lei ter permitido que empresas privadas aplicassem incentivos fiscais em seu próprio benefício, através de gigantescas fundações, projetos de merchandising disfarçados em festivais de música, espetáculos ornamentais que nada têm a ver com cultura e outras aberrações que interromperam o investimento na produção independente. Sendo esse o principal motivo pelo qual toda a produção independente está, hoje, dependendo exclusivamente de recursos das estatais, pendurada nelas. (Aliás, aproveito o assunto para declarar que não tenho nenhum projeto em tramitação em qualquer empresa estatal, não posso ser acusado de lobby ou de ação em proveito próprio, pois não tenho nada para vender a elas.)

Para fazer mais curta uma já curta história, o governo agiu rápido e, graças à autoridade, à sabedoria e ao espírito público do ministro Luiz Gushiken, que promoveu a conciliação, as regras ameaçadoras foram suprimidas e a condução da política cultural voltou a ser de exclusividade do Ministério da Cultura. O grande vencedor desse episódio, o responsável pelo seu final feliz, é o próprio governo do presidente Lula, que teve grandeza e espírito democrático para rever e corrigir o rumo de um equívoco.

Paixões à parte, o resultado disso tudo é que, a partir de agora, a política cultural e a do cinema em particular serão passadas em revista através de um foro de discussão com os diferentes setores da produção, no seio do Ministério da Cultura, sua única instância legítima, tanto porque é assim que está escrito em nossa Constituição, quanto por mérito e qualificação do Ministro que lá está. Quem pode ser contra isso?

Todo esse processo foi acompanhado pelas entidades de cinema, as mesmas que devem agora se organizar para participar do foro de discussão no MinC. Quase todas elas (talvez todas) estavam presentes à assembléia geral do Teatro Leblon, onde, na presença de cerca de 400 artistas e intelectuais, além dos representantes da Secom e do MinC, foi aprovado e celebrado esse final feliz. Lá estavam a presidente do CBC (sentada à mesa), quase toda a diretoria da ABRACI, do SICAV, o presidente da ABD (que usou da palavra em nome dela), além de representantes de inúmeras outras entidades de todas as atividades culturais. Se alguns cineastas insatisfeitos não sabem disso, talvez seja por não estarem acompanhando suas entidades tão de perto como deviam. O que não é culpa de ninguém.

De minha parte, fiz questão de, durante todo esse processo em que me envolvi involuntariamente, manter contato com os dirigentes das entidades, pessoalmente ou através de e-mails, a fim de que eles participassem, se manifestassem e sobretudo se preparassem para o futuro, o foro de discussão no MinC. Eles são testemunhas de que, com esse resultado, eu considerava meu papel nisso tudo encerrado. É decepcionante verificar que cineastas tão ligados a alguns desses dirigentes e outros que participaram diretamente dessas manifestações tenham assinado o tal manifesto que nos coloca, a todos, em estado de desconfiança.

Não entendo muito bem o sentido desse manifesto, se bastava ter comparecido à assembléia geral ou ter se informado de seu resultado para tomar conhecimento de que as entidades saíram fortalecidas, como nossas legítimas representantes, nas decisões a serem tomadas pelo MinC, em cujo foro todos têm o direito de se manifestar, como numa democracia de verdade, através delas ou em seu nome pessoal. Mesmo aqueles que gostam de trabalhar debaixo de chicote poderão ir lá defender seus grilhões. Só posso atribuir a insatisfação do tal manifesto à má informação ou à eterna paranóia que, combinada com rancores e superstições, faz de nossa atividade um cansativo processo de permanente autodestruição.

Eu já disse tudo o que tinha a dizer nesse episódio, dou por formalmente encerrada minha participação nele. Aviso aos interessados que não vou responder a manifestos, ataques pessoais, artigos enfurecidos, cartas abertas ou fechadas, não tenho mais nada a dizer sobre nada disso. A hora agora é de trabalhar. Em vez de inventar conspirações e atribuir a colegas manobras delirantes, os cineastas devem se organizar em torno de suas entidades, formular propostas e fornecer elementos, preparar-se para o longo e difícil trabalho que teremos pela frente, no foro do MinC. Um trabalho que vai exigir de nós muita tolerância, paciência e obsessão, como não me canso de repetir.

Tenho certeza de que o país vai crescer, estamos às vésperas de um novo tempo de modernização e desenvolvimento. Para acompanhar seu impacto, vamos precisar de uma cultura poderosa, rica, complexa, variada, como somos nós e o país em que vivemos. E não de uma culturazinha instrumentalizada por burocratas, apequenada por regras de submissão a interesses alheios à sua natureza. De minha parte, quero colaborar com esse tempo e me preparar com grandeza para a grandeza dele. Paz e amor, também no cinema e na cultura.

Não represento ninguém, não pertenço a partido algum, não tenho mandato de nenhuma entidade de classe para falar por ela. E nunca afirmei o contrário.

Dei a entrevista em nome da liberdade de expressão e no do respeito à minha atividade, em nome de sua dignidade, de seu valor em si.
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