O Globo
Uns choques necessários
Carlos Diegues

O Partido dos Trabalhadores conseguiu produzir, em crescendo, uma auto-imagem negativa para seus aliados naturais e eleitores de sempre. A alta auto-concentração de seus projetos, a ausência de autocrítica, o culto à personalidade sem limites, o fracasso espetacular do governo Dilma, a arrogância apesar de tudo, fez do PT um alvo prioritário de eleitores irritados. Os inúmeros erros desde o mensalão, negados sem explicação conveniente e com intransigência autoritária, acabaram por contagiar tudo o que vinha dali. Inclusive a cândida candidatura de Fernando Haddad.


Em grande parte do voto majoritário que elegeu o novo presidente, deve estar a rejeição a um partido político que, apesar de anos no poder, quase nunca realizou o prometido, enquanto anunciava sua excelência como representante das classes populares e exibia uma velha liderança que, ao contrário do que já fora, se tornara populista, personalista e cheia de ambiguidades. O PT se tornaria assim eleitor involuntário de um candidato conservador que se dispunha a acabar, na marra, com a corrupção no serviço público, principal razão da miséria brasileira da qual o próprio Partido dos Trabalhadores fazia parte.  


Mesmo que não concordemos com as ideias e com o programa dos vencedores, não podemos esquecer que eles foram eleitos pelo voto popular, uma maioria indiscutível do país. Mas, numa democracia, não é por ser maioria que eles se tornam inquestionáveis. Temos o direito de discordar, desejar para o Brasil um outro futuro que não aquele que anunciam. Numa democracia, a maioria escolhe os que vão comandar a sociedade, mas também aqueles que vão lhes fazer oposição, mantendo sempre acesa a possibilidade da minoria estar eventualmente com a razão. É para isso que existem os outros, os que não pensam como eles, que não são iguais a eles.

Nessas eleições, o país deu uma guinada à direita. O responsável por essa guinada foi a vontade do povo, seja qual for a razão dele. Como não estou de acordo, me preparo para discordar, ser a sua negação democrática. Mas, para isso, não preciso invocar “resistência”, uma ação passiva de derrotados imobilizados. Como os franceses foram na blitz da ocupação nazista, ou como nós mesmos fomos na surpresa da ocupação militar de 1964. Na democracia, os que não concordam com o resultado da consulta popular devem fazer oposição sabendo celebrar o que julguem justo, torcendo para que o país dê certo, mesmo que parcialmente e nas mãos de quem não escolhemos para nos representar.


Temos vivido um vendaval de opiniões sectárias e histéricas de todos os lados, produzido por frustrações que não têm nada a ver com o estado do país. Há muito o que fazer pelo Brasil, em qualquer circunstância. É preciso acabar com a fome de grande parte da população, corrigir nossa brutal desigualdade, evitar a burocratização do ensino e da cultura, vencer a mortalidade infantil que cresce novamente, criar empregos para 12 milhões de brasileiros, proteger a população da violência e da insegurança públicas. Na eleição de 1989, a primeira da redemocratização do país, Mário Covas pregava um choque simultâneo de capitalismo e de democracia. Talvez estejamos de novo precisando disso, para acabar com o “capetalismo” e a “democradura”, invenções brasileiras tão sombrias, quanto indefinidas.

Temos, enfim, a obrigação de cumprir o que está em nossa Constituição de 1988. Ela não é apenas um relato de obrigações neutras e regulares, mas fala sobretudo de nossos deveres com a nação, em seus diferentes artigos: construir uma sociedade livre, erradicar a pobreza e as desigualdades sociais, não aceitar os preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade ou qualquer outra forma de discriminação. E por aí afora. Na abertura do primeiro capítulo do livro “Retrato do Brasil”, de Paulo Prado, um autor que não podia estar tão esquecido, está escrito ele escreveu:  “Numa terra radiosa vive um povo triste”. Talvez seja nosso dever torná-lo mais alegre.


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