Três vezes cinema

Três vezes cinema

                         Carlos Diegues

 

 

 

 

1.   Eu devia ter uns cinco ou seis anos de idade quando fui pela primeira vez ao cinema, na pequena cidade de Maceió, onde nasci, no nordeste pobre do Brasil. Fui levado por uma tia da família de meu pai, uma mulher solitária para quem o cinema era uma das poucas diversões que lhe eram permitidas pela sociedade provinciana cheia de preconceitos. O acesso à sala de exibição se dava pelo lado da tela; de maneira que, ao entrar, me vi subitamente sufocado pela luz daquela imagem enorme, descomunalmente desproporcional aos homens e ao mundo que eu conhecia. Não tenho idéia de que filme estava passando, mas lembro bem das figuras em preto e branco, como se fossem reis majestosos, uma cenografia e um figurino à moda de “Ivan o Terrível” (mas é claro que, pela data do acontecimento, não podia ser o filme de Eisenstein). Devo ter ficado paralisado diante da tela gigantesca e suas imagens suntuosas, porque minha tia me puxou para as cadeiras, tentando evitar que eu escapasse a seus cuidados, e me disse, para impedir qualquer travessura minha: “Não bote a mão aí que ela fica presa na tela”. A minha ficou lá, para sempre.

 2.   Quando, em 1958, entrei para a Universidade Católica do Rio de Janeiro, já fazia meus filmezinhos em 16mm, numa pequena câmera Paillard-Bolex de corda (cada plano não podia ter mais que 30 segundos) que pertencia a meu vizinho, amigo e grande cineasta David Neves. Eu freqüentava com grande assiduidade as sessões da Cinemateca do Museu de Arte Moderna, toda segunda-feira, às seis horas da tarde. Os filmes terminavam mas as conversas sobre eles continuavam pela noite afora, pelos bares e ruas da cidade, na sopa primal que daria origem ao que mais tarde, naqueles dias agitados e esperançosos da vida cultural e política brasileira, entre o final dos anos 1950 e o início dos 1960, seria chamado de Cinema Novo. Nós tínhamos certeza de que nossos filmes nunca tinham sido feitos antes e nosso programa era muito simples, tinha apenas três pontos: mudar a história do cinema, mudar a história do Brasil, mudar o mundo. Um dia, nós acordamos e havia uma ditadura militar instalada no país, pronta para frustrar todas essas expectativas. Mas a ditadura acabou e nossos filmes ficaram. Tenho muito orgulho de ter participado disso tudo, sinto-me um homem de sorte por ter conhecido e convivido com aquelas pessoas tão brilhantes e generosas. Nunca fomos tão felizes.

 3.   A história do cinema no Brasil é mais que centenária embora não seja fluente, pois ela se interrompe diversas vezes, vivendo de ciclos que se abrem com grande euforia para se encerrarem súbita e melancolicamente, quase nunca por culpa dos cineastas. Mas alguma coisa de novo está acontecendo no cinema brasileiro de hoje, a partir de uma lei eficiente mas insuficiente (a Lei do Audiovisual, de 1994), remendada e completada ao longo desses últimos anos. E principalmente graças a uma nova geração de cineastas que tem garantido uma qualidade que se baseia, antes de tudo, no caráter pessoal de cada filme e, portanto, na conseqüente diversidade de nosso cinema. Num país como o Brasil, é preciso dar voz no cinema a todas as camadas da sociedade, a todas as tendências, gerações, regiões, etnias, a todo tipo de manifestação artística, venha de onde vier. E é preciso ocupar todas as telas. Devemos a essa nova geração o ressurgimento do cinema brasileiro e a força de sua qualidade artística. Tenho esperança de que talvez isso não seja apenas mais um ciclo, mas a consolidação do cinema como uma atividade permanente em nosso país.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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