4/09/06
A voz do Brasil
CD

A música popular brasileira ocupa um lugar nobre na arte e na humanidade do século XX. Um país capaz de produzir objetos artísticos como os de nossa música não pode estar destinado a uma cultura medíocre, a um papel qualquer no conjunto das nações. Dos primeiros sambas ao hip-hop, o que aconteceu na criação musical brasileira foi uma corrente de invenções variadas, um desfile de atalhos e desvios que construíram uma tradição de riqueza já secular, de norte a sul do país.

O cinema brasileiro não poderia ficar alheio a isso. Ou, se ficasse, estaria abrindo mão de uma fonte inesgotável de suporte e de inspiração. Sobretudo se estivermos pensando num cinema que se deseje efeito e luz de seu povo. Acho que compreendemos isso melhor quando ouvimos cantar, em “Rio 40 Graus” (Nelson Pereira dos Santos, 1956), os versos de Zé Kéti de uma maneira programática, quase como num manifesto: “Eu sou o samba, a voz do morro sou eu mesmo, sim senhor”.

Minhas relações com a música brasileira começaram desde muito cedo, através do amor de meu pai pelos discos de Caymmi, pelas canções de Ary Barroso, pelas peças de Hekel Tavares que ele me levava para ouvir na casa do compositor, seu amigo. E também pela voz afinada de minha mãe a cantar os sucessos de Augusto Calheiros e os cantos melancólicos das festas populares de Alagoas.

Na juventude, tive a sorte e o privilégio de ter sido contemporâneo da Bossa Nova, de ouvir Johnny Alf e Tom Jobim nos bares de Copacabana, escondendo a idade para poder entrar naquelas capelas de culto à música mais moderna do século XX. Depois nos tornamos uma turma só, a da Bossa e a do Cinema Novo, junto com tantos outros bandos que iam surgindo na poesia e no teatro. Namorávamos uns aos outros, as canções e os filmes, os homens e as mulheres de ambas as seitas de uma mesma religião.

Quando comecei a fazer meus filmes, comecei por chamar o grande maestro Moacir Santos para criar a trilha de “Ganga Zumba” (1963). Não era pouco, a trilha fez história, suas canções são tocadas até hoje. Depois trabalhei com o que havia de melhor na música de minha geração: Chico, Menescal, Ben Jor, Gil, Rita, Milton, Caetano. Além de referências e fonogramas que vão de Ernesto Nazareth a Villa Lobos, de Orlando Silva a Roberto Carlos, de Nelson Sargento ao AfroReggae.

Para “O maior amor do mundo”, chamei Chico Buarque para escrever a música original do filme. Decidi convidá-lo quando ainda estava escrevendo o roteiro e me ocorreu a pretensão de imaginar que, se Chico fosse cineasta, faria provavelmente um filme mais ou menos como esse.

Minha única virtude nisso tudo é apenas a de saber escolher o compositor e, em seguida, saber pedir a música conveniente ao filme. O resto é só com eles mesmos, alguns dos maiores gênios da arte brasileira de todos os tempos, dos quais me foi dado o privilégio e a responsabilidade de ser contemporâneo. E, ainda por cima, amigo.

CD, Rio, set 06 

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