Comentário para a TV Multishow, em julho de 2005
"Jogo Subterrâneo"
Carlos Diegues
Não deixe de ver "Jogo Subterrâneo", um filme brasileiro de Roberto Gervitz.

Roberto Gervitz fez seu primeiro filme, "Feliz Ano Velho", baseado no romance de Marcelo Rubens Paiva, em 1988. Mas, apesar do sucesso de "Feliz Ano Velho", só agora, 17 anos depois, aos 47 anos de idade, ele realiza seu segundo filme, esse brilhante "Jogo Subterrâneo".

Este é um triste exemplo da falta de fluência histórica do cinema brasileiro que, apesar de surtos explosivos que provocam tanta admiração, ainda não é um atividade permanente em nosso país.

Estes surtos, como a chamada "retomada" desses últimos dez anos, só confirmam a imensa vocação do Brasil para o cinema. Mas, como são apenas surtos cíclicos, servem também para nos provocar um sentimento de injustiça e de desperdício, quando constatamos, por exemplo, que um cineasta da qualidade de Roberto Gervitz ficou tantos anos sem fazer um novo filme.

"Jogo Subterrâneo" é baseado num conto de Julio Cortázar, o escritor argentino que tanto influenciou o romance francês da segunda metade do século 20, e cuja obra serviu também de inspiração a outros grandes cineastas, como Michelangelo Antonionni, em "Blow Up", e Jean-Luc Godard, em "Week End".

Na adaptação de Gervitz, "Jogo Subterrâneo" conta a história de um pianista de bar, um artista sensível e melancólico, que inventa um jogo fantástico para encontrar a mulher de sua vida. Ele passa os dias viajando pelo metrô de São Paulo, tentando adivinhar o nome e o destino das mulheres pelas quais se interessa. Traído pelo acaso e pelo inesperado, ele acaba vivendo uma profunda e muito dramática história de amor com alguém que não se enquadrava em seu jogo.

Um filme inteligente e brilhante, com um belo trabalho de fotografia e câmera do mestre Lauro Escorel, "Jogo Subterrâneo" tem uma construção narrativa ao mesmo tempo geométrica e fantástica, onde os pequenos detalhes da encenação fazem a sua grandeza às vezes enigmática. As excelentes interpretações de Felipe Camargo e Maria Luiza Mendonça colaboram para a intensidade desse filme, filho da melhor tradição de um cinema existencial paulistano, de "Noite Vazia" a "Coração Iluminado".

"Jogo Subterrâneo" merece ser visto por você.
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