O Globo
O futuro depois da eleição
Carlos Diegues

Como se supunha que fosse acontecer, Jair Bolsonaro foi eleito presidente da República. Não há mistério algum em saber quem ele é, não preciso sussurrar num tom de voz conspiratório que ouvi dizer isso ou aquilo dele, do que disse ou andou fazendo. O que ele é, o próprio Bolsonaro nos revela em tantos vídeos que ele mesmo grava ou deixa gravar para exibição pública.


Através desses vídeos, ficamos sabendo que ele considera a ONU uma perigosa reunião de comunistas; que vai afastar o Brasil do Acordo de Paris; que pretende resolver a polarização radicalizada da sociedade brasileira eliminando um dos lados, aquele que chama de “vermelho”, dando a seus ativistas a opção de deixar o Brasil ou ir para a cadeia. Os mesmos vídeos nos quais seu filho Eduardo, deputado como ele, afirma que um cabo e um soldado são suficientes para fechar o Supremo Tribunal Federal, confirmando a anedota pessimista do jurista Nelson Hungria: “Acima do Supremo, só os tanques e as baionetas”.


Os vídeos nos mostram que Bolsonaro prefere um regime autoritário e é a favor da tortura, tratando como herói um célebre torturador dos porões de nossa ditadura, Carlos Alberto Brilhante Ustra. O ex-capitão adotou, como slogan de sua campanha à presidência, a frase patriótica e  religiosa: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Como dificilmente o Senhor vai se dar ao trabalho de descer à terra para ajudá-lo a governar o país nesses próximos quatro anos, só restará a Bolsonaro se auto-nomear delegado d’Ele, autorizando a si mesmo os gestos que julgar que Deus praticaria.


Nada do que é dito nos parágrafos anteriores é fofoca, disse-me-disse com a intenção de prejudicar a imagem de um candidato legitimamente eleito pelo povo do país. Tudo foi dito por ele mesmo, ao vivo ou em vídeos que tratou de difundir pelos programas digitais dos quais participou em campanha. Uma novidade inteligente, pois o mundo digital cria novas tecnologias múltiplas e faz o raciocínio analógico único envelhecer.



Como não acredito que existam 60 milhões de brasileiros que pensam desse modo, que tenham pelos outros brasileiros sentimento tão destrutivo, só posso entender essa clara vitória de Bolsonaro como uma punição que o povo resolveu dar ao país, sobretudo às suas elites governantes. É como se dissessem à população que estão cansados de serem iludidos, de ouvir promessas que não se cumprem, de sofrerem calados à espera de uma remissão que nunca chega. Chega de incompetência, chega de malfeitos, chega de corrupção, chega de brincadeira com a felicidade do povo, agora vai ser pau puro, vocês que se danem.


Não me venham com a velha história de que o povo foi enganado, de que não faz ideia de quem são esses caras. Pela alegria que vejo nas ruas, o povo votou consciente, era isso mesmo o que ele queria. Os eleitores de Bolsonaro não são militantes de nenhum partido, nem ativistas de nenhuma ideologia, não têm uma cartilha doutrinária pela qual rezam sua doutrina. Ideologia de emergente é ascensão social e não luta de classes. E o “perigo comunista“ acabou há muito tempo, hoje só existe como pretexto para golpes de estado.

Apenas os eleitores se cansaram e só nos resta respeitar sua decisão. Eles quiseram punir o Brasil pela distância entre a imagem ideal do país e o que ele é de fato. Quem não estiver de acordo, que se prepare para a oposição que a democracia lhes dá o direito de exercer. A democracia que obriga o poder a aceitar a diferença, sem exigir nenhuma submissão do pensamento, apenas o respeito às regras e às leis.


Em 1776, a revolução americana inaugurou a democracia moderna. Mas foi na França, em 1789, um século antes da proclamação da república no Brasil, que a ideia de Democracia foi formulada com mais precisão, através de mote célebre: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. A Liberdade se tornou uma reivindicação básica do capitalismo e a Igualdade do socialismo. Sempre esperei que o Brasil resolvesse o impasse inventando a Fraternidade dos tempos modernos, resolvendo com uma face humana o confronto contemporâneo entre o indivíduo e a sociedade, o direito de sermos o que somos sem fazer mal a ninguém, de bem com todos. Ainda temos o direito de sonhar.

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