Escrito em dezembro de 2000
"Eu Tu Eles": uma ponte sobre o labirinto
Carlos Diegues
Este ano de 2000 confirmou a mais bela tendência do novo cinema brasileiro - a da multiplicidade de alternativas, essa polifonia sincrética que deseja dar conta de tudo pelas suas partes. À exceção dos Estados Unidos, é claro, e depois da entropia cinematográfica da Itália, talvez o Brasil seja o único país do Ocidente com esta vocação. Potencialmente, talvez sejamos a única cinematografia ocidental capaz de render a sucessão de Hollywood e fazê-lo de uma maneira mais generosa e mais humana. Mas isso é apenas uma vocação, não sei se ela vai se cumprir, depende de tanta coisa objetiva.

A absoluta hegemonia americana fez com que todos os países do mundo acabassem por ter dois cinemas nacionais - o seu próprio e o americano. E é tal a força popular deste, seu vastíssimo alcance cultural, que o outro acaba se transformando num gênero especial, condenado a um gueto em seu próprio mercado. Assim, a maioria dos cinemas nacionais é tratada, por seus próprios concidadãos, como uma intrusa ou como fenômeno "cult" ou ainda, como diz Gustavo Dahl, como um segmento "classic" da atividade em geral.

Mas, no Brasil, por condições muito especiais, a vocação de nosso cinema não é essa. Ou, pelo menos, não estamos previamente condenados a isso. E nossa produção de 2000, ainda pequena para o tamanho do país, revela com muita propriedade essa pluralidade audaciosa, essa ambição de dar conta de tudo, de fazer um cinema capaz de reproduzir as diferentes faces do real, ao mesmo tempo que expressa o desejo de moldar esse real a um projeto de comportamento.

Entre tantos e distintos filmes desse ano, como "Estorvo", "Villa Lobos", "O Auto da Compadecida", "Bossa Nova", "Cronicamente Inviável", "Hans Staden", "Santo Forte", "Amélia", etc., "Eu Tu Eles" se destaca por sua originalidade como ponte lançada entre tantos e distintos mundos.

Quando se fundou o cinema moderno no Brasil, a partir do final dos anos 1950, praticamente 80% de nossa população vivia no campo, éramos portanto um país eminentemente rural. Nessa época, no entanto, os filmes abordavam o sertão como o lugar da dor e do sofrimento, o lugar da tragédia brasileira por excelência. A esperança de mudança, a luz no horizonte, o desejo de transformação, estavam nas cidades. Embora pobres, as favelas, por exemplo, eram o espaço onde o futuro estava sendo construido.

Hoje, mais de 40 anos depois, quando a população brasileira se tornou majoritariamente urbana (segundo o Censo deste ano, 82% dela estão na cidade), os filmes inverteram essa tendência: enquanto o inferno está na violência, na miséria, no caos moral, na exclusão social das cidades, eles buscam no sertão o lugar da harmonia, dos sentimentos e da ética, da doçura dos valores familiares.

É como se, exilados na grande cidade, os meninos de "Vidas Secas", aqueles que olhavam para a desolação da paisagem sertaneja e sussurravam a palavra "inferno", fossem levados de volta ao seio familiar em "Central do Brasil", em busca de algo que ficou perdido no violento trajeto de modernização pelo qual passou o país.

"Eu Tu Eles" reflete uma aspiração de ponte entre aquela tradição e este agora, entre a iconografia de nosso cinema revolucionário e a dramaturgia modernizadora da televisão, entre a marca de reivindicação social e a condição humana do indivíduo, entre o que é e o que deve ser, refazendo o labirinto de alternativas cinematográficas que se estende entre esses dois tempos dos quais os citados "Vidas Secas" e "Central do Brasil" são marcos luminosos, obras-primas indispensáveis a seu entendimento. De todo modo, "Eu Tu Eles" aponta para um futuro em que cada filme brasileiro seja ao mesmo tempo irreprodutível e exemplar, resultado de uma experiência única e estímulo à construção de uma experiência comum. Ou seja, um grande e admirável filme, pedra-de-toque de um cinema brasileiro contemporâneo como representação do país.
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