Escrito em setembro de 2001
O povo nas telas e nas salas
Carlos Diegues
Antes do universo simbólico de sociedades, cidades ou nações, existe o indivíduo, a única coisa concreta em que podemos tocar, o que não se divide, o que é único. Unidos por um certo número de valores comuns, cada um de nós se destaca pela experiência que julga só sua, incomparável, ainda uma vez única. A graça (nos dois sentidos) do cinema, ou pelo menos do melhor cinema que se conhece, foi sempre saber chegar a essa exceção repartida, saber identificar o que é de todos, sendo expresso por um só. Como dizia Nelson Rodrigues, ironizando a arte engajada dos anos 1960, baseada sempre no conflito de classes, toda a humanidade é pequeno-burguesa.

"2000 Nordestes", filme de Vicente Amorim e David França Mendes, é um extraordinário documentário sobre um certo povo brasileiro, em que esse interesse perfunctório pelo indivíduo aparece de uma forma surpreendente e radical. Não é mais o documento piedoso sobre a miséria de uma região, o desabafo da boa consciência culpada, mas um canto de cumplicidade e adesão a rostos e costumes, idéias e modos de vestir, dançar, trabalhar, amar. Por trás da câmera, não estão mestres-de-tudo dispostos a indicar-lhes o caminho de uma eventual redenção social, guias iluminados de seu futuro, mas seres humanos tomados de curiosidade pelo que não conhecem e, o que é mais importante, tomados de amor pelo que filmam. A realidade não é somente aquilo que queremos ver no que vemos, mas alguma coisa a mais que só podemos decifrar com a ajuda de quem a vive. Ou, como se diz no filme, "o que era uma realidade, não é mais uma realidade".

A piedade é uma virtude abjeta, fruto de nosso sentimento de superioridade sobre o outro, a confirmação dessa superioridade que só nos conforta a nós. Ela se contrapõe à idéia teológica de compaixão, ou seja, a de solidariedade na dor, cumplicidade na trajetória do outro, paixão compartilhada em seu destino. E piedade é também o que não existe em outro grande filme brasileiro em cartaz (além de "Bufo & Spalanzani", "Bicho de sete cabeças", "Copacabana", "Memórias Póstumas" e outros, a safra é boa).

Trata-se de "Domésticas", de Fernando Meirelles e Nando Olival. Aqui, é o mundo das empregadas domésticas, essa desprezada instituição tão brasileira, que ganha rostos, físicos precisos, personalidades complexas, biografias. Com um humor quase documental, essa narrativa de alta ficção nos faz penetrar no coração de um mundo que julgávamos conhecer, nos aproxima de pessoas únicas, nos faz descobri-las com uma emoção que não é nunca demagógica, que parte do que está fisicamente na tela. Como no outro filme, essa teia é tecida a partir dos próprios personagens; mas, no caso desse filme, enredados numa moderna, sofisticada e muito pouco convencional estrutura dramatúrgica que nunca é gratuita ou aleatória.

Em ambos os filmes reconhecemos dois pares de jovens realizadores, um do Rio e outro de São Paulo, que tratam o cinema com alegria criativa, que fazem seus filmes com enorme prazer em usar esse meio, inventando soluções pessoais de estilo e narração, usando a tecnologia mais moderna sem exibicionismo ou arrogância. "2000 Nordestes" não seria possível sem o uso da câmera digital, como em "Domésticas" brilham os mais belos e eficientes time lapse, motion control e todo um repertório da gramática contemporânea do cinema. E, em potencial no primeiro e de fato no segundo, que grandes e inigualáveis atores e atrizes! Em ambos os casos, a tecnologia e o talento estão a serviço do respeito e do amor pelo que é filmado, em nome da lógica maior do cinema - conhecer o outro.

Os responsáveis pela difusão desses filmes os condenaram a alguma coisa muito parecida com um gueto sofisticado, poucas telas nas zonas de elite de nossas cidades maiores e mais "progressistas". É espantoso que eles não tenham compreendido seu caráter popular, mesmo que nada tenham a ver com a fórmula eterna da chanchada ou com a moda da comédia romântica, pois inauguram uma nova e original forma de se dirigir ao grande público falando justamente dele. Ou então é inquietante que, compreendendo isso, não tenham tido a compreensão e a cumplicidade de distribuidores, exibidores e da própria imprensa para fazer desses filmes o acontecimento popular que eles mereciam ser. E são. Filmes como "2000 Nordestes" e "Domésticas" talvez estejam estabelecendo novos padrões, apontando uma nova direção para o cinema como arte popular em nosso país, com o povo presente nas telas e nas salas
Volta