Publicado no site de Carlos Diegues em Julho de 2006
Sobre O Maior Amor do Mundo
Carlos Diegues
"The brain is wider than the sky
For put them side by side
The one the other will contain
With ease and you beside"
(*)

Emily Dickinson

Mesmo no mais rigoroso e severo estilo de documentário possível, um filme não é nunca uma reprodução do mundo. Ele será sempre, em maior ou menor medida de sinceridade e acerto, uma reprodução da relação entre alguém (os que fizeram o filme) e o mundo.

"O Maior Amor do Mundo" é um de meus raros filmes escritos apenas por mim mesmo. Entre a concepção de seu roteiro e o início das filmagens, não se passaram mais do que uns 18 meses. O que me permite dizer que este é um filme instantâneo - que aliás tem como um de seus fundamentos o tema do instante, da importância do instante por mais breve que ele seja.

Podemos dizer também que se trata de um road movie pelas quebradas do Rio de Janeiro, um reencontro com esse espaço geográfico e humano com que vivo me confrontando e que re-descubro a todo momento. Ou ainda que este é um road movie através do coração. Nos dois casos, um filme de estrada vive basicamente de instantes indispensáveis que não se repetem e nem sempre se relacionam entre si.

A estrada é o lugar do encontro com o outro, de sua revelação e das emoções que ele pode despertar em nós. Esse filme é portanto uma espécie de catálogo de sentimentos, daquilo que experimentamos quando nos vemos diante da mãe ou do pai, do amor ou do amigo, do perseguido ou do perseguidor, do outro em qualquer uma de suas manifestações. A possibilidade de harmonia entre os homens está na descoberta de que poderíamos ter sido esse outro. Ou de que nós somos o outro do outro.

Em "O Maior Amor do Mundo" um homem passa a vida a olhar apenas para o céu, dedica-se ao controle das leis que regem o universo e, para ser bem-sucedido em seu projeto, evita os sentimentos e suas imperfeições, ignora o que se passa a seu lado, sobre a terra onde ele pisa. E por ignorar o mundo, perde sua vida.

De certo modo, esse filme se opõe ao fanatismo iluminista, a essa idéia de que a razão absoluta será um dia capaz de tudo pôr sob seu controle, como se fôssemos travestis de Deus. Ao contrário, desde Darwin sabemos que somos mesmo bichos como os outros e nunca deixaremos de sê-lo. Muitas vezes, alguns dos melhores momentos de nossas vidas, momentos de imensa e inesquecível felicidade, nós tiramos é dessa condição mesma de bichos, de nossos corpos e mentes de bichos.

Mas somos bichos muito especiais porque, embora a natureza não tenha nenhum projeto para nós, sofremos a maldição da consciência de estar no mundo e, com ela, o desejo pervertido de mudá-lo. Ainda segundo Darwin, as espécies só se reproduzem porque têm uma esperança de felicidade no horizonte; se não a tivessem, se negariam a reproduzir. É desse otimismo trágico que podemos construir uma nova alegria de viver.

Cacá Diegues
Julho 2006


(*) Em tradução livre: "A mente é mais vasta que o céu, pois postos lado a lado, uma facilmente conterá o outro, além de você."
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