Confetes de luz 1 – 21/08/06
"Por um novo humanismo"
Carlos Diegues


“O maior amor do mundo” é também um filme sobre a imperfeição humana e a inevitabilidade dela. Estamos sempre contemplando Deus como um projeto de perfeição humana, um padrão de excelência que almejamos alcançar. Passeamos pelo mundo como travestis de Deus ou do que pensamos que Ele (nós) deveria(mos) ser.

Todos os humanismos conhecidos, dos mais antigos aos mais recentes, terminam sempre com o triunfo final desse homem divinizado sobre um mundo perfeito, sob seu controle absoluto – o paraíso ou a parusia, a sociedade sem classes ou o pleno auto-conhecimento, o domínio sobre a natureza ou a harmonia com ela. 

Como a perfeição não faz parte da condição humana nem está na natureza, acabamos sempre frustrados. E a frustração faz da história do pensamento humano uma história monótona de migração de uma idéia para outra, de um projeto para outro, em busca do que nunca teremos ou seremos.

É preciso construir hoje a possibilidade de um novo humanismo não-triunfalista, admitir que nem tudo avança sempre em linha reta, que nada termina sempre como previsto. É preciso reconhecer as imperfeições humanas como condição de nossa existência e, também, como fonte de algumas de nossas melhores virtudes. Como a fraqueza do amor, por exemplo, que só pode surgir da imperfeição. É preciso aprender a conviver com ela. 

O cinema é um mecanismo do imaginário humano que nasceu dessas dúvidas, na medida em que ele organiza as imagens e os sons do mundo imperfeito e muitas vezes insensato que está diante de nós. No cinema, não existe o álibi da ambigüidade literária, nem o da abstração da música. Ele é a reprodução do que pensamos do mundo, nosso confronto com o que chamamos de real. 

Os melhores filmes contemporâneos se nutrem dessa angústia. Meus filmes, desde sempre e cada vez mais, participam dela. Creio que “O maior amor do mundo” é, antes de tudo, um exemplo disso.

21 ago 06

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