Discurso de Paraninfo do Curso de Audiovisual da CUFA (Central Única das Favelas), em 18 dezembro 2004
Curso de Audiovisual da CUFA (Central Única das Favelas)
Carlos Diegues
Eu me orgulho muito de ser um cineasta brasileiro, é uma das coisas de que mais me orgulho na vida. Um orgulho que renovo agora, diante de vocês que estão concluindo esse curso da CUFA. E gostaria de dividir esse orgulho com vocês.

Quando dei a aula inaugural desse curso que agora se encerra, fiz questão de começá-la lembrando que, como poucos sabem (porque não é ensinado), o cinema brasileiro, hoje mais do que centenário, é um dos mais antigos do mundo.

Mas o cinema brasileiro sempre viveu de ciclos e nunca foi uma atividade permanente no país, nunca teve uma história fluente. Esses ciclos, ao longo desses mais de cem anos, sempre se abriram com a euforia provocada pela qualidade dos filmes e acabaram sempre se encerrando subitamente, por razões econômicas, políticas ou institucionais, quase nunca por responsabilidade dos próprios cineastas.

Um país sem cinema, é como uma casa sem espelho – nós nunca veremos nosso rosto, nunca saberemos quem somos de fato. Portanto, se o cinema é o espelho de um país, o nosso foi sempre um espelho partido, tentando nos mostrar, apesar de tudo, a verdade.

A verdade nem sempre é o que gostaríamos de ver. Mas é o que somos obrigados a registrar para sabermos exatamente como somos, mesmo que seja desagradável tomarmos conhecimento disso.

Mas essa capacidade de nos criticarmos, de sabermos a verdade sobre nós mesmos, não vale de nada se não formos igualmente capazes de auto-estima, de sabermos reconhecer o que valemos, o que merecemos ser e ter.

Como cineastas, temos a obrigação moral de mostrar a verdade, o dever de dizer como o mundo é. Mas, como artistas e cidadãos, temos também o direito essencial de dizer como gostaríamos que o mundo fosse e disso não devemos nunca abrir mão.

É claro que escolhemos fazer cinema, em primeiro lugar, por amor ao cinema. Como todo amor, esse nem sempre se explica, ele é uma relação de desejo e compromisso com a coisa amada, com o seu bem e a sua preservação.

E, como no amor, fazer um filme é um ato que só se completa plenamente quando todos nele envolvidos sentem prazer, dos que o fazem aos que o assistem.

Não se faz um filme sozinho e nem para ninguém. Seja qual for o destino de nossos filmes, eles serão sempre feitos por uma equipe, grande ou pequena, para serem vistos por um certo número de pessoas, não importa que número seja esse, uma multidão ou apenas três amigos.

Fazer um filme é também usar o nosso amor ao cinema para reorganizar o mundo, tentar fazê-lo pelo menos um pouquinho melhor do que ele é. E só podemos pensar em executar essa tarefa, pensando nos outros e sobretudo no que eles precisam de nós para serem mais felizes.

A melhor maneira de realizar essa tarefa é filmando a nós mesmos. Isso é, filmando os nossos próximos, os que estão mais perto de nós, as nossas próprias comunidades, porque é disso que certamente melhor entendemos e é a isso que melhor podemos influenciar.

Num país como o Brasil, onde encontramos em cada esquina tantas injustiças e tantas misérias que queremos e precisamos mudar, as imagens cinematográficas que devemos fabricar estão portanto sempre passando ao nosso lado, cruzando nosso caminho, presentes em nosso cotidiano, sempre muito perto de nós.

Um bom exemplo desse comportamento, está no filme que um grupo desse curso da CUFA realizou recentemente, "Um ano e um dia", documentário que Antonio Amaral, João Xavier e Rafael da Costa fizeram a partir de uma revolta social sucedida em Nova Iguaçu, registrada pela câmera deles assim que ela se deu.

Se, como eu disse, o cinema é o espelho de um país, nosso dever de cineastas é o de voltar esse espelho para nós mesmos, com espírito crítico, mas também auto-estima, integridade para ser sincero sempre e muita coragem para dizer sempre a verdade.

Não se iludam, vocês não vão encontrar um caminho fácil na direção de seus anseios de cineastas, de produtores de audiovisual no Brasil. A entrada nesse mercado de trabalho é um gargalo apertado para todos, vocês terão certamente que enfrentar muitos obstáculos. À natural dificuldade de uma atividade não consolidada no país, como é a do cinema, se somarão os preconceitos e as discriminações eventuais que vocês poderão sofrer.

Cada vez que vocês encontrarem essas dificuldades, no entanto, lembrem-se sempre que vocês procuraram esse ofício por amor a ele e que vocês têm, como artistas e como cidadãos brasileiros, o direito inalienável de exercer esse amor da maneira que melhor o entenderem e com toda a liberdade para isso.

Muito obrigado pela honra que vocês me deram, me escolhendo como paraninfo de sua turma. O que vocês estão me dando aqui, com essa homenagem, é um prêmio que justifica minha própria vida.

Porque vocês, as novas gerações de cineastas brasileiros, são a certeza de que o cinema brasileiro não morrerá nunca e nós todos juntos poderemos sempre nos orgulharmos dele, construindo através do cinema um país onde todos tenham o que comer, todos tenham onde morar, como se educar e ter saúde. Um país na paz.

De todo coração, muito obrigado a todos vocês.
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