Setembro 2006
Uma polí­tica mais humana
Cacá Diegues

Costumo dizer sempre que o programa do Cinema Novo, o movimento de cineastas de minha geração que fundou o cinema moderno no Brasil, a partir do final dos anos 1950, era muito simples. Nós tínhamos apenas três objetivos: mudar a história do cinema, mudar a história do Brasil e mudar a história do planeta. E acreditávamos que isso ia acontecer logo, assim que começássemos a fazer os nossos filmes.

Quando éramos jovens e desejávamos que o mundo fosse outro, acreditávamos que a história era um trem sobre trilhos, que avançava numa direção precisa e inexorável. Nosso papel seria apenas o de fazer esse trem correr mais rápido. Hoje sabemos que a história não passa de uma senhora bêbada, tropeçando em zigue-zague por aí, não podemos contar muito com ela.

O estado do mundo não nos encoraja a pensar a política como já a pensamos um dia, como se fôssemos escoteiros do destino, bem ou mal intencionados, conforme o partido que escolhemos, em nome da simples luta pelo poder. O espaço da discussão política deve se aproximar cada vez mais do que é básico para o ser humano. Ele começa no sentido de nossa própria vida, do que fazemos dela e da de nossos semelhantes, dentro de nossa própria casa ou na comunidade em que vivemos.

Como disse o cineasta Hou Hsiao Hsien, devemos fazer filmes para arrancar a história das mãos dos políticos.

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