"O passageiro" - Um dia como todos os outros.

“O passageiro” – Um dia como todos os outros.

Carlos Diegues

    É uma tradição da arte  moderna se dedicar mais às vítimas que aos algozes. O cinema brasileiro contemporâneo não foge dessa regra e seus jovens cineastas têm feito belos e contundentes filmes em áreas temáticas e geográficas que destacam a miséria, a injustiça, o abismo social que varre o país de norte a sul, sob diferentes aspectos.

  Mas, de vez em quando, um de nossos filmes faz o cruzamento deste abismo, estabelece uma ponte entre os extremos, tenta desvendar a humanidade que se encontra no topo da pirâmide. “O passageiro”, de Flavio Tambellini, é um desses raros filmes.

   Embora não tenha a intenção de discutir a organização social do país, nem fazer a sociologia dos ricos, “O passageiro” penetra de tal forma em sentimentos e intenções pouco tratados em nosso cinema que acaba por iluminar um canto escuro de nossa dramaturgia. Como se fosse um herdeiro de “Ravina” ou ainda um temporão de “A casa assassinada”.

 

  Baseado no inspirado romance de Cesário Mello Franco, o filme de Flavio Tambellini olha para o mundo adulto com o olhar adolescente de seu personagem principal. Primeiro, com revolta; depois, como descoberta. 

 A adolescência é o tema central desse belo e discreto filme, mas não a adolescência eufórica de nossos comerciais de verão. Aqui, trata-se da adolescência como uma passagem dolorosa ao mundo adulto, a troca das rigorosas ilusões éticas pela compreensão da condição humana, do sonho de perfeição pela tolerância ao imperfeito de nossa natureza.

  Descobrimos, ao acompanhar o jovem herói de “O passageiro” (o excelente estreante Bernardo Marinho), nossa própria superficialidade no julgamento do outro, nossa arrogante ignorância a propósito do próximo. A partir de inesperadas revelações sobre o núcleo familiar (pai, mãe e amante), o que nos surpreende é a incerteza e a imprecisão do mundo à nossa volta.

Delicado e elegante, “O passageiro” é um filme de uma encenação serena, em contraste com a explosão do que acontece entre seus personagens, como se Tambellini estivesse procurando controlar o desentendimento entre eles. Por causa dessa escolha de encenação e seu método, esse desentendimento não se passa no universo das vertigens histéricas, típicas do melodrama convencional. Ele é apenas um ponto de partida para pensarmos o mundo.

Este é um filme raro e necessário no cinema brasileiro de hoje, um filme carinhoso mas não piedoso, cheio de sentimentos mas sem demagogia, compreensivo mas não complacente, capaz de revelar a dor do presente sem eliminar o horizonte do futuro. Um filme onde seu herói termina sereno sua trajetória dramática, na varanda de sua casa, diante de mais um dia que nasce como todos os outros.

CD, janeiro 07

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